15 outubro 2008

Bom descanso

Mural de azulejos "Trabalhadores", localizado na Av. 23 de março, cidade de São Paulo, fotografado por Rafael Petit Imthum
Começo a cumprir, enfim, a longa promessa de publicar aqui no "Espaço" os artigos de minha antiga coluna Panorama, do Jornal A CIDADE, de Cornélio Procópio. Editada entre fevereiro e agosto de 2004, a coluna não possuía uniformidade temática, transitava de música e cinema a política e economia ao sabor de idéias sempre livres, nunca censuradas. Para inaugurar essas novas edições de velhos textos selecionei "Bom descanso", uma homenagem que faço ao trabalhador paranaense e à sua sensibilidade ao entardecer, no desejo de ver florirem as pétalas matutinas do amanhã. De quando em vez, outros dos 30 textos que publiquei no periódico procopense voltarão à luz aqui no blog.

Sempre considerei um grande barato ouvir as pessoas aqui do Paraná despedirem-se, após um dia de trabalho ou um encontro casual no final da tarde, no regresso a casa, com um sonoro e bastante sincero “bom descanso”.

O espanto alegre vem do fato de, em São Paulo, onde passei boa parte de minha vida, nunca se ouvir uma coisa dessas; no máximo um “boa noite”, “até mais”, “a gente de vê por aí”... O que eu notava, contudo, é que todas essas expressões eram ditas de maneira indiferente, sem sentimento, sem nada mais que uma certa boa educação, uma questão de mera e simples formalidade.

Aqui, no nosso saboroso “Paraná caipira”, de tantos povos, de tantas culturas, a história é bem diferente: existe, sim, uma importância bem grande ofertada ao tal “bom descanso”, e, ainda que a maioria das pessoas que expressem a doce despedida em questão não se dê conta de seu afortunado significado, ele existe. E é muito, muito interessante. Vamos lá ver.

A história do Paraná é uma epopéia de grandes aventuras. Por aqui o processo de colonização (formação de terras, fazendas e, mais tarde, comarcas e centros urbanos) foi árduo, exigiu grande trabalho e uma central e decisiva atenção à questão rural, dos campos de plantação, criação e vida, muita vida. Por “n” motivos, dentre os quais se destacam a questão de trabalho intenso, baixa remuneração e parcos investimentos em educação e respeito à dignidade dos trabalhadores... a população paranaense é pobre, nossas cidades são deficitárias em geração de emprego e renda e os salários, historicamente, permanecem baixos. Assim, cientes de quão caros e difíceis são os dias nossos de cada semana, mês e ano, geração após geração, os trabalhadores são sinceros ao desejar aos seus parceiros de luta dura pela vida o “bom descanso”. É, sem dúvida alguma, uma fala que exprime alento, solidariedade, uma esperança de o dia seguinte ser melhor, menos desgastante, mais proveitoso. O “bom descanso” diz: amanhã tem mais, amigo; aproveite para renovar suas energias; não esmaeça, não desista; um dia, quem sabe, amigo, tudo será diferente... e melhor!

Nessas pequenas e aparentemente insignificantes falas, o trabalhador expressa companheirismo, cumplicidade; através do “bom descanso” a esperança se alimenta, a vida flui, o amanhã acena para nós com mais vigor, mais iluminação. Em vez de “até amanhã”, “bom final de semana”, que são expressões genéricas que não dizem nada, talvez apenas se refiram à compostura, à “boa educação”, o otimista “bom descanso” diz também: relaxe, amigo, a luta continua e nós todos, trabalhadores, precisaremos de você amanhã; aproveite a noite, amigo, durma bem e não se esqueça de que amanhã vamos construir mais um pouco de nossa estrada rumo a um futuro melhor, mais justo e... humano!

Por isso, leitor(a), desejo-lhe uma boa leitura, um bom tempo de plantios e, é claro, um “bom descanso”. É isso.