30 dezembro 2009

Ventos, pássaros e anjos da mudança

"Fênix", o eterno símbolo do renascimento inesperado. Emblema de vigor, coragem, revolução!

Em 2010, lançando um compromisso no ar, o "Espaço" terá de mim maiores cuidados e dedicada escrita. Estão em momentos finais os retoques estéticos e a compilação dos novos escritos, entre poemas, crônicas, memórias socialistas.

De 17 de dezembro de 2008 a 18 de dezembro de 2009 correu uma era de instabilidade em minha vida. Na noite do dia 18.12.2009, como num gesto de pura mágica, as coisas começaram de fato a mudar. Um encontro inesperado se fez, um sentimento reprimido aflorou, uma chance de nova vida se revelou definitivamente presente. Das ilusões de 2008 à revolta permanente de 2009, refiz-me agora no equilíbrio necessário, antes ausente por sucessivas derrapadas ao longo do caminho.

Os quase silenciosos conselhos de meu pai, dados pelo legado de sua biografia tão ímpar, farão sempre muita falta. Creio, contudo, que a linha da vida segue, e eu tenho muito a realizar. Parece que ouço meu pai me dizer isto: "Siga em frente, filho. A luta continua!"

As perspectivas de uma vida amorosa gigantesca, do tamanho do meu coração (alimentado por amores e paixões pujantes por toda a vida!), se anunciam também com clarividência. Encontrei um anjo que sobrevoava meus dias sem que eu desconfiasse estivesse a me observar, cuidar de mim.

Aproveito a deixa para desejar um 2010 de ricas transformações na alma, nas subjetividades revolucionárias, cujo alcance figura entre os objetos de desejo deste "Espaço".

Até janeiro!

Fraternamente...

Marco A. Rossi, o blogueiro (reinventado!)

07 dezembro 2009

Meu PAI, eterno!

Para homenagear meu PAI, Osmar Rossi, guerrilheiro da LIBERDADE, falecido no último sábado, 05.12.2009, sepultado num domingo de Sol e calmaria, como era o olhar que ele me lançava desde que eu era garoto, reproduzo abaixo os breves textos que depositei no twitter agora há pouco. No decorrer dos dias, quando meu coração aliviar-se da dor pela ausência de meu HERÓI, o único, voltarei ao "Espaço". Há muito que publicar, acumulado nas laudas e mais laudas de meus cuidados manuscritos. Aproveito para agradecer orações e palavras de solidariedade. Do coração, obrigado!

Sábado, 05.12, o coração vermelho de meu PAI parou de bater. De uma história de lutas e liberdade ficam também o exemplo e a generosidade!

Permanecerão ainda o caráter, a coerência e a forma tão particular de ter me deixado o COMUNISMO como herança. De minha parte, AMOR ETERNO!

OBRIGADO, PAI. Por tudo e mais um pouco!!!

25 novembro 2009

Breve recesso!

Por motivos de força muito maior, o "Espaço" está em recesso. Muitas coisas novas já estão prontas e algumas delicadas mudanças farão parte do renovado layout.

Tenho certeza de que posso contar com o apoio e a generosidade sempre emocionante de meus amigos e leitores.

Fraternamente...

Marco A. Rossi

29 outubro 2009

Minha resistência

Fotograma de "Fahrenheit 451" (1966), de François Truffaut, que esboça um mundo em que os livros, sendo ilegais, seriam recolhidos e incinerados. Quem, hoje, com um livro em mãos, seria considerado uma "ameaça à ordem"? Quem hoje se importaria se os livros desaparecessem?

A leitura faz parte da vida de todo o mundo. Os livros não. As novas gerações leem céus e infernos, mundos e fundos; veem TV, conectam-se por horas a servidores ou outras vidas virtuais, quase inanimadas. Impedidas por todo esse excesso de pouco criativas fantasias, não transformam mais palavras em ideias, frases em juízos, parágrafos em argumentos, páginas em descobertas, livros em razão para existir, transcender, voltar a Terra mais vigorosos, sabedores de um amanhã diferente, melhor.

Ler, hoje, é colorir telas e transbordar a alma em encruzilhadas, desalmando-a na incerteza certa. O vazio preenche o indizível. As narrativas estão mesmo todas mortas - e enterradas! Noves fora todos os ismos, até aqueles irretorquíveis e ingênuos. Adeus às inocências, sempre tão necessitadas da palavra, do lirismo das letras, da paixão que imagina, ousa, refaz o mundo sílaba após sílaba.

Cronistas não prestam mais homenagens ao futuro. O próprio futuro, órfão do presente, perdeu-se na imemorialidade do passado, ancestral esquecido, mutilado pelos vitrais da pós-modernidade.

Eu escrevo porque sou pura resistência.

23 outubro 2009

À revelia

A doce crítica de Mafalda, do grande Quino, ao modo como os reacionários veem a liberdade...

aos educadores que simpatizam com o amanhã,
apesar do vazio desesperançoso do presente

Pensar para mudar
mudar para algo ser
algo ver
poder fazer
origem: theoro

Sentido é impermanência
figura do alterar
para manter
humanizando
revolução: destino

Tristes tópicos trópicos
mentes conservadoras
quase reacionárias
se soubessem o que defendem
desejam reacender
sentença: consciência-fora-de-si

A velha palavra não provoca
é frágil diante das certezas tão incertas
do amanhã improvável
- isso é certo!
da leitura desfeita, rarefeita, relegada
- isso é ainda mais certo!

No jeito sem trejeito
a ternura perde para o inaudito
deseducado, deselegante
facilidades: paralisia

Consumadas pelo consumo
almas buscam o que há
não havendo
iludindo o presente já sem depois
não houve daqui a pouco também: sina

Cabeças impermeáveis
histórias travadas
a bancarrota da dignidade
banal, frugal, nada venal
efeito radical: neomesmices

Vidas habitam despovoados
imberbes, imaturas
deslocadas, descoladas, amarguradas

Haverá o novo?
Certamente: à revelia

17 outubro 2009

Dançando com um anjo

Disseram-me dia desses que a inserção de vídeos aqui no "Espaço" seria uma pequena questão de tempo. Andei relutando por privilegiar a palavra escrita como arma essencial da crítica e da sensibilidade, mesmo quando o assunto eram filmes e álbuns musicais. E isso, creio, não mudará tão cedo em minha vida... Fã incondicional do velho Udo e do Accept (legendária banda de rock pesado dos anos 80'), entretanto, não resisti e resolvi postar essa esmeralda de arte, voz e talento. Doro, alemã que publicou páginas densas em minha biografia amorosa na década dos oitenta, início dos noventa, e Udo, a voz, dão show nessa balada que estremece até muralhas. É ouvir e se emocionar. Sempre. Afinal, quem nunca sonhou em dançar com um anjo?!

07 outubro 2009

Tempo para o tempo - reconstruir

"Na ânsia de controlar o pensamento, o homem separou uns dos outros os diferentes aspectos da realidade, isolou os objetos ou fenômenos de seu ambiente; tornou-se incapaz de integrar um conhecimento em seu contexto e no sistema global que lhe dá sentido. O homem acreditou que o progresso e o desenvolvimento eram as soluções para tudo, e esta simplificação teve um alto custo para o planeta. Todo conhecimento da realidade não animado e controlado pelo paradigma de complexidade destina-se a ser mutilado e, nesse sentido, a carecer de realismo."

EDGAR MORIN

22 setembro 2009

Rebeldia-alma

"...", fotografia de José Luis Cunha

Um corte profundo
dor, a inevitável cicatriz
suores e fantasias
a transferência indesejada do desejo

Contenção, coerção, condução
um tiro é dado no escuro
pés, mãos, faces a disposição
O medo menor que o horror
o sonho como passageiro
tranquilo, perene, etéreo-eterno

Trago comigo a paz insistente
a inquieta fome da rebeldia-alma
calor, calor, calor

A coragem é escudo
posiciona-se diante do mundo
grande - coração iluminado

Beijos, movimentos e preces
um pedido de calma
ver a vida, enfim - praia adentro

Vento ventania

Brevidade
rostos em panorama-múndi
lembranças, risos, canções

Fuga do vento extemporâneo
a vida retorna, presságios-múndi
sonhos, ansiedade, letras mil

15 setembro 2009

Orlas críticas

Passo a passo: não obstante cansado e muito decidido a dar outros e novos rumos a minha vida pessoal e profissional, venho encontrando fórmulas para o menor desgaste, a dura e cruel descompensação.

Ser sociólogo é o melhor da vida. Quero, contudo, ser outro, de novas maneiras. No mundo da forma-mercadoria tem sido difícil, estafante, uma via de mão única. As encruzilhadas nublam o olhar e tornam estéreis os sonhos de virtude.

Em meio aos descaminhos da obrigatoriedade de ganhar a vida, tive uma opção reconfortante: trabalhar, juntar dinheiro, pagar contas e honrar o ser desejante que há em mim (em todo humano) fazendo sociologia. Posto que imperativo, o trabalho me é dado por sendas prazerosas. Não é a sociologia que sonho realizar; não é o ambiente pelo qual quero me ver tomado, totalizado - a Academia da forma-mercadoria é hostil ao conhecimento como instrumento de emancipação do gênero humano, como palco privilegiado da luta de classes; não é o alunado engajado e mobilizador com o qual sonhei em meus delírios meia-oito... Mas é, sem dúvida, uma perspectiva da qual me disponho a brigar por outras caracterizações hegemônicas no confronto das visões de mundo e na própria diversidade dos universos de cultura.

Muito espero, entretanto, que esses espaços disponíveis me abram possibilidades mais abrangentes, compatíveis com uma sociologia verdadeiramente crítica, militante, cinematográfica - quero mesmo é filmar a revolução na orla atlântica do mundo que me fez nascer.

E mais que esperar, tenho batalhado por isso com a insistência corajosa dos apaixonados. Pela vida. Pela sociologia.

12 setembro 2009

A Utopia como calor humanizador

Thomas Morus e o fac-símile da primeira edição de sua Utopia, ilha de paz e prosperidade romanceada e trazida à luz da memória política da humanidade em 1516

Amanhã, 13.09, farei minha terceira participação na Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina. Na primeira oportunidade, em 2006, como palestrante do mês, esbocei algumas considerações sobre o mundo pós-moderno. Em 2007, a substituir Dr. Leonardo Prota em suas reflexões filosóficas, falei sobre o amor. Agora é a vez de propagar minha crença na utopia, homenageando Morus, Rousseau e os contestadores libertários do século XVIII. Soube, no entanto, que serei convidado a compor o quadro de colaboradores culturais permanentes da Academia de minha cidade: estarei, com isso, a um passo da imortalidade. Viva a UTOPIA de quem fez da escrita um ofício de vida, para a vida.
Quando o continente americano foi redescoberto por Colombo, o inglês Thomas Morus tinha apenas 14 anos. A imagem de um paraíso perdido além-mar, ainda isento das barbáries estimuladas pela coroa inglesa e por um mercantilismo cada vez mais acirrado no Velho Mundo, influenciou de modo decisivo a vida e a obra do autor de Utopia. A expressão-título da obra-prima de Morus surge, então, pela primeira vez, em 1516, revelando ao mundo uma ilha em que tudo, a olhar da perspectiva de uma Europa do início do século XVI, era correto e humano, justo e fraterno. Dividida em duas densas partes, a narrativa utópica de Morus questiona a brutalidade da Grã-Bretanha contra todos que se lançam à frente de seus desejos de expansão e crescimento (os quais provocam agudas desigualdades sociais e inconcebíveis formas de exploração do trabalho sob proteção da propriedade privada) e, em seguida, designa o não-lugar, o imaginário, a fantasia que ilumina e permite: descrevem-se os detalhes da organização social da ilha Utopia.
Não obstante os limites de um sonho expresso literariamente na metade do milênio passado, em Utopia consagram-se a paz, a ordem e o respeito à diversidade, com igual tratamento de gênero, tolerância religiosa e divisão razoavelmente equilibrada das atividades sociais. Nascida da capacidade de sonhar de um sujeito que se antecipava ao advento histórico do Renascimento, a Utopia demonstra a inesgotável generosidade da espécie humana em relação ao despertar da compaixão e da verdadeira solidariedade.
O grande alcance social, político e cultural de Utopia, no entanto, se fez mais tarde, quando a influência do pensamento de Sir Thomas Morus (canonizado pela Igreja católica em 1935) contagiou renascentistas, iluministas e socialistas libertários, perfazendo uma tradição intelectual e militante que vem atravessando os séculos e rompendo fronteiras em todo o mundo.
O genebrino Jean-Jacques Rousseau, que viveu 66 anos e morreu 11 anos antes da Queda da Bastilha, na Paris de 1789, é um dos personagens de nosso tempo que melhor traduzem o impacto da Utopia na confecção das sociedades modernas. Contrário a Hobbes, que via entre os homens o imperativo do mal absoluto a espreitar cada vida, cada alma naturalmente podre e perturbada, e a Locke, que só conseguia entender a liberdade como um instrumento a serviço da propriedade privada burguesa, elevada pelo autor do Segundo Tratado Sobre o Governo à condição de direito natural, Rousseau entende por livre o homem capaz de repartir com todos o ideal e a aventura de construção da igualdade. Em seu Contrato Social, Rousseau não quer fugir ao estado de natureza hobbesiano nem delimitar os procedimentos para a manutenção da liberdade individual e do acúmulo de bens – prerrogativas caras ao pensamento liberal de inspiração lockeana. Sua única motivação é desvelar que a liberdade só se constrói coletivamente, num permanente exercício de fazer valer a vontade geral, a aspiração dos cidadãos. Depois de passar pelas mãos do rei e pelo indivíduo proprietário de bens, terras e muito capital, a soberania, enfim, chegava ao seu elixir mais avançado: o soberano, em Rousseau, é o povo. A Utopia, de Morus, ganha, com o pensamento político rousseauniano, ares de modernidade democrática.
Tragada pela ascensão dos ideais burgueses e pela materialização das sociedades de livre mercado, cujo eixo é a tão propagandeada propriedade particular dos meios de produção, a obra de Rousseau – e, em retrospectiva, as utopias pré-modernas, como a de Morus – perderia espaço na batalha das idéias e voltaria, na forma de radicalização das práticas e concepções de mundo, algumas décadas à frente, iluminada pelos acontecimentos mais marcantes da revolução francesa.
A trajetória do movimento iluminista nos séculos XVIII e XIX, motor e alicerce da dupla revolução política da Era Moderna – a francesa, de 1789, e a estadunidense, de 1776 -, oscilou entre a perspectiva liberal de adotar posturas cada vez mais conservadoras na luta política e a radicalidade democrática dos revolucionários de propagar aos quatro cantos a urgência de medidas cada vez mais ousadas e perturbadoras, inquietantes como política; acaloradas, como cultura.
Enquanto a intelectualidade burguesa buscava cerrar fileiras ao lado do liberalismo-conservador (como o próprio Locke, Burke, Voltaire), buscando de todas as formas declarar o fim do movimento revolucionário que permitiu o alçar voo das sanhas de poder de industriais e comerciantes, jovens contestadores reivindicavam melhores condições de vida aos trabalhadores, participação política efetiva da maioria operária e camponesa, expansão sem limites do acesso à riqueza socialmente produzida. Entre esses revolucionários corriam de modo eloquente e voraz os valores utópicos traçados por Morus, Rousseau e tantos outros precursores do ideal libertário.
Ainda que existam diferenças quase infinitas entre suas maneiras de conceber o “mundo perfeito” (penso, por exemplo, na excentricidade das proposições de Charles Fourier ou Saint-Simon e na concretude material de um Robespierre ou de um Graco Babeuf), os utópicos e libertários do século XVIII se unificavam no ideal de prolongar a revolução como ato político permanente e projeto cultural das classes sociais subalternas. Anarquistas e socialistas utópicos (definições que só farão sentido na vida política dos séculos XIX e XX) dividiam a utopia moderna: liberdade de fato, igualdade entre todos, fraternidade para valer.
Com a intensificação tecnológica e ideológica dos instrumentos de exploração do homem pelo homem; com a derrocada ambiental e a catarse ecológica do século XXI; com a corrosão do caráter num mundo em que trabalho é castigo e consumo, redenção e felicidade; com a frustrada experiência do socialismo do Leste no curso do século XX; com o individualismo ególatra e indiferente de nosso tempo tão virtual e pouco afetivo, abalado por doenças e sucessivas modalidades de mal-estar, sufocamento das liberdades humanas... imagino que seja por demais pertinente relembrar a fortuna crítica daqueles que não se restringiram a viver a vida de modo isolado e distante. A Utopia de nosso tempo – que pode aprender com Morus, Rousseau, Fourier, Marx, Gramsci e tantos outros batalhadores da liberdade – deve somar esforços na edificação de um ideal abrangente e avançado, capaz de reunir as identidades perdidas e redefinir prioridades à vida humana no planeta. Creio que em vez do ter, muito mais ser; em vez do “eu sou”, “nós podemos e, por isso, somos”. Pequenas mudanças de atitude trariam como valor cultural das novas gerações o imaginário utópico tão bem sintetizados nas palavras do filósofo Leandro Konder: “A utopia é uma fonte que alimenta inquietações generosas, nobres ímpetos justiceiros e uma preciosa disposição para a busca da felicidade universal. Nela se revelam aos seres humanos aspectos novos de suas carências, anseios, fantasias e desejos”. É isso.

10 setembro 2009

Traçado

"Caminhando no Paraíso", fotografia de Fernando Dias

Um poema é um traço
um grito a lápis sobre a face das coisas
que, juntas, compõem o mundo
o planeta inteiro de todas as coisas

As coisas não são
entretanto
as tais mercadorias à venda no mundo
nos supermercados da não-vida

As coisas são a junção dos traços
o contorno na ponta do lápis
que, disperso, reúne nossos sonhos

Os sonhos é que são mesmo os poemas
dos traços
das coisas
da vida
Sonhar é viver
sem mercantilizar o traço
o esboço
o desejo

Poemas são então como riscos
traços de vida
sonhos das coisas
humanas, belas, eternas

07 setembro 2009

Escrito de setembro...

Imagino que a primavera vá trazer consigo as flores e a redenção dos meus sonhos. Eu, que nem acredito muito na ausência do brilho eterno - porque vejo luzes no movimento da História -, percebo boas novas cantarolando no jardim. Amores renascem, conduzem vidas por trilhos, sendas, alvoradas. Quero mesmo é jamais abandonar o horizonte colorido do amanhecer. Penso nas flores, sinto seu perfume. Na estrada real, caminhantes me acenam com o futuro às mãos. Digo que entendo a sugestão. Escrevo outro poema.
Ao entardecer, caminho e vejo o reflexo de meus delírios: estou a viver a utopia mais real de minha trajetória. Escrevo sob o sol, de frente para águas de muita força, capazes de aproximar biografia e História. Águas da imaginação sociológica. Prendo-me então ao sorriso maroto que corta meus lábios. Surpreendo-me com tanta fé no peito. Eu quero é mais. Trago comigo o desejo irreparável da mudança. Por que alterar meus passos? Eles é que me ensinaram a pensar nessas coisas todas. Caminhadas pensantes, cheias de vigor e atitudes radicais (hegelianamente falando).
Antecipo a semana e beijo o céu. Estou disposto a seguir em frente. Como nunca. Turbilhão de energia. Lembro o velho Barão de Itararé, mas passo a sua frente, humilde, reverente: meu mundo, antes chato, volta a ser redondo e a fazer sentido (weberianamente falando).

28 agosto 2009

"Garotas Rodrigueanas" (homenagem ao tricolor mais conservador de minha vida)

"Recônditos prazeres", fotografia do português Aoluar

Havia duas pessoas na estranha sala de espera. A mais jovem, menina de 15 , 16 anos, procurava o próprio olhar, perdido pelas paredes da clínica, a contar frisos entre os azulejos. A outra pessoa, também garota, mais velha um pouco, madura e bela, aparentava 25, 26 anos. Corpo escultural, olhos perfurantes, insistia em fazer evidentes belo decote, sugestivos e doces seios. Em nenhum momento trocaram sinais ou palavras.

As garotas já haviam folheado revistas, ido até a porta de entrada umas centenas de vezes. A tensão lhes tomava os ânimos. Diferentes no corpo, na idade e marcadamente nas histórias de vida, aguardavam a urgente visita a um médico de senhoras - nome viciadamente conservador ofertado a ginecologistas num passado não muito distante, moralista aos tubos, falso às alturas.

Quando a menina mais jovem ouviu seu nome, lançado ao ar pela secretária de pouco humor daquela pequena e burguesa clínica médica no chique entroncamento de ruas centrais de Londrina, suas sobrancelhas ganharam voo, mantiveram-se estanques e não puderam esconder o misto de alívio (a hora havia chegado) e medo. A provável pergunta em sua mente: o que terei de ouvir depois de tudo que me ocorreu?

Conjecturas. Era tudo que se podia produzir num momento como aquele.
De repente, percebeu-se que a garota mais velha se levantou e conduziu-se com a outra até o consultório. Estavam juntas, despercebidas uma da outra, é verdade, mas, agora, indubitavelmente juntas.

Momentos depois soube-se que eram namoradas, em crise após o relacionamento ter sido atingido pelo retorno inoportuno de um coleguinha de escola da garota mais jovem. Beijos de lá, beijos de cá, acabaram dando sorte à experiência que as duas, em comunhão de paixão, haviam despertado unidas, morando juntas, brigadas com meio mundo. Transaram, os colegiais, de modo imprudente, sem o uso de preservativos.

Ainda que se sentindo traída, a morena de vinte e poucos anos acompanhou a pequena paixão ao ginecologista. Queria ter certeza de que a amada, tão jovem e desavisada das coisas do mundo, estava bem. Aproveitaram a oportunidade para reatar a união, perdoaram-se mutuamente, pela traição de uma, pela cólera da outra.
O amor tem suas curvas e linhas de chegada. Dura é a espera.

16 agosto 2009

Meio metro

"My other side", fotografia de Zé Luis Cunha

Um sinal
uma tentativa de reunir histórias
uma simples demonstração do desejo que não findou
nova estrada, vida inteira, imensa.

Um beijo, temperatura sob controle
promessa de mil manhãs
todos os amanhãs
fusão de quereres, dialética do saber
interlocução, universos afins, enfim.

Uma utopia
corpos sintonizados
ressentimentos tratados com choque
dado o xeque
irrompe a paixão

Olhares, gestos simultâneos
corações selvagens, coragem leonina
Lynch fez-se cupido:
estrada perdida, rumo à cidade dos sonhos

Um amor, conceito
suor desmedido, corrente
horizonte espraiado à vista
Por que tantos desencontros
disparadas e disparates?
Por que dor, rancor, furor?

Mãos, conexão
interminavelmente em comum
de um pelo outro
do outro pelo um
mais que parte, o tudo, o sempre

Agora é certo: meio metro
menos de um passo
uma mensagem, um abraço, calor
o beijo do brilho eterno
celeste, na relva
juntos, loucos, assim

10 agosto 2009

Um prefácio heterodoxo...


Capa do livro "Heresia vs. Espiritualidade", de Ivode Kleber, publicado pela editora evangélica londrinense "Descoberta". Interessantes reflexões sobre a vida cristã e a fé em Deus num tempo de mercantilização de valores de todo o tipo, inclusive espirituais, transcendentes

No último dia 31.07 participei do coquetel de lançamento do livro do Pr. Ivode Kleber, "Heresia vs. Espiritualidade". De sobrenome gracioso e inteligente (a heresia de ser espiritual ou a graça de ser herege?), o livro conta com minha participação na elaboração do prefácio. Confesso que quando fui convidado por Kleber - é assim que o conhecemos! - para escrever a tal apresentação senti-me honrado e... preocupado. Como um marxista impenitente se faria presente num prefácio de obra protestante, a versar sobre os (des)caminhos da fá cristã nos tempos líquido-modernos? Quando li os indicativos da obra (quarta capa, orelha do livro, resumo capítulo a capítulo...), percebi que estávamos, Kleber e eu, em sintonia radical. O fato de ter sido seu professor na faculdade de Direito já me dava o tom da postura de Kleber em face do tema de seu agora bom livro: nossos tempos são os de uma Igreja sem Cristo, sem cruz sem fé, sem reflexão. Bom, creio que a publicação de meu prefácio aqui no "Espaço" elucide um pouco mais o que exponho por meio dessas palavras aparentemente tão litúrgicas, voltadas para especialistas. De resto, fica o registro de minha alegria no caminhar pelas coisas cristãs. De fato - como eu sempre havia desconfiado -, Jesus e Marx (o verdadeiro cristianismo e o verdadeiro marxismo) têm mais em comum do que em incomum, divergente. E isso se revela de modo contumaz por meio de seus ideais, de seus valores, de suas ações em vida. Cristo, para falar com Leonardo Boff (presente no livro!), foi mesmo um revolucionário sem armas!
Prefaciar uma obra é sempre um ato meio herege. Há o risco permanente de poluir a imaginação do leitor em relação às páginas que se seguirão. Para o bem ou para o mal – já que o tema por aqui não escapará a algum tipo de heresia -, o apresentador ou o prefaciador de uma obra carrega grande responsabilidade: orientar uma boa leitura e estimular a curiosidade e o desejo de disputar as letras do texto vindouro. Se o empenho não for bem-sucedido, o veneno pode ser dos piores, ou seja, o predisposto leitor deixa de lado uma possível grande obra por conta de um mestre de cerimônias literárias despreparado para fazer a coisa certa.
Acredito que no caso do livro de Ivode Kleber, “Heresia vs. Espiritualidade: a heresia de ser espiritual vs. a graça de ser herege”, o prefaciador caminha por águas seguras, contornando marés suaves e desembocando em oceanos repletos de conteúdo, num maremoto de grandes reflexões, pertinentes, consequentes e verdadeiramente abrangentes.
Ser herege hoje é abdicar, de modo mais ou menos proposital (sem com isso deixar de ser autoalienado), do convívio com a diversidade, do inevitável e enriquecedor aprendizado em meios plurais. O livro que o leitor tem ora em mãos atravessa esta notável pista: todos nós, aprendizes de humanos em tempos de barbárie e corrosão do caráter – para falar com o sociólogo Richard Sennett -, somos a um só tempo iguais na diferença, diferentes na igualdade. A ciência disso nos aproxima da ideia de divindade, nos garante a sadia transcendência, nos aprimora em solidariedade e amor. Em uma palavra, a boa fé, para não deixar de ser ponte para a infinita capacidade humana de amar e partilhar, tem de ser unidade e diversidade, morada de todas as possibilidades em franca dialogia, honesto confronto de perspectivas e valores. E pensar que o autor dessa síntese tão grandiosa, Karl Marx, na sua análise de composição rica e múltipla das realidades sociais modernas, já sob os desígnios atrabiliários do capitalismo, foi tido por herege por quase dois séculos...
A mesma linhagem de personagens que condenavam, na emergência da Era Moderna, nos impulsos radicais e permanentemente inovadores dos séculos XVIII e XIX, todas as manifestações da diferença, da rebeldia, da reflexão livre e cuidadosa, convertendo-as publicamente em simulacros diabólicos e incorrigivelmente hereges, atravessou o século XX e inicia o nosso milênio distorcendo práticas coletivas, marginalizando movimentos sociais, cooptando insurgências, apagando corações revolucionários. É sobre parte desses acusadores da heresia, desses caçadores de consciências livres e autônomas, que trata o excelente livro de Ivode Kleber.
Em linhas extensas e densas de suavidade crítica e cordialidade cristã, a letra de “Heresia vs. Espiritualidade” sentencia sem pena nem medo do erro: os velhos vendilhões do templo transubstanciaram suas faces e práticas; trabalham hoje em horário nobre televisivo e seduzem maldosamente pelo calcanhar-de-aquiles da atual humanidade despedaçada, isto é, atacam-lhe a falsa origem do desespero revelado pela exclusão da sociedade de consumo e aparências. Justificam a pobreza pela indolência do pobre, massacram o desempregado como um ser sem fé, atordoam as liberdades de pensamento acusando-as de “possuídas”, “desviadas”. Num mundo que se quer prático, útil e dócil – estabelecendo claro parâmetro de déjà-vu com a sociedade disciplinar de Michel Foucault -, desvalorizar o pensamento livre é regra número um, condição indispensável para o massacre da utopia, da fé que deve, acima de tudo, propor o vigor da mudança, da revolução das singularidades. Nesse epicentro generosamente revolucionário do livro-ação de Ivode Kleber é que reside o vigor da hermenêutica, a ciência-arte de desvendar escritos sagrados, sentenças proféticas, missões de amor, paz, salvação. Heresia e hermenêutica, como pólos cúmplices de uma dialética de auto-sustentação, fundamentam, pois, a refinada ponte de argumentos em todo o manancial de translúcidas águas que são os capítulos-rios desta bem-vinda realização editorial.
Absortos entre o conhecimento verdadeiramente religioso (altruísta e humanizador, hermeneuticamente solidário e livre) e aquilo que Ivode Kleber define com humor e agudizado senso de fortuna como “igreja sem cruz nem Cristo”, vale-nos o espetáculo, ressoam em nossas mentes as palavras fáceis, edifica-se diante de nós o templo de pedra, iluminado por dezenas de sensores de câmeras de TV, sinais de dispersão para satélites... Uma pseudoespiri-tualidade, para novamente expor palavra-chave desse belo e urgente livro em questão.
A heresia, historicamente, é tida como parecer heterodoxo contrastante com problemas já resolvidos. A questão é: “Quem resolveu os tais problemas?” “Quais critérios alimentaram as respostas?” “Em nome de quem e sob quais interesses foram outorgadas as soluções?” Se no passado as estruturas religiosas estreitamente ligadas ao poder de Estado definiram que Giordano Bruno era herege, as mulheres, bruxas, a democracia, satânica... cabe ao mundo presente perceber como as ideologias disseminadas e badaladas pelas várias indústrias em atividade, materiais e imateriais, definem o que é certo e o que é errado, vaticinando como hereges todos aqueles que destoam da normalidade, fogem ao óbvio, questionam o fixo, o dado, o absoluto. Fora dos modismos musicais, políticos, estéticos e religiosos, tudo é heresia, tudo é desgraça. E em relação a essa última indelicada expressão, o livro de Ivode Kleber novamente provoca: certas igrejas, por se considerarem o elã da razão pós-moderna, veem-se cheias de graça, a ponto de condenarem o que possa haver de santo, forte, belo em todas as outras manifestações da fé, inclusive das irmanadas na cristandade.
No intuito vitorioso de deslindar a graça herege da cruz destemperada da fé virtualizante e de autoajuda, Ivode Kleber percorre vários traçados pelos capítulos e fragmentos do livro, reunindo a análise num esforço de totalidade muitíssimo bem sintetizado nos argutos apontamentos a respeito do poder simbólico em Pierre Bourdieu – que se esforçou por toda a vida para fazer de sua Sociologia um meio de restituição aos homens do sentido e das possibilidades de suas ações - e da ética da compaixão e da vida em Leonardo Boff, entre outras importantes reflexões. As passadas firmes do livro partem dos conceitos históricos e religiosos de heresia, opondo interferências analíticas clássicas e contemporâneas. Há forte passagem por injunções da Igreja Católica e subsequentes ações (des)medidas, como perseguições e fogueiras levadas a finco pela Inquisição e pelos Impérios, destacando Roma e sugerindo para o leitor, que sabe ser um simples pingo uma grande letra, a vã e trágica prepotência estadunidense na inquisição da modernidade líquida: procurar e destruir os inimigos da fé de listras vermelhas e brancas, quadrado céu azul, cinquenta estrelas estanques e desbrilhantadas... (Aliás, é em nome desses novos imperialistas que falam os pastores e padres da fé eletrônica, do culto seco e cego ao individualismo, à abundância material destinada a mais e mais consumo.) A síntese histórica do livro tem seu ponto alto na excelente triangulação teórica sobre a evolução da fé neopentecostal, curvada à condição de bolsa arrecadadora de esperanças frustradas pela senda capitalista de exclusão e expurgo e recentemente aquilatadas pela promessa de paraíso em vida, aqui mesmo na Terra. Uma forma bem carismática, digamos, de negar a fé como requisito essencial na elaboração permanente de um outro mundo, mais indicado aos nossos filhos e netos, compatíveis com o amor que dizemos nutrir por eles.
A maior das contribuições trazidas à luz por este importante livro de Ivode Kleber é, sem sombra de dúvida, a pujante lição de solidariedade expressa na comovente crença que esse jovem autor deixa transparecer em suas convicções religiosas e também cidadãs. Os últimos capítulos e toda a exegese que faz da atual questão ecológica e de premência ética desnudam essas virtuosidades. Para muito além da crítica fácil, normalmente descabida e gratuita, o talentoso escritor deste “Heresia vs. Espiritualidade”, acadêmico de Direito, teólogo e pastor presbiteriano, promove a reunião dos saberes, fustigando de modo contumaz as intolerâncias religiosas e civis, frisando o inevitável congresso da paz e da comunhão entre aqueles que desejam de fato continuar a lutar por um mundo fraterno e justo. No endosso dessa maravilhosa utopia de nosso tempo tão carente e descrente, Ivode Kleber dá a sentença da verdadeira fé: sem liberdade para pensar, responsabilidade para agir, encontro humano para avaliar e medir, autonomia para escolher e refletir, toda crença é, para dizer pouco, desnecessária e estúpida. Seu livro é a força-motriz da imensa máxima do saudoso historiador brasileiro Caio Prado Jr.: “É por ação que os homens se definem”. É isso.
Marco A. Rossi

07 agosto 2009

Sociólogo peregrino

"Passagem pela luz", fotografia de Jorge Alfar

Corri uns mil quilômetros hoje. Vi de tudo um pouco. Abracei Durkheim e suas propostas orgânicas de solidariedade. Agradeci a Weber, com aceno distante, suas lições de ética e dignidade da política e da ciência - desejei ter vocação muito mais para a segunda do que para a primeira... E a Marx enviei carinhosamente um exemplar de minhas poesias reunidas, torcendo para que ele me dê, sim, sua opinião sobre minhas formas de ver as coisas. Andei bastante, de clássicos a teoremas de meus dias: folheei romances antigos, abri pela primeira vez livros perdidos na estante da memória e do pequeno escritório aqui de casa. Revi, mentalmente, muitos filmes, inclusive "Cidade dos Sonhos", de Lynch. Amanhã irei falar de Lynch (aula de pós-graduação!). Fui a uma locadora de DVDs (bom, isso foi ontem) e comprei uma meia dúzia de excelentes filmes nacionais, liquidados pelo crescimento sem retrocesso do quarto setor da economia burguesa - o da pirataria. Passeei, no fim do dia, pelas Laranjeiras, para visitar meu Fluminense em nova crise (é intrínseco ao Fluzão o viver crises e mais crises, intermináveis?). Senti muita necessidade de dizer que continuarei tricolor. Sempre. Beijei mentalmente e de coração meus pais. Senti algum tesão por alguém invisível, de algum modo (e disso já nasceu a postagem que farei aqui no blog durante o fim de semana). Brinquei com meu filho. Tive muitas saudades do ontem e me tornei um melancólico do amanhã. Pretendo viajar novamente neste sábado e neste domingo. E semana que vem também. Quer saber? Não paro mais com isso, não!

04 agosto 2009

Divagações V - da irredutibilidade ao pragmatismo

Andei relendo o belo "Os irredutíveis", de Daniel Bensaïd. Política deve ser insubmissa à economia. Educação deve ser autônoma e forte em face das decisões burocráticas. Ideias e valores não podem sucumbir ao pragmatismo tácito de nossos tempos. Desejos humanos devem permanecer sempre irredutíveis à mercantilização das formas e dos conteúdos. Resumindo a grande ópera de Bensaïd: a irredutibilidade do que é humano preserva a História diante das tentativas vis do dinheiro e da politicagem amesquinhada de fazer das coisas intangíveis e belas, para quaisquer fins, vazios fugazes e condicionados ao bem-estar econômico de meia-dúzia de indivíduos (des)afortunados. De todos os teoremas de Bensaïd expostos em seu imprescindível livro, entretanto, o quinto é o mais pertinente e abrangente: à pós-modernidade e à mercantilização do mundo devemos opor a rica experiência denegada e mal-interpretada do comunismo, como maneira irredutível de trazer à baila a emancipação verdadeira do ser humano. Bensaïd acaba por dúvidar dos fragmentos da modernidade líquida - para falar com Bauman - e apostar, de modo insistente, na articulação entre política, liberdade e classe social, respeitando mas condicionando a deveres específicos e limitados os temas de gênero e multiculturalismo. O autor de "Os irredutíveis" ainda crê na universalização da política e na grandiosidade dos projetos utópicos. Como eu, um eterno irredutível.

03 agosto 2009

Divagações IV - Leitura tardia

Comentário de noite em casa: escrever, ler, escrever, ler... A vida se faria completa, rica, mágica, se pudesse ser só disso, nisso tudo, sempre. A leitura contagiante é de "Zero", de Ignácio de Loyola Brandão, livro proibido por anos a fio desde sua publicação, em 1975. Trata-se de retrato cruel e ríspido de um país canhestro, enlouquecido pelo delírio de querer ser o que nunca será: outro país. O drama de José - personagem central que poderia ser qualquer um de nós, brasileiros, adocicados pelo porvir, é tácito: a vida se esparrama numa modorrenta jornada, a qual traslada do desejo de nada fazer ao sonho de tudo realizar. Nessa miscelânea cabem duras análises - e autocríticas também! - acerca do sexo, do futebol, do governo e da incrível experiência de seu um latíndio, tardio humano. Livro impressionante!

Divagações III - Autorretrato

Nasci em São Paulo, capital, e no umbral da vida adulta fui para Londrina, no norte-paranaense, onde vivo e caminho até hoje. No meio do caminho estive no Rio de Janeiro, cidade pela qual me apaixonei e, em nome desse amor estrondoso, me carioquei. Conheci o cinema nas estradas sociológicas, juntei-o à alegria de fotografar o mundo e me tornei um marxista acústico, meio pós-moderno, com convicções inabaláveis na luta por justiça, liberdade e fraternidade. Ando ministrando aulas por aí, na Sociologia, na Antropologia, na Ciência Política e, é claro, no CINEMA. Construi um blog para ver o mundo e nele me expressar. Dele saí pelas estradas virtuais e pelos caminhos de além-terra: tenho andado bastante pela galáxia dos meus sonhos, reinventando meus dias numa utopia insistente e doce, suave a ponto de me enternecer com a esperança e a boa-nova do amanhã. Apesar disso tudo - dessas destemperanças pós-modernas e desse mundo onírico de tantos bem-quereres -, ainda prefiro o universo concreto das múltiplas determinações. Minha casa será sempre a da unidade na diversidade.

Divagações II - Assombros neoliberais...

Creio que a tal Gripe A já tenha atingido o grau de doença social. Todos sabemos que suas manifestações no organismo humano podem caminhar até dramáticas consequências, levando a ineficiências respiratórias e à morte. De outro modo, o pânico em torno de uma eventual epidemia (ultrapassando o tímido estágio atual de pandemia "suave") revela bem certos trechos da mentalidade neoliberal. Será que, se fosse realmente necessário lacrar escolas, teatros, cinemas, shoppings e eventos de grandes públicos, os arautos do mercado livre o fariam? Será que na ausência de um poder público regulador, os defensores dos mercados sem fronteiras não fariam de cada ser humano um cadáver potencial, caminhando rumo à morte entre sacolas, prestações, filas de crédito, fast foods, e educação/normatização burguesa para um amanhã improvável e, no mínimo, obscuro? Andei mesmo refletindo sobre a onda neoliberal de achar que poder público e nada deveriam se igualar... Em momentos de rígida necessidade de intervenção em nome da coletividade, o que executariam os mercados? A morte progressiva e animalesca ou a diminuição da arrogância do lucro usurento? Continuo pensando...

Divagações I - Pierre Bourdieu

Lembrei-me com intensidade dos escritos de Bourdieu hoje: "À esquerda, todos!", em plena ascensão da necessária rebeldia de estudantes e trabalhadores na Paris de 1968. Como faltam intelectuais dessa grandeza, desse engajamento... Ainda que tenhamos momentos de separação (vejam só minha petulância!), Bourdieu e eu somos bons amigos, unidos pela letra viva que ele nos legou em sua obra!

27 julho 2009

Urbanóide

A modelo e jornalista santista Juliana Góes, nua entre as luzes noturnas de São Paulo. O ensaio, publicado em revista comercial, em maio de 2008, revela a fantasia sempre oculta que peregrina pelas noites das grandes cidades: estigma urbanóide do prazer e da perdição (Fotografia: Valério Trabanco)
Aos primeiros dezoito anos de minha vida esplendorosamente historicizada na megalópole paulistana. Aos próximos tantos e tantos anos de minha história a poder/sonhar viver sob os braços do homem-do-céu, que trouxe a boa nova de minha renovada razão utópica, de minha revitalizada imaginação sociológica.

Na cidade
pelos entremeios
cantando, à espera de novas melodias
esquinas replicam histórias.

Biografias de luz, pedra, intenso movimento
faróis, sonoridades aos milhares
tribos, retribalização do mundo.
O cheiro de sedução ronda a noite
toma cenários, impulsiona personagens
assusta cada segundo da velha madrugada.

Desaviso programado
blues e rock and roll
bebidas a congelar hábitos perigosos
mantendo cego o voo incerto da guitarra em distorção
brilhos morenos
tentação de todas as cores
curvas dinâmicas.

Arranha-céus simbolizam a busca do infinito
promovem a ideia de ascensão e paz
dentro deles
entre mil paredes
eletrônicos e disciplinadores olhares
a fúria intensa
a explosão de um coração-menino
corpo que deseja vida
sonha poder ser humano
transcender imperfeito, inacabado.
A luz do dia anuncia um já cansado amanhã
perdem-se remorsos dos feitos noctívagos
a porta do mundo se abre
escancaradamente
para o abismo
protegido da loucura
impõe-se enfim a civilização do não-prazer.

Londrina, noite adentro, inverno e tempestade, 20.07.2009

20 julho 2009

O marxismo de mestre Weber ou o fantasma weberiano no (in)consciente de Marx

Sociólogo brasileiro Michael Löwy, em clique durante evento do coletivo catalão on-line Revolta Global. Para Löwy, autor, entre outros, de "Aviso de incêndio", em que compila e disseca com arguta crítica e refinada análise temática as teses benjaminianas sobre a História, há muitas relações entre as teorias de Weber e Marx, clássicos do pensamento sociológico. Tidos como incongruentes por muitos autores de ontem, de hoje e, provavelmente, de amanhã, Marx e Weber se encontram em inúmeros momentos de suas categorias e de seus sempre atuais conceitos. É possível verificar em "racionalidade instrumental", de Weber, e "ideologia" e "alienação", de Marx, algumas dezenas de bifurcações analíticas, mutuamente validadas e generosas. Desde "História e consciência de classe" (1923), do filósofo húngaro Georg Lukács, passando por diversos membros da imprescindível Escola de Frankfurt - como Adorno, Horkheimer e Marcuse, por exemplo -, até chegar a sociólogos contemporâneos, como o engajado francês Pierre Bourdieu, Marx e Weber perfilam caminhos possíveis, de trabalhos convergentes e enriquecedores para ambas as perspectivas de análise pertencentes ao escopo da "ciência da sociedade". Parece que só não vê quem não quer...
Pobres burocratas! Imagino que devam sentir enorme vazio em relação às suas próprias aspirações. É provável que, por serem hostis ao sonho humano, locupletem-se em barrar o desejo alheio de virtude. Papéis, assinaturas, protocolos, mil vias... Exigem o mundo de todos; conquistam miudezas, mesquinharias para si mesmos.

Sociólogo Michel Löwy, brasileiro radicado em Paris, escriba e pesquisador de mão cheia e cabeça bem-feita, foi genial ao apontar as intersecções entre a obra e a reflexão de dois clássicos sociológicos, mestres Weber e Marx. A burocracia, impedimento da democracia e da razão verdadeiramente livre – não obstante requerida pela complexidade das modernas sociedades industriais do Ocidente – reuniria-se periodicamente, segundo livre poema de minhas interpretações, com a falsa consciência projetada na dominação ideológica. De um modo ou de outro, a ação livre e humana se vê impedida, barrada, limitada por forças quase invisíveis, originadas como chuva, sempre de cima para baixo. Nesse sentido, o burocrata é o explorado dominado, o burro de carga do capitalismo, que se sente melhor quando se percebe, no vazio de suas impossibilidades, capaz de se sobrepor mesmo ao mínimo de liberdade e criação expressas noutras faces, emblemas de novos sonhos. O burocrata, numa palavra, é o bode expiatório da ideologia burguesa, hegemonizada pelos formulários, pelos legalismos, pela indefectível escola de urubus-rei disseminada em nosso mundo.

Os burocratas são também jogadores menores, hábeis porém insustentáveis atletas da mesmice, da reprodução cega da ordem social. Preferem vencer hoje, comemorar agora sua incompletude incontestável a olho nu, a projetar-se na estrada para o futuro, na composição articulada em torno de valores mais abrangentes, como a compostura ética, a solidariedade, a moral que partilha, enaltece, comunga. Sob discurso pretensiosamente voltado para a promessa de mudança, agilidade, confiabilidade, embebedam-se do próprio veneno, tornando suas vidas coisas breves, amesquinhadas. Como diria Weber, aprisionadas, as tristes vidas dos burocratas, em ¨gaiolas de ferro¨. O correspondente conceitual na senda marxiana seria – outra vez num exercício audacioso de desmedida interpretação pessoal – a força da ideia de alienação. Diz como fazer, como não fazer, impõe regras, estipula limites. Na hora de ser como quer que a vida se lhe apresente pela ação do outro, o burocrata simplesmente ignora sua opacidade, sua fragilidade como ser da não-ação, grosseira inanição: ele não pertence a si mesmo; é apenas instrumento de manipulação, ferramenta a serviço da exploração e da reprodução permanente da luta de classes – na qual, frise-se, ele provavelmente nem acredita...

Há mais, duros percalços, pedregosas agruras: no cruzamento das reflexões dos dois gênios da menina Sociologia, o velho (às vezes enraivecidamente muito, muito jovem) burocrata atropela suas veleidades e anuncia estrondosos ¨nãos¨. A razão – depreciação imoral relativa à palavra ¨sacanagem¨ - é sempre a mesma: perseguição, vingança, pura e doída manifestação de seu falso poder (o qual o capital lhe promete sob auspiciosas e ilusórias remunerações). O burocrata, desumanamente, se realiza na frustração do outro, na consagração de uma suposta derrota para um pressuposto oponente. Sem amor nem práticas cotidianas que lhe permitam da simplicidade harpa para a boa vida, ecos da onda do belo mar, o burocrata fetichiza sua versão de si mesmo, transformando-se em alguém temível, terrível, assustador. Na verdade, para falar com Marx, mercantiliza-se, traslada para a condição de peça à venda, a serviço do capital, de um palavrório falacioso de poder, conquistas, futuro promissor. É conveniente para a sagacidade do capital que deseja sangue de homens decepcionados com a vida, descrentes na mudança, na força viva da organização coletiva, do turbilhão revolucionário. Mentes caídas, ordem perpetuada, eis a fórmula da produção ideológica da burocracia e do acovardamento das multidões...

O solipsismo responsável pelo amedrontamento do vigor revolucionário – necessariamente coletivo e politicamente sustentado pela teoria e pela eficiência da ação livre – encontraria em Weber (novamente minha inquieta e petulante aproximação das diferenças – culpa do Löwy e, antes, do Lukács e do Goldmann) porta aberta para o conceito de ética da responsabilidade, isto é, para a clara acepção de que, para fazer, é preciso, mais do que tudo, antecipar discurso, anunciar intenções, assenhorar-se soberanamente das adversidades e animosidades. Ser ético, portanto, é reconhecer-se no outro, verdadeiro antídoto contra a individualização profana que arrasta a humanidade para a estúpida crença no salve-se quem puder. Numa palavra: para Weber, contra a mercantilização da vida e da experiência humana, só a emancipação da vida pela ética, pelo compromisso com o desenvolvimento de todo o corpo social. É possível aproximar a ideia de luta contra o fetichismo da vida e da sociedade – caríssimo a Marx e que leva de fato os sujeitos humanos às mais bárbaras aberrações contra si mesmos - à proposição weberiana de ação social: para superar o que nos coisifica somente a ação responsável, coletiva e duradoura, de sentidos todos voltados para o amanhã, casa-coração da esperança revolucionária. Essa coisa na qual os burocratas definitivamente não creem, sequer conhecem, dela desconfiam arrefecidamente...

E como sempre... após todos os beijos...

"Dois", fotografia de Pedro Weber, apontando belo momento para introspecções na Lagoa do Osório, Rio Grande do Sul

Demonstração tola de poder,
águas antes em calmaria,
pura aparência,
afeiçoando-se à intimidação,
ao desconforto.

Por que mudam as faces,
o aperto entre mãos,
o jeito de olhar nos olhos,
no fundo, bem fundo,
quando nas mesmas vestes,
amigos de outrora,
pareciam irmanados na revolução?

É claro que a revolução tem prismas distintos.
Uns a veem como fonte de aventuranças pessoais;
outros diagnosticam,
em seu movimento,
a emergência do amanhã.

Longe da penumbra que só se permite o bem,
sobressaem óbvias ilações:
como sobrevalorizar aqueles que,
na ardência da barbárie,
escondem a anulação da própria poesia-amanhã,
atrás de um suspeito todavia cômodo ¨depende¨?
Sem partido, sem opinião,
nem coração, nem indignação:
comodismo pretérito,
arauto da inércia,
acotovelamento da mudança,
indigitada e naufragada traição (nenhum perdão).

Triste apenas reconhecer desilusões,
efeito chuva,
irremediável cascata,
tão anunciadas, tão autoevidentes,
camufladas no sorriso debochado,
na pretensa calmaria,
no amargo ar de superioridade,
melancolicamente expresso,
suspeito de si,
sabedor de ser nada,
arrogância que furta o próprio vazio,
macula chances de viver, vencer.

Caminhos chapiscados,
esfumaçados,
abrem-se contudo após deslindar o oco,
o ocaso, o itinerário que leva ao novo.

A poesia popular é soberana:
o novo sempre amanhece,
com maior intensidade
quando afortunado,
briosamente afortunado,
na chama-novidade do humano,
o verdadeiro,
de justiça, solidariedade e paz.

16 julho 2009

Londrina descolada

O guitarrista londrinense Kiko Jozzolino (Fotografia: Renata Frigeri)

Texto publicado na REVISTA ESTAÇÃO n. 09 - Inverno de 2009

Londrina, no turbilhão das cores que compõem todas as suas noites, respira música e trafega por sonoridades bluseiras. Das cordas de Kiko Jozzolino é possível vislumbrar o melhor de nossa travessia pelos acordes mississipianos

Atravessando os territórios estadunidenses de Iowa, Illinois, Missouri, Lousiana, Alabama e Memphis, algumas das mais férteis terras musicais à beira do famoso Rio Mississipi, constata-se que Londrina, no norte vermelho da brasileira província paranaense, é de fato uma cidade invisível. Geograficamente, a terra de Arrigo Barnabé e das desventuras piratas de Itamar Assunção está anos-luz das águas bluseiras do rio negro da América do Norte. Urbana e culturalmente, no entanto, as proximidades se aconchegam. Quando o assunto são os feixes criativos das cordas guitarreiras de Chicago ou as violadas carregadas do pranto bluesy das estradas de Cleveland e Kansas City, Londrina é pura atmosfera blues, intensa força de acordes e solos de espraiada emoção, viscoso sangue.

No rico e plural repertório do Acústico Blues Trio ou das jornadas e jams capitaneadas pelas seis listras de Kiko Jozzolino, ícone e emblema da música bluseira em Londrina, tem-se um pouco do melhor da raiz musical negra americana, da insolência dos brancos ingleses amantes de Winter e Clapton, da qualidade artística dos ritmos que se esparramam pela jovem menina londrinense. As luzes da cidade, as esquinas, os copos de uísque e as baladas levadas por riffs e contornos de lucidez embriagada, na tocada sedutora das trilhas dos melhores amores, tudo isso propõe que Londrina tenha se descolado de seu itinerário à beira rio: por que não estamos todos nós a percorrer a margem esquerda do Mississipi, antecipando nossos sonhos numa meia-noite regada a Guy, Collins, Johnson, Cray e, é claro, Jozzolino, em Memphis ou Nova Orleans?

A elegância da urbanidade londrinense, reunida em torno de gente de todas as cores e de variados desejos (múltiplas tribos, como diriam os intelectuais pós-modernos ou os apresentadores de programas televisivos), é espaço propício para a cultura do blues. A bela cidade de tantos livros e poemas, cravejada de versos de espírito inquieto e sempre alternativo, já chegou a ser Estação Blues, graças a polifonia musical de suas rádios, de seus concertos matinais, vespertinos ou noturnos. Festival de cenas e letras, sons e interpretações, Londrina é bluseira também na forma, no alcance de sua arquitetura, traiçoeiramente moderna e tradicional: da madeira pioneira ao concreto de luxo das glebas e à miséria da periferia sem fronteiras. Em Londrina, como na musicalidade blues, expressam-se dor e alegria, amor e melancolia, o amanhã e o nunca mais.

Ladeada e enriquecida pela guitarra e pelos arranjos generosos de Kiko, a força bluseira da cidade também produz seus amálgamas, supostos e inesperados: ganham pinceladas mississipianas as composições de Roberto Carlos, Doors, Beatles; ultrapassam suas versões já tão blues as clássicas sempre necessárias de Joplin, Clapton, Didley, Charles... Em Londrina, uma cidade de luzes e escuridões, promessas e desavisos, o blues também é ontem e hoje, pop e tradição, futuro e reinvenção do passado. Numa palavra: na síntese de sua beleza ímpar, Londrina é blues na sua própria História, assim mesmo, com “H” mais-que-maiúsculo.

09 julho 2009

20.000

Hoje atingimos a boa marca de 20.000 frequentações ao blog. O número, não obstante a quantidade debruçar-se sempre com desdém sobre a qualidade, expõe a bem-aventuraça do "Espaço". Nesse sentido, para iniciarmos uma nova fase, troquei o counter (indicador do número de visitas) e zerei o placar. Agora que o "Espaço de Cultura Socialista" é TOP 100 - e isso jamais subirá a minha cabeça! - novos caminhos se abrem, se propõem. De resto, quero apenas contar com o carinho de todos os meus leitores. Esse é o número que realmente vale a pena partejar.

Fraternamente...

Marco A. Rossi

08 julho 2009

Top 100 - Cultura

O "Espaço" já é TOP 100 na categoria cultura. Graças às visitas e também à leitura dos nossos amigos e frequentadores, este blog é um dos 100 mais importantes do Brasil em sua modalidade. Difundir poesia, debater os problemas do nosso tempo e expor com independência uma visão de mundo que caminha na contramão da barbárie neoliberal, para muito além de qualquer expectativa prévia, são coisas que me têm revelado muitas e boas surpresas.
Conto agora com mais votos de todos - convençam amigos e oponentes (que devem ser convencidos da abrangência de nosso projeto, como já ensinara Gramsci) a visitar o "Espaço" e a generosamente nos felicitarem com seu apoio e sua manifestação de carinho. Para agraciar este blog com novos votos, é só clicar no alto, à direita, na logo do TOP BLOG. Em seguida, aguardar e confirmar a mensagem que irá para a caixa postal eletrônica do votante.
A votação se encerra no dia 11.08. Se mantivermos o Top 100, teremos ainda mais motivos para trabalhar nos próximos anos nesta casa virtual. Com dedicação e muito entusiasmo.
Desde já, obrigado.
Fraternamente...
Marco A. Rossi, o blogueiro.

25 junho 2009

Herança

Vista ao cair da tarde do Pão de Acúcar, Rio de Janeiro/RJ, provavelmente a mais bela das capturas disponíveis ao olhar-esperança: símbolo do planeta-sonho (Fotografia de Roberto Mendes)

Pedirei duas passagens. Um tíquete deve me permitir belas vistas das montanhas verdes, aquelas que lançam sombra sobre os riachos de minha infância. Ao respirar o ar puro da altitude fria porém terna das saudades tão expressivas das velhas crônicas de meu avô materno, maestro soberano, espero encontrar a inspiração necessária para tomar as decisões acertadas, de efeito realmente duradouro e regozijante.
A segunda parte da viagem, patrocinada pelo outro tíquete, custeado por insolúveis gotas de suor-orvalho, deverá me levar para as estrelas, para a quinta delas. Lá, no mirante de meus mais caros sonhos, quero ver novamente o mar, iluminado pela certeza da descoberta. Lembro que na ponte entre a terceira e a quarta estrela, num momento de tomada romântica de minha visão de mundo, descobri-me em meio às palavras, para sempre letrado até os confins do humano. Não é à toa que a última letra é também o portal para novas galáxias, mais reluzentes, povoadas de inteligências solidárias. A celebração da vida vem, portanto, logo após a conquista da estrela de número cinco - o nome dela é resistência.
Anos mais tarde, durante todo o processo de adaptação a novos mundos, anseio recuperar o futuro, sublimando incertezas e marcando comprometimentos longe do abismo do presente-passado. Na estrela do amanhã, horizonte de minha vida, imagino preencher o universo de rosas, projetando no olhar de meu filho uma trajetória honesta e coerente. Quero ser a herança derradiana de meu porvir. Quero, isso sim, viver por ter vivido. E amado. E ter feito a coisa certa.

15 junho 2009

Contramão: educação

"O caminho da Educação", fotografia de Kleber Virtuoso
Cantava-se que a primavera,
ainda que o horror lhe matasse os jardins,
jamais seria impedida de vingar.
Dizia-se,
a torto e a direito,
que a esperança seria sempre a última a morrer.
Abraçavam-se em convenções,
apertavam-se as mãos,
tapeavam-se nas - e pelas - costas.
Reuniam-se em nobres salões,
serviam-se de latos cafés-da-manhã,
hasteavam bandeiras,
bradavam hinos,
batiam continência,
estufavam, heroicamente, peitos e egos.
Comunicavam-se em eventos internacionais,
solidarizavam-se em tragédias,
indignavam-se diante do inumano,
prometiam paraísos,
desfilibrando corações.
Elegiam a educação a razão do mundo,
promoviam a crença no conhecimento,
desdenhando saberes simples,
falas cotidianas,
olhares do mundo.
Queriam a farta ostentação de seus júbilos,
premiavam a instrumentalização da inquietude,
amortizando rebeldias,
engessando alternativas,
cooptando insurgências.
Mercantilizavam a vida,
elevavam tudo à condição de ter, jamais-vir-a ser,
prestando desserviços,
algemando utopias,
castigando consciências.
Extinguiram, enfim, o sonho humano,
queimando letras e artes,
anulando porquês,
andando na linha, na direção certa,
pulverizando a fé.

10 junho 2009

A vingança de Cronos (versão demo)

"Metrópole I", fotografia de Oscar Henrique Liberal de Brito e Cunha

Quando garoto, correr atrás de demo-tapes era um exercício prazeroso e quase sempre cheio de obstáculos. Amante das bandas de rock underground da urbanidade paulistana e carioca, interessava-me saber o que meus artistas diletos aprontavam em seus ensaios e suas garagens. Meses ou até anos mais tarde de adquirir as cobiçadas fitas de divulgação de suas canções e estilos musicais, chegavam-me às mãos seus LPs, seus discos de estréia, seus “bolachões”, como se dizia excitadamente à época. A evidência se repetia com insistente normalidade: a distância que caracterizava os universos das demos e dos discos de estúdio, cheios de efeitos e badaladas produções, era imensa, uma ponte até o fim do mundo. Eu mesmo, guitarrista de uma banda de heavy metal na adolescência, já imaginei milhões de vezes como teria sido nosso disco em relação às tantas fitinhas que gravamos... O disco nunca aconteceu, mas as fitas sobram no armário de minha memória, de minha saudade. O poema “A Vingança de Cronos”, publicado aqui no “Espaço” no mês passado, antes de ser o que é, também teve sua versão demo, que se perdeu e agora foi encontrada em uma de minhas eternas faxinas no escritório. No instante em que li a versão demo do poema, percebi que aquele antigo mundo das fitinhas de rock pesado tinha mesmo seu charme, sua particularidade inesgotável: assim como entre cassetes caseiros ou de modesta produção e LPs pouca coisa coincidia, os dois poemas são água e vinho, quase nada a ver um com o outro, a não ser a intenção ética e a norma estética, as quais perfazem os princípios deste que ora escreve, valente, sempre underground. Espero que as duas versões da vingança do deus-tempo agradem aos frequentadores do blog. Na minha época de caçador de demo-tapes, não era rara a predileção pelas composições de garagem em substituição aos discos: os ensaios de garagem tinham mais alma, mais sangue, mais sonhos de virtude. É isso.

Críticas sobre a crise,
a grande crise da crítica.
Tudo tão tornado natural, formal.
Espontaneamente, decidimos pelo consolo,
a culpa sem remorso
nem esperança.

Mesmices na tela,
batidas insistentes.
A beleza dos sons virou sinfonia única,
sem vida,
sem magia.

Almas frágeis, vazias,
crentes no amor fácil, extremamente fácil,
no óbvio como conduta.

Desposada dos elementos subjetivos da vida,
a história perdeu-se de vista,
sem chances para um breve aceno
Memórias curtas: um ano ou dois, mais tardar.

Mortais que perderam o sentido da vida,
atormentados pelo tempo
de uma divindade destronada,
vencida e humilhada pelo próprio filho.
Cronos vive hoje no ciberespaço da interação virtual

A geração da arrogância ganha ruas e mundos,
entende-se imortal, eterna, nos estilhaços de um tempo
que não as poupará: downloads vazios, arquivos corrompidos.
O amanhã será tão-somente o triste não-ser de anteontem.
Roda moinho, roda gigante.
Saudades da utopia de Zeus.

19 maio 2009

Sem elas

"Elas", fotografia de Nelson Nereu

Ouvia garoto
que seria só solidão,
nas noites frias,
de verão,
na interminável dor,
do tempo e do espaço.

Hoje sei que a solidão passa,
volta, vai, retorna sempre,
com elas ou sem elas.
A ausência do mundo-mulher
dói na própria fratura de seu não-vir,
não-estar, não-querer-saber.

Contorno o universo,
replico livros,
cantarolo discos inteiros,
posando de literato, poeta,
intelectual engajado (deveras, aliás!).
A falta do lábio eterno,
contudo e sem nada,
macula meus versos,
meus takes e remakes,
dando fim trágico
ao início,
ao fim,
e ao meio de minhas histórias.
Fábulas da vida,
roteiros da ficção que se quer esquecer,
negar, refugiar no inaudito,
a força-mulher é pulsação,
dança, comunicação sem palavras,
movimento e sedução,
letra e música,
capa e miolo,
preenchimento d´alma.
No colo, sob mãos,
carinhos e auspícios venturosos.
Nos braços, sob olhares,
jeitos e molejos,
a dádiva do toque,
nuvens que cobrem meu mundo:
faminta lucidez.
Sem elas,
eu adormeço, sim, poeta urbano,
mas triste,
escandalizado em meu vazio,
no turbilhão de incertezas
que povoa, agita e caotiza meu universo,
solo, girando em torno de um sol sem luz:
puro fogo.

18 maio 2009

A vingança de Cronos

"Waiting for you", fotografia de Carlos Hauck

Críticas sobre a crise,
a maior crise da própria crítica.
Palavras vazias, corações despedaçados,
vidas inteiras desperdiçadas, ocaso dos propósitos.

Geração de poucos movimentos,
nada em gestação, nada da geração,
feitura, fazimento do mundo,
promessas em suspensão, indeterminadamente.

Vencidos por uma divindade caída,
destronada pelo filho mimado,
corremos de canto a canto
desfilando sorriso torpe, cínico,
de quem vence tudo,
menos a humilhação do tempo,
da ácida vingança do perdedor.

Trocamos amor por moedas,
solidariedade mercantil,
valor-de-troca.

As paixões criam novos verbos:
instantaneizam-se,
evaporam almas,
subjugam amores,
perdem-se no cipoal da vaidade,
veleidade, superfluidade.

Ainda verbos do tempo perdido,
em busca de vingança:
fragmentam-se, microparticularizam-se
Neologismos que buscam cortar, atenuar;
esvaziam, contudo, as possibilidades:
a esperança não pode se propagar no vácuo.

Ismos mortos, sepultados na indulgência,
na ridicularização dos ridículos.
Novas censuras, velhos censores,
adornados de liberalidade, motivação empresarial.

A volta do deus caído é triunfante,
semiendeusada pela hipocrisia,
pela Academia que já se acabou,
trasladou do ideal ateniense
para a estética espartana;
fingiu-se inovada, pós-tudo...
Entalou-se no ostracismo,
mergulhou nos pés de seus descaminhos,
nas pegadas sem pistas do amanhã improvável.

O tempo venceu.
O espaço foi tomado.
As saídas foram ofuscadas.
O grito: ainda o recurso da resistência.

Se soubermos gritar,
escreveremos outro final,
destronando a vingança de sua larga espera,
recuperando a vitória,
sentimento inabalável como História.

O tempo perderá.
O espaço será reconquistado.
Às saídas seremos bem conduzidos.
A verdade: questão de tempo.

11 maio 2009

Longe demais de tudo II

Fotografia de Luis Mendonça
Lembrava espaços antigos da infância:
ruas, vielas, escadarias, bancos e praças.
Rememorava com paixão velhos amores,
com amor, eternas e antigas paixões.

Os beijos suaves, a timidez do toque,
o desejo a reprimir, conter,
explodir mais tarde,
nos delírios do rock and roll

Um olhar, um trejeito,
uma simples forma de amar,
vestir uma camisa,
tudo isso me conduziu por
dois, três, quatro anos,
tempo entre o velho
e o novo lançamento.
No fundo,
sempre uma banda de rock.

Os laços de eternidade,
a figura ilimitada da paixão incontestável,
o brilho evidente do amor latente,
o empuxo da paixão manifesta.
Figuras de excesso de um tempo longe,
longe demais de tudo,
uma outra e reiterada vez.

01 maio 2009

Longe demais de tudo

"Cores e curvas", fotografia de Quark (2006)
Brilhos, retornos,
insistência quase irritante.
A pergunta prossegue:
vou conseguir?
Outra é ainda perdulária:
e o que será de mim?
Entre nuvens, simples trechos e solos de blues,
desenho o mapa de meus dias.
Contemplo o amanhã à frente dos meus sonhos.
Dia claro e ensolarado,
um velejar em altíssimo mar.
Penso em jantar a dois.
Elejo Guy e Cocker, alternados,
para variar.
Seleciono o vinho com a mão trêmula:
um erro, longo adeus.
Pernoito em meus delírios,
percorro pernas com a ponta dos dedos,
acomodo costas sob pés,
deslizo meu mundo por todas as curvas,
livres, leves, radicais,
estrada enlouquecida.
Penumbras e faróis,
próximas e mais distantes,
três lampejos matinais,
corro de mim,
enfim, domingo.
Romances policiais,
heróis desejados,
personalidades idolatradas,
veneradas na excentricidade.
Aventuras de um noctívago,
pura mesmice.
A escrita pode me levar,
ao som de Clapton,
sempre muito longe demais.
Outra vez.

17 abril 2009

À última hora da noite

"Hora Mágica", fotografia de Liliana Bagueixe

Demorei a ver poesia no abrupto mundo novo.
Havia decidido não mais me emocionar,
não sorrir ilusões.
Descontínuos amores,
repliquei prosa, cronista me surpreendi.

Despercebido de mim mesmo,
salvei a têmpora de minha mágoa.
Apaguei, desfiz, acendi, indaguei:
Que fazer?
Gesto bolchevique,
coração e memória ainda revolucionários.
Perscrutei, enfim, um poema-amanhã.

Insisti tanto em vislumbrar luz na escuridão
que esqueci estar à última hora da noite.
Pássaros sem voo
faces ocultas
tramas obscuras
fantasia à venda,
cardápio para a autoilusão.

Afinal, tanto medo de quê?
Encerrar a dor, iniciar, iniciar, iniciar.
Descontaminei os ânimos,
afrouxei os limites da paixão,
implodi, para recompor o mundo.

Mundo inteiro,
apesar da inevitável transação transada.
Aconcheguei-me ao menino Vicente,
o jovem-maduro Florestan,
e vi Deus do alto, humanizando,
apontando-me o mar,
o horizonte.

A queda sobre mim mesmo
despertou o sonho, o maior,
a semente de tudo.
(Ouvi Zé Geraldo acordar minha sonolenta manhã.)

Lembro agora,
longe do acovardado pequeno-burguês desenganado,
o peregrino de Raul:
"Baby, o que houve na França
[Londrina ou Rio de Janeiro]
vai mudar nossa dança".
Novos passos.
E a luz se fez!

14 abril 2009

Encruzilhada vermelha

"A encruzilhada", fotografia de Fabio Palma

Diante da árvore suntuosa, percebeu que havia dois caminhos possíveis. Não sabia nada sobre nenhum dos dois. Nunca havia estado ali. Jamais pensara em uma situação daquelas. A chuva não tardaria a cair, céu se fechando, nuvens escurecendo. Sentiu, quase de uma só vez, todos os medos, as maiores ansiedades.

Cronista de seus dias, havia perdido a fé nas palavras. Desde garoto só escrever, escrever, escrever conferia algum sentido a sua existência. Agora, depois de tantas decepções, depois de tantos poemas desperdiçados e tantas prosas engavetadas pelas ausências do mundo, estava decidido: chega de palavras! Chegara ao ponto de debochar de sua epígrafe dileta: "A mais poderosa das armas. Palavras. Não pelo tom, mas pelo eco", do bom Manoel Affonso de Mello. Qual eco? Por onde ecoam as palavras num mundo tão sem diálogo, tão intolerante, ardentemente desamoroso?

Os dois caminhos a sua frente replicavam ainda mais a ardência da desilusão.

Perdido nas armadilhas do impasse, relembrava os amores despedaçados, as seguidas derrotas após inúmeras batalhas travadas. Amanda, Patrícia, Bruna, Carolina, Fernanda, Juliana, Nayara, Cíntia, Sabrina... rostos cada vez mais distantes, nublados, tragados pelos dias à espera da melhor palavra, da letra ideal, da história perfeita. Recordava, acabrunhado, as parcelas mais intensas e não vividas com o amor de suas mulheres. Elas chegavam e partiam, impacientes por não presenciarem a ficção virar realidade, a poesia transformar-se em conquista.

O alvissareiro anonimato tão bem cuidado se ressentia naquele momento, naquela dupla não-saída diante de seus olhos. Absorto em suas angústias e irrealizações, iniciou farta especulação acerca dos caminhos. Ideologizou seus enigmas.

À direita. Lembrou-se inexoravelmente destro e notou mais luz pelo caminho. Pôde vislumbrar mais verde e calmaria também. Nada de buracos, nenhuma ameaça a olho nu. O caminho para o leste prometia tranquilidade, temperança. Mais: não exigia palavra, sentimento algum, crítica, reflexão, nada vezes nada. A expectativa, que se realizava num horizonte mais-que-provável de sucesso e prosperidade material, era de transubstanciação. Veria, enfim, a vida perdida entre linhas, lápis e editores eletrônicos de texto converter-se milagrosamente em abundância e comportamentos pequenos-burgueses. O passado regado a longas caminhadas e intermináveis esperas acenava então com o próprio fim. Bastava-lhe dar um passo e seguir em frente. Ilusões desfeitas, a novíssima estrada propunha altíssimas doses diárias de auto-ajuda, ritos, vestes, sons e mercadorias da moda.

Decidiu imaginar-se na contramão mais um vez.

À esquerda. O velho se renovando, o passado reciclado, a História em permanente repetição. Pelo lado ocidental conseguia contemporizar mais amores desfeitos, inacreditáveis juras falsas, irremediáveis mentiras sobre mudança. As cores da liberdade, da igualdade e da fraternidade já demostravam desbotamento, certo cansaço histórico. Lutas, bandeiras, premissas, tudo apontava progressivo envelhecimento, morte anunciada pelo abandono de ideais. Os ismos se refugiavam em escuras cavernas ao longo de todo o caminho. Os trânsfugas de toda a sorte, radicais e moderados, assaltavam o trecho afugentando os mais vividos, expurgando os mais inexperientes. Desgraças a sua presença tão cheia de desfaçatez, algozes capitulantes, a opção à esquerda tornava-se muito pouco atraente.

Entre o sim e o não, uma vida de glórias e sucessos recheada de posses e anglicismos ou uma caminhada prolongada pelas batalhas de mesmas cores, tons, ecos, tudo muito incerto - e liderada pela palavra escrita utópica e por contínuos desamores em retirada -, deu passo à esquerda, optou pelas cruzadas escuras, pela longa pista sem atalhos nem promessas de tranquilidade e recompensas materiais.

Era domingo e a semana dava o ar da graça.

Julgou que ainda havia algo a escrever.