26 janeiro 2009

Nas areias de Copacabana

O Cristo Redentor, que abraça as portas de entrada da Baía de Guanabara (e o Estádio das Laranjeiras), lançando olhar para o presente, o passado e o futuro da Cidade Maravilhosa (FOTO: Marco A. Rossi)

Deixei que se passasse mais de uma semana de meu retorno das férias no Rio de Janeiro para escrever aqui no “Espaço” minhas impressões acerca da Cidade Maravilhosa. A velha capital do Brasil, de muitas maneiras, faz parte do imaginário de toda a população nacional, devido aos prolongados e permanentes momentos de sua exposição em jornais, revistas, programas de TV, paisagens fotográficas, cinema etc. O brasileiro, de um modo muito instigante, conhece o Rio desde que nasce, vendo e ouvindo a terra fluminense por todas as mídias, por milhares de narrativas, lendas, preferências artísticas, culturais, literárias. Falar do Rio é falar, sem exagero, de certa síntese do próprio país, com toda a multiplicidade de seus céus, infernos e purgatórios.
Com Karina, minha esposa, e João Gabriel, meu filho de 2 anos, embarquei para o Rio de Janeiro, saindo de Londrina, com conexão em São Paulo (minha terra natal), e cheguei tranquilamente ao aeroporto Santos Dumont, chiquito, a se esparramar pelas águas da Baía de Guanabara. Nos primeiros momentos de meu itinerário pelas ruas centrais, a caminho do hotel (sim, fiz roteiro de turista, botei chapéu de gringo, passei protetor solar fator 60, desfilei máquina fotográfica e comprei “lembrancinhas”), o Rio era uma cidade grande como qualquer outra: edificações velhas, construções maculadas pelo tempo, multidões de rumos incerto, ambulantes em toda a parte, pobreza estampada em faces, pés, desalívios. A poluição era visual, sonora, olfativa. Muitas hospedarias, muitos veículos, trânsito caótico, com motoristas decididos a explodir o mundo, caso lhes parecesse necessário para chegar ao seu destino – ou simplesmente fugir dele.
A impressão lugar-comum (com pequena pitada de ter entrado numa roubada turística) começou a se desfazer a partir do Leme – praia que me recordou Tim Maia em seu dançante verso “Do Leme ao Pontal não há nada igual”, fato que se revelou, no decorrer de minha estada no Rio, puríssima verdade, incontestável. Ao passar do Leme para Copacabana, bairros e praias ligados, tudo mudou. O Rio que compôs meu universo de referências por toda a vida estava ali, diante de meus olhos e sensações. Ao vislumbrar o misto de tradição, modernidade, latino-americanidade de Copacabana, entendi a expressão “princesinha do mar”, compreendendo melhor o porquê de tantos versos, de tantas canções, de tantas homenagens estróinas. Dias depois, lá no Posto 6 da mesma praia de Copacabana, no instante em que fui me fotografar ao lado da estátua de bronze de Carlos Drummond de Andrade (em posição de paz e reflexão em sua poesia citadina diante do mar), também pude perceber de forma mais clara a riqueza cultural do Rio: há bancas de revistas, livrarias, gente lendo, escrevendo, cantando, poetizando em toda parte, em todos os momentos. No Rio, a diversidade da cultura nacional se refaz em verso e prosa, sob as batidas de todos os ritmos, na representação de vida de sua gente, a qual se cruza diariamente com cidadãos de todo o mundo, dispostos a entender, como eu, a beleza mágica da capital fluminense, de perto, bem longe dos exageros midiáticos, do folclore preconceituoso do pior de nosso senso comum e do nosso mau-caratismo nada patriótico.

"Drummond" e eu, para sempre irmanados sob testemunha das águas de Copacabana, no badalado Posto 6 da "princesinha do mar" (FOTO: Karina K. M. Rossi)

João, Karina e eu decidimos, juntos, fazer os passeios turísticos mais tradicionais: fomos ao Pão de Açúcar, ao Corcovado (a benção do Cristo nos era necessária e muito desejada) e contornamos o caminho das praias da Zona Sul (do Leme à Barra da Tijuca, passando, é claro, por Copacabana, Arpoador, Ipanema, Leblon e São Conrado). Andamos de trenzinho no Cosme Velho (bairro do bruxo Machado de Assis, um dos mais “fortes na letra”, romântica expressão que ouvi de um taxista da Rua Bolívar, em Copacabana), vimos o glorioso bairro das Laranjeiras, terra do tricolor Fluminense, a Enseada de Botafogo, o Aterro do Flamengo, a monumental Pedra da Gávea, a charmosa Lagoa Rodrigo de Freitas, uma panorâmica da simpática Urca... Do Pão de Açúcar, do Corcovado, do Mirante do Morro Dona Marta, do Parque das Ruínas em Santa Tereza, encantamo-nos com as perspectivas privilegiadas voltadas para todos os pontos da cidade, dos Arcos da Lapa às praias, da ponte Rio - Niterói ao Jardim Botânico. Além disso, de táxi fretado (existe isso?!), passeamos pela Floresta da Tijuca e pudemos ver cascatas, mirantes e mais mirantes, tomar água da pedra, fotografar a solidão de açudes. Ainda como típicos turistas, visitamos, de máquina em punho, o Maracanã e a Feira Nordestina de São Cristóvão, onde nos deliciamos com picanha-de-sol legítima, baião-de-dois, feijão tropeiro e cremoso suco de cupuaçu.

Outro encontro formidável se realizou em breve percurso após o entroncamento da Barata Ribeiro com a Anita Garibaldi, no coração nervoso de Copacabana. Fugindo ao tumultuado dia-a-dia do mais célebre bairro brasileiro, cravado em seu epicentro, está o tranquilo Bairro Peixoto, com seus apartamentos antigos e espaçosos, quase todos de frente para uma praça em que brincam crianças, mães, babás, e que, às quintas-feiras (se não me trai a memória), assiste a uma feira dos velhos tempos, com frutas, legumes, verduras, grãos, peixes e pastéis. Minha alegria por pisar as ruas, a praça e a travessa do Peixoto repousa na lembrança incrível que o bairro-dentro-do-bairro provoca: ele me traz à vista (quase que de modo real) as andanças do delegado Espinosa, personagem dos romances de Luiz Alfredo Garcia-Roza, os quais marcaram o início de minha vida adulta, meus anos de faculdade e, de modo intenso, minha espera, todo final de ano, por mais uma de suas aventuras. O Peixoto é uma cidadezinha do interior do Brasil perdida no agito de Copacabana. Um respiro no turbilhão de culturas e acontecimentos que marcam o restante da vida carioca.


Vista do Pão de Acúcar e da Enseada de Botafogo do alto do Dona Marta (FOTO: Marco A. Rossi)

Foi nas idas ao Morro da Mangueira (com direito à entrada na quadra da escola e a fotos da Estação Primeira), ao Dona Marta, às favelas do Cantagalo, da Rocinha, de São Carlos, do Vidigal etc., que nos fizemos novamente sociólogos: o Rio, nem nos mapas distribuídos a estrangeiros nos hotéis, renega sua condição de metrópole visceralmente latina, com distorções e desigualdades sociais alarmantes, cruéis em múltiplos aspectos. Em panfletos simples, destinados a orientar passeios e a promover casas comerciais de todo tipo, lá estão os morros e favelas, os desenhos das construções em madeira, dos loteamentos populares tão seculares quanto a conclamada beleza das praias e paisagens do Rio de Janeiro. O povo carioca se autoafirma ao trazer para si, para o mapa de sua própria história, o certo e o errado de sua constituição urbana, ao não alijar ainda mais pobres e negros do encanto de ser do Rio, do Brasil. Os emblemas do Rio, estampados na cor da pele, no sotaque, na diversidade de origens culturais se expressam na promoção infinita de suas belas agremiações do samba, nos sambas-enredo cantados a cada esquina, como mantras ou hinos de uma peculiar brasilidade, na qual se misturam, provocadoramente, os da “orla” e os da “periferia”. E é nessa provocação diária de um convívio que se construiu na experiência árdua da diversidade que cinema, teatro, TV, literatura, poesia, MPB fazem da bela casa carioca a protagonista de tantos mistérios, magias e desejos. O Rio de Janeiro, da milionária São Conrado à espantosa Rocinha (que, aliás, são vizinhas de porta), é puro excesso de matizes e contrastes – e sobrevive, belo e sempre promissor, por assumir suas disparidades e contradições, buscando, numa aula magna de dialética, elevar-se todos os dias a um patamar superior.


Fachada principal da Estação Primeira de Mangueira. às vésperas do Carnaval 2009, em que homenageará o antropólogo Darcy Ribeiro, com o enredo "A Mangueira traz os Brasis do Brasil, mostrando a formação do povo brasileiro" (FOTO: Marco A. Rossi)

Em movimento pelas ruas centrais do Rio assisti à força das históricas paredes da Biblioteca Nacional. Aliás, apaixonado sem conserto por livros e universos literários, visitei as livrarias Argumento, Bolívar, Renovar, Travessa e Siciliano. Além do típico ar carioca, as livrarias ostentam grande diversidade de títulos e autores do Rio, versando lendas e narrativas tipicamente cariocas. De lá, por exemplo, trouxe os dois romances de Alexandre Fraga (“Quando os demônios vão ao confessionário” e “Canibal de Copacabana”), autor novato de tramas que se passam (e acabam por ficar!) no submundo carioca.


A Família ROSSI, maravilhada, sob o céu de Ipanema (Autorretrato)

Pelas orlas, em passeios deslumbrantes (talvez porque eu, deslumbrado, fizesse questão de manter o perfil de turista boquiaberto), lembrei a canção de Zé Geraldo, “Promessas de um idiota às seis da manhã”, que poetiza a beleza sem igual do céu de Ipanema. Constatei: não há mais belo pôr-do-sol em todo o planeta. Ele produz em nossos olhos a ilusão de céu e mar misturarem-se, trocando seus tons, fazendo interagir seus elementos. À medida que a tarde cai, luzes e sombras proporcionam um espetáculo único, dégradé, de passagem surreal para um mundo mágico, de paz, estesia profunda. Junto a tudo isso, em minha memória residirá em caráter definitivo as imagens de alegria e encanto de João Gabriel com o mar, o céu, a vastidão do que proporcionam as praias e paisagens do Rio de Janeiro. Bom, é bem verdade que os efeitos causados sobre a incipiente história de João não foram menores em mim e em sua mãe...

Leandro Konder e eu, no charmoso apartamento do mestre no Leblon, rindo das esquisitices da esquerda brasileira e torcendo para que o humor nos sirva de combustível para a autocrítica e a elaboração de um verdadeiro projeto nacional-popular, socialista, portanto (FOTO: Karina K. M. Rossi)

Para coroar uma viagem muitíssimo bem-sucedida, em todos os sentidos, fui recebido por Leandro Konder, mestre dos mestres, em seu elegante apartamento no charmoso Leblon. Por uma hora conversei com Leandro sobre socialismo, humor, grandes personagens e vida acadêmica, episódio que me permitiu recuperar a vida profissional tão machucada e em alguns momentos desperdiçada em 2008, com mercantilismos e estratégias “empresariais” de instituições de ensino superior que veem tudo, tudo, menos alunos, professores, ciência. Apertar a mão de Leandro Konder, falar-lhe de minha devoção e de todo o meu agradecimento pessoal e intelectual por seus livros e pelo seu exemplo de vida fez de 2009, ainda em seu início, o grande ano de minha vida. Um ano, diga-se de passagem, que tem tudo para ser único, inesquecível, abundante... Afinal de contas, começou nas areias de Copacabana. É isso.

07 janeiro 2009

Horizonte desequilíbrio

"Chuva Dissolvente", fotografia-pintura de José Bernardo

Para as greves históricas dos trabalhadores-heróis de todo o mundo, em todos os tempos

A vida inteira, como paisagem completa,
pude ver da janela confusa d'alma triste.
Galeano me disse que, como perdedor,
louco, lindo, rebelde, sou sal da Terra.
Sinto-me, contudo, tão-somente perdedor,
e do sal lembro apenas a dor que provoca...
... sobre feridas.

O coração belo, aplaudido, tocado, invejado,
amado até, cortejado então, colossal assim,
rasga o tempo, fragmenta-se num grande aperto,
dor, horror, indecifrável...
... enigmático esplendor.

Olho guevarianamente o horizonte,
nuvens abraçam meus sonhos,
escuras, nada, o que aconteceu?
O equilibrado desequilíbrio
da subversão do que sou
declinou...
... chorou.

Percebo o mundo num terremoto.
De que valeu o amor revolucionário?
Volto a imaginar um cigarro de alívio.
Emudeço o pensamento.
Saio...
... e deixo a porta entreaberta

Venturas viciosas

"Addiction", fotografia de Daniel Oliveira

Passagens, mudanças
Portas, assombros
Medo de mudar
Mudanças e estranhas sensações
A prática do novo

O novo, inevitável
põe-se diante de sóis e luares
trafega diante da mente
da consciência
incompleta
do mundo
da vida

Nas curvas do sonho
presto-me a ousadias
Reinvento a passada
recrio os atalhos
O horizonte é desconhecido
a sensação é prazerosa

Enfim, o universo
a vontade de sorrir
a chance dada a oportunidade
de ter História, de ter Esperança

Sinônimos de nosso tempo
o vazio e a insegurança se afastam
montam em sua carona
despedem-se da ainda juventude
conclamada a amadurecer
escrevendo
pesquisando
descobrindo novos mares
e céus
e amores
e VIDA!

06 janeiro 2009

E-mail de LEANDRO KONDER


Enviei há dois dias e-mail ao Portal Gramsci e o Brasil, solicitando leitura e apreciação da resenha que publiquei aqui no blog, "Memórias de um lutador incansável", sobre mais recente livro de Leandro Konder. Luis Sergio Henriques, curador do portal sobre o intelectual sardo, replicou para LEANDRO KONDER minha resenha. Bom, o resultado, que me deixa em profundo êxtase, é que LEANDRO respondeu a Henriques e me enviou um doce e-mail, parabenizando -me pela resenha e pelo meu trabalho. Para mim, independentemente do que vier a ser 2009, o ano já está ganho: um carinhoso elogio de mestre Leandro Konder é tudo de que precisava para reunir forças em toda a parte e fazer deste ano o momento decisivo de minha História. Obrigado, Leandro. Aqui no "Espaço", para variar, irão chover homenagens e referências a você e ao seu trabalho o ano inteiro. MUITO OBRIGADO!

Abaixo, em vermelho, negrito e itálico, o e-mail de Leandro Konder, que tornou mais estrelado meu céu de janeiro, e também o de fevereiro, e ainda o de março...

Caro Marco,
Recebi, através do Luiz Sergio Henriques, sua generosa resenha dedicada ao meu livro de memórias. Manifestações de apoio como essa que recebi de você são preciosas. Tal como está organizada a vida cultural na nossa sociedade, a pressão de forças contrárias ao pensamento crítico dificulta enormemente aos resenhadores encontrar e saudar posições teóricas de esquerda nos conflitos mais abrangentes da política.
Te agradeço muito pelo teu trabalho.
Grande abraço do
Leandro

02 janeiro 2009

Memórias de um lutador incansável...

Capa de "Memórias de um intelectual comunista", obra autobiográfica em que o filósofo brasileiro e marxista Leandro Konder expõe as múltiplas facetas de uma vida e de uma obra caracterizadas pela coragem e pela coerência. Parafraseando o velho Marx, costumo afirmar que Konder é mesmo a síntese de muitas determinações, unidade na diversidade.

Terminei 2008 em excelente companhia, emocionado com a leitura das “Memórias de um intelectual comunista”, de Leandro Konder. Na verdade, terminei aquele ano e iniciei este, já que não pude deixar de rever algumas belas passagens da vida desse filósofo marxista da mais alta envergadura.

Disposto a rememorar a infância, a adolescência, a vida adulta, as suas viagens, os escritos de cada fase da vida, os amigos, a difícil convivência com o Mal de Parkinson, Konder, de modo sutil e ao mesmo tempo profundo, recupera a história da esquerda no Brasil no curso do século XX, período de nossa história que ele mesmo viveu em demasia, como personagem de destaque.

Filho de Valério Konder, médico comunista pertencente ao quadro clássico do velho “partidão”, Leandro recorda em seu livro que se tornou comunista aos 15 anos de idade. De lá para cá, refez-se dezenas de vezes, buscando evitar o engessamento das idéias e o próprio caducar de suas perspectivas, de sua visão de mundo, exigidamente renovada pelo próprio curso dos acontecimentos, da História. O filósofo marxista, autor de “A questão da ideologia”, expõe às vísceras sua aposta, bastante pascalina, digamos assim, no futuro comunista da humanidade, época em que homens e mulheres terão a coragem de superar o capitalismo e erguer uma sociedade enfim justa, livre e feliz. Para todos. Essa, aliás, mais do que uma aposta, tem sido a luta de Konder ao longo de seus quase 60 anos de militância política e intelectual.

Pessoalmente – e isso já foi reiterado algumas vezes aqui no “Espaço” -, Leandro Konder é uma de minhas mais fortes influências intelectuais. Mais do que isso: além dos escritos, das argutas análises, da generosidade e da pertinência de todas as críticas, a elegância filosófica do autor de “Os sofrimentos do homem burguês” orienta minha produção (ainda tão modesta e incipiente) e fortalece as categorias que utilizo para fazer minhas próprias intervenções intelectuais, seja como professor, seja como analista político e crítico cultural, principalmente no que diz respeito ao cinema e às produções literárias. Intelectual, frise-se, é uma expressão que me constrange um pouco, de modo muito próximo àquele que Konder trabalha na introdução de suas memórias. Mas, se ser intelectual corresponde ao fato de ter adquirido, por formação e convicção, certo manejo com a crítica social e com a reflexão acerca de temas ligados com a experiência humana neste vasto mundo, aceito o encargo e, desde sempre, me debato contra a possibilidade de isso me envaidecer, tolamente, como seria de esperar, é claro.

Dos amigos de infância nas ruas já inexistentes do velho Rio de Janeiro, dos amigos da política e dos almoços descompromissados de domingo, dos amores e das afetividades vitalizantes, das utopias e das derrotas colossais (Konder chega a se definir, com muito humor e autocrítica, como loser, e não como um dos malfadados winners, sempre tão capitulacionistas e oportunistas), as memórias de Leandro tocam em tudo, remetendo o leitor a viagens inesquecíveis por uma fatia significativa e rica do Brasil contemporâneo. O mais importante nessas belas memórias, contudo, é o sentimento de força que elas transmitem: é impossível terminar a leitura dos esboços autobiográficos de Leandro Konder e não se emocionar profundamente, transferindo desejos de amor a toda a humanidade e, no centro de tudo, sentindo um orgulho inexorável de ser de esquerda e manter-se na luta em torno dos mesmos ideais de justiça e fraternidade. Um livro, enfim, imperdível. E imperdoáveis serão todos aqueles militantes da liberdade que não se aventurarem por suas páginas; páginas que, de todos os modos imagináveis, se confundem com o próprio livro do comunismo e de todas as batalhas que ele travou, por meio de seus personagens e representantes, na História e no universo das idéias.

Leandro, passado dos 70 anos de vida e doçura socialista, continua o mesmo na arte das palavras: emociona (porque muito provavelmente usa todos os sentimentos e verdades para confeccionar suas letras) e permite aquilo que mais endossou sua ação intelectual ao longo da vida, ou seja, a exigência permanente da autocrítica entre aqueles que fazem oposição ao mundo das mercadorias e da destituição progressiva dos valores humanos. Numa palavra: o livro de Leandro Konder, mais do que memórias de uma vida particular, é um inventário das lutas sociais no Brasil e no mundo, um grande itinerário em busca do socialismo perdido. E, tenham a certeza, ele nos ajuda muito na pista desse (re)encontro tão desejado. É isso.