10 outubro 2008

A celebração da diversidade

Publiquei no último domingo, 05.10, dia das eleições municipais em todo o Brasil, o artigo abaixo, na Folha de Londrina. A idéia era celebrar a festa da democracia, promovendo a crença na insistência da luta e da organização política na conquista de dias melhores, anos melhores. (De quebra fiz minha tão sonhada - e sempre adiada! - homenagem a mestre Didi, herói de 1958, arquétipo da serenidade, da liderança.) Imagino que o único meio para vitórias duradouras seja a batalha das idéias, a persuasão, o convencimento por projetos. Parece-me, na esteira da tradição clássica que me alimenta, que essas são as portas mais convidativas e semi-abertas para o socialismo. Que assim seja!

No final da Copa do Mundo de 1958, disputada em terras estrangeiras, a seleção brasileira conquistava o primeiro de seus cinco títulos na maior de suas artes esportivas, o futebol.

Logo depois de o time canarinho levar o primeiro gol dos suecos, sob efusivos aplausos da rainha e da nobreza escandinava, Didi, o mestre, capturou a bola no fundo do gol e, à medida que caminhava para o centro do campo, tranqüilamente, reuniu seus pares e lhes disse que ganhariam se permanecessem unidos, perderiam se abrissem mão de seus sonhos, de seus objetivos naquele país frio e distante. Bom, o resultado disso todo o mundo conhece: o Brasil fez vários gols e venceu a partida por 5 a 2, libertando-se dos fantasmas do futebol que o assombravam desde 1950, quando perdeu a final para o Uruguai, num Maracanã com mais de duzentos mil torcedores.

A democracia e o processo eleitoral têm muito do exemplo dedicado de mestre Didi, das palavras que dirigiu aos companheiros de time. Para existir de fato, a festa da democracia requer união, parcerias, lágrimas e suor. A participação política deve aproximar eleitores e candidatos, expor idéias, desnudar projetos e visões de mundo. Mais que votar, o cidadão precisa surgir no mundo público, emitindo seus juízos, pronunciando seus desejos, pautando seus representantes e instituições, afirmando compromissos sobre os destinos de sua comunidade.

Hoje, domingo de eleições municipais em todo o país, cada cidadão é um mundo, e a reunião desses mundos deve compor o universo democrático da cidadania, do exercício dos direitos sociais, políticos, culturais e econômicos de todos os nossos dias, de toda a nossa história. A eleição deve reiterar, reformar, revolucionar o pacto coletivo em que se expressam a realização de nossos deveres e a necessidade de novas conquistas. Afinal, no melhor da tradição clássica, somos todos políticos, uma vez que são políticas todas as palavras que lançamos no espaço público, na cidade, berço do mundo comum. Numa palavra: tudo é política porque ao agirmos criamos um mundo à nossa imagem e semelhança, pelo qual seremos lembrados e permanentemente cobrados, hoje e sempre.

Para a festa da democracia, que se amplia na consolidação das lutas dos trabalhadores desde o início da modernidade, no curso dos últimos três séculos, todos devem se sentir convidados: votar, discutir, expressar valores, exigir postura ética e respeito pela cidade, pela vida humana. Cobrar decência, transparência, compromisso público, de nós mesmos e de todos aqueles que partilham a mesma realidade.

Na democracia, essa celebração tão jovem e vital para a liberdade e a igualdade entre indivíduos e grupos sociais, graças à qual percebemos nossos sonhos e projetamos nossas vidas por meio de atividades cotidianas em casa e na rua, o exemplo deve ser o de insistir sempre, ainda que fracassos e decepções indiquem o caminho da apatia e da resignação. É do amadurecimento no convívio, entre identidades tão diversas e, por isso mesmo, tão complementares e mutuamente enriquecedoras, que nasce, floresce e se consolida o espírito democrático. Exigente, a democracia tem, sim, seus caprichos, suas sinuosidades. Mas só por meio dela podemos alcançar um mundo que não nos seja alheio, imposto, bruto e sempre tão desigual. Hoje, portanto, é dia de brindarmos o futuro, a esperança, a tomada da história, em mais um belo capítulo da vida brasileira, em nossas próprias mãos. É isso.