02 janeiro 2009

Memórias de um lutador incansável...

Capa de "Memórias de um intelectual comunista", obra autobiográfica em que o filósofo brasileiro e marxista Leandro Konder expõe as múltiplas facetas de uma vida e de uma obra caracterizadas pela coragem e pela coerência. Parafraseando o velho Marx, costumo afirmar que Konder é mesmo a síntese de muitas determinações, unidade na diversidade.

Terminei 2008 em excelente companhia, emocionado com a leitura das “Memórias de um intelectual comunista”, de Leandro Konder. Na verdade, terminei aquele ano e iniciei este, já que não pude deixar de rever algumas belas passagens da vida desse filósofo marxista da mais alta envergadura.

Disposto a rememorar a infância, a adolescência, a vida adulta, as suas viagens, os escritos de cada fase da vida, os amigos, a difícil convivência com o Mal de Parkinson, Konder, de modo sutil e ao mesmo tempo profundo, recupera a história da esquerda no Brasil no curso do século XX, período de nossa história que ele mesmo viveu em demasia, como personagem de destaque.

Filho de Valério Konder, médico comunista pertencente ao quadro clássico do velho “partidão”, Leandro recorda em seu livro que se tornou comunista aos 15 anos de idade. De lá para cá, refez-se dezenas de vezes, buscando evitar o engessamento das idéias e o próprio caducar de suas perspectivas, de sua visão de mundo, exigidamente renovada pelo próprio curso dos acontecimentos, da História. O filósofo marxista, autor de “A questão da ideologia”, expõe às vísceras sua aposta, bastante pascalina, digamos assim, no futuro comunista da humanidade, época em que homens e mulheres terão a coragem de superar o capitalismo e erguer uma sociedade enfim justa, livre e feliz. Para todos. Essa, aliás, mais do que uma aposta, tem sido a luta de Konder ao longo de seus quase 60 anos de militância política e intelectual.

Pessoalmente – e isso já foi reiterado algumas vezes aqui no “Espaço” -, Leandro Konder é uma de minhas mais fortes influências intelectuais. Mais do que isso: além dos escritos, das argutas análises, da generosidade e da pertinência de todas as críticas, a elegância filosófica do autor de “Os sofrimentos do homem burguês” orienta minha produção (ainda tão modesta e incipiente) e fortalece as categorias que utilizo para fazer minhas próprias intervenções intelectuais, seja como professor, seja como analista político e crítico cultural, principalmente no que diz respeito ao cinema e às produções literárias. Intelectual, frise-se, é uma expressão que me constrange um pouco, de modo muito próximo àquele que Konder trabalha na introdução de suas memórias. Mas, se ser intelectual corresponde ao fato de ter adquirido, por formação e convicção, certo manejo com a crítica social e com a reflexão acerca de temas ligados com a experiência humana neste vasto mundo, aceito o encargo e, desde sempre, me debato contra a possibilidade de isso me envaidecer, tolamente, como seria de esperar, é claro.

Dos amigos de infância nas ruas já inexistentes do velho Rio de Janeiro, dos amigos da política e dos almoços descompromissados de domingo, dos amores e das afetividades vitalizantes, das utopias e das derrotas colossais (Konder chega a se definir, com muito humor e autocrítica, como loser, e não como um dos malfadados winners, sempre tão capitulacionistas e oportunistas), as memórias de Leandro tocam em tudo, remetendo o leitor a viagens inesquecíveis por uma fatia significativa e rica do Brasil contemporâneo. O mais importante nessas belas memórias, contudo, é o sentimento de força que elas transmitem: é impossível terminar a leitura dos esboços autobiográficos de Leandro Konder e não se emocionar profundamente, transferindo desejos de amor a toda a humanidade e, no centro de tudo, sentindo um orgulho inexorável de ser de esquerda e manter-se na luta em torno dos mesmos ideais de justiça e fraternidade. Um livro, enfim, imperdível. E imperdoáveis serão todos aqueles militantes da liberdade que não se aventurarem por suas páginas; páginas que, de todos os modos imagináveis, se confundem com o próprio livro do comunismo e de todas as batalhas que ele travou, por meio de seus personagens e representantes, na História e no universo das idéias.

Leandro, passado dos 70 anos de vida e doçura socialista, continua o mesmo na arte das palavras: emociona (porque muito provavelmente usa todos os sentimentos e verdades para confeccionar suas letras) e permite aquilo que mais endossou sua ação intelectual ao longo da vida, ou seja, a exigência permanente da autocrítica entre aqueles que fazem oposição ao mundo das mercadorias e da destituição progressiva dos valores humanos. Numa palavra: o livro de Leandro Konder, mais do que memórias de uma vida particular, é um inventário das lutas sociais no Brasil e no mundo, um grande itinerário em busca do socialismo perdido. E, tenham a certeza, ele nos ajuda muito na pista desse (re)encontro tão desejado. É isso.