15 outubro 2008

Flanando entre estrelas

"Sala de TV", fotografia de Sidney Ganho

Texto entregue hoje para publicação na Revista Estação, edição n. 07, verão 2008/09

Recortar fotografias de revistas sobre celebridades da TV; copiar moldes dos modelos utilizados pelas atrizes a despontar no horário nobre da grande mídia eletrônica; escrever para a produção das telenovelas da emissora líder em audiência; garantir lugar na comissão de frente de todas as passarelas, entradas de hotel, recepção de festas, todos os agitos em que estejam seus ídolos, seus arquétipos de beleza e inteligência. A vida dela era pura excitação, um movimento quase sem fim, alucinante. Não conseguia se imaginar a perder uma informação, uma boa-nova sobre a vida de seus artistas favoritos. Bradava ao mundo: sei de tudo, de todos, não deixo escapar uma sequer.

Amava os garotos e as garotas, os neófitos e os mais experientes. Indiferente era diante das séries do momento ou dos clássicos que costumam ressuscitar estrelas apagadas. Não buscava só os belos corpos, o tal sex appeal das novas gerações a desfilar na tela da TV, nos tititis da imprensa-fofoca. Não era uma questão de sexualidade, desejo. Não. Era paixão pelo luxo, pelo sempre inusitado, inédito. Acompanhar a vida das pessoas famosas lhe representava entender um pouco do vazio que existia nela mesma, abissal, o qual nem livros, nem amigos de carne e osso, nem trabalho, nada conseguia preencher, ofertar sentido, apontar caminho, alguma lucidez.
Durante uma cerimônia para escolher a miss de sua cidade, na prévia para o concurso estadual, evento para o qual se dirigiu exclusivamente para admirar seu mais recente ídolo teen, conheceu um rapaz, cujo encontro resultou em namoro, flerte, um bom e pós-modernoso “ficar com”. Beijava-lhe a face, tímida, imaginando inebriar-se nos lábios de seus heróis da moda e da TV. Olhava-o de soslaio, desconfiada, mas a torcer pelo milagre de vê-lo transformar-se no galã dos filmes de ação mais agitados de Hollywood, que em breve estariam na tela do televisor, numa noite qualquer de segunda-feira. Sentindo-se sistematicamente rejeitado e traído pelo virtual, concorrente invencível, o rapaz deu fim ao namoro-relâmpago. Ela, enfim, consagrava sua liberdade: nunca se sentira tão aprisionada quanto naqueles dias de relacionamento instigantemente real, com alguém ao vivo e em cores a lhe tocar o proibido, aquilo que estava desde sempre reservado para o acaso, a estréia no mundo da moda, das capas de revista, dos talk shows, das saias-justas dos programas de auditório. Afinal, de que lhe teria servido a vida, senão de insistente paciência e fantasia para alcançar a fama? Não seria isso ser in? Morria um pouco todo dia só de pensar em viver uma horinha que fosse out, fora do ar. Detestava gente fora da realidade, desantenada. Tinha dó de tanta alienação, da estranha compulsão das pessoas por viverem anônimas, desejantes de paz, fraternidade, justiça. Decididamente, queria mais da vida, muito mais.