08 novembro 2008

Letras de sábado

Resolvi olhar para todos os lados, e para trás, e para frente. Pensei que talvez fosse oportuno avaliar até que ponto as coisas podem melhorar, deixar-me sair da encruzilhada. A educação, sempre acreditei, seria a salvação do mundo. Mas, acredito ainda mais na validade desta questão, como fazer a educação competir em condições de igualdade com uma realidade vazia, pobre, toda virtual? Sinto o universo se chocando contra meus ideais, tornando-os ainda mais anacrônicos do que já o são desde que o capital disse ter vencido o trabalho, desde que o poder do dinheiro (o tal "Money Talks" do velho e eterno AC/DC) disse ter aniquilado o que possa haver de humano nesta nossa aldeia de poucos globos, muitos quadrados, visões distorcidas de tudo, do próprio olhar até.
A chuva molha a alma, mas não me permite entender o que fazer. O velho Lenin escreveu sobre isso, e não pôde fazer muita coisa: o mundo também lhe desabou sobre os ombros, a consciência revolucionária. Morremos todos os dias, e a certeza da estagnação torna a morte cruel, invencível... Prefiro a vida à morte. O desejo de não morrer, entretanto, assume diante da vida o postulado do trágico: nossos dramas viram têmporas. E essas têm doído bastante, oprimindo, como o cérebro das gerações que passaram, a idéia minha a respeito do amanhã. Ainda penso, contudo: a sociologia é maior que tudo. Complemento, todavia: é preciso melhorá-la, dar-lhe novas cores, novos tons.
Na poesia aleatória, no vento que permite aos meus lábios suaves sorrisos, expresso os novos mundos que fazem contato aqui, na multidão alucinada e indisciplinada de minhas revoluções. Componho versos, assumo-os rebeldes e jogo às ruas do mundo o sentimento da mudança, da inevitável transformação de que precisam meus sentidos, toda a minha racionalidade, hoje tão cortada, fragmentada, ferida...
Escrevo para não esquecer que não posso me esquecer de que preciso das palavras escritas para viver. Se a preguiça e o mal-estar pós-moderno me atrapalham, não me aniquilam. E erram nisto: eu só sei insistir. Ao lado e à frente de minha velha e reformada lettera 32.
Mais letras estão chegando. E as minhas utopias então renascem. Diariamente.

Dúvidas

"Heroic Roses", do genial Paul Klee
Já me foi dito
que entre a casa e a rua
o mundo é meu cobertor
Também já me disseram que
entre o sim e o não
a aposta deve ser no sim
pois é a única forma de vencer
Dúvidas persistem
medos
avalanches de sentimentos
confusos
loucos
doídos
vazios
Perfuro minh'alma
nada vejo
nada sinto
nenhum sinal
ventos de inquietude
caminho para o lar
sem saber para onde ir
Amores e desamores
préstimos

insistência
idas e vindas
coração em pedaços
dilacerado pelo desconcertante
ritmo de minhas não-palavras, não-atitudes
Vejo o vermelho do céu
fim de tarde
nova aurora
Já me cantaram que tudo isso
trata do resto da noite
empurrando a saia do dia
Coração rubro
coragem eterna
velhos ideais
novas histórias