28 fevereiro 2009

A metade de uma crônica

"A criação... porque tudo tem um início", fotografia de PAC

Crônicas aproximam biografias e histórias, reconciliam essas duas categorias às vezes tão distanciadas, vistas como incongruentes. Ouvia, dia desses, dois álbuns de mesmo nome, "Chronicles", um dos canadenses do Rush, outro do mago do blues e da guitarra, Eric Clapton. Os dois CDs possuiam a mesma característica essencial: compilavam o melhor de cada etapa na trajetória musical dos artistas, revisitando-as.

A palavra crônica também sugere ricos momentos da vida literária. Quem nunca leu - ou ao menos dela ouviu falar - a "Crônica de uma Morte Anunciada", do colombiano Gabriel García Márquez? Semelhante pergunta pode ser feita em relação às belas letras semanais, publicadas num jornalão da grande imprensa empresarial, reunidas nas deliciosas histórias que o gaúcho Moacyr Scliar recria a partir de pequenos noticiários cotidianos da vida urbana ou interiorana do Brasil.

A intenção das crônicas, portanto, é reinventar aquilo que já se fez, de certo modo já se universalizou, o que, por diversas razões, necessita ser novamente visto, apreciado, contado de modo diferente. Ao resgatarem episódios e personagens, as crônicas se permitem boas doses de humor, fato que as torna quase sempre mais atraentes do que a suposta verdade de que tratam, reorganizam - recheando o mundo vivo de aspectos fabulescos, de ironias, de pesares e inquietudes, não importa.

Junto aos contos e novelas - breves e densas narrativas que requerem precisão no trato linguístico, riqueza de vocabulário e inestimáveis habilidades para a síntese e o poder de persuasão -, as crônicas se abrem, pois, a revisões, balanços, reedições das coisas da vida. Nessas facetas da palavra escrita, a ficção parece ser mais real que a própria verdade. O ilusionismo é a arte do contista, do novelista, do cronista, ainda que todos eles estejam a lidar com os fatos inexoráveis de nossas saltitantes experiências no mundo.

Eu, agora apontando para a metade da vida (segundo estatísticas repetidas e oficiais acerca da expectativa média de vida entre brasileiros do sexo masculino), venho relançando olhares sobre vários capítulos de minha história de vida; venho, num esforço heróico, tentando reunir minha biografia e a história de tudo que me cerca - um esforço, digamos, para produzir a totalidade de mim mesmo. É dessa ordem de diligência, aliás, que nasce a imaginação sociológica, conceito caro ao saudoso estadunidense Charles Wright Mills, autor da promessa científica mais ambiciosa de nosso tempo, qual seja: dedicar aos indivíduos, por meio dos métodos e conhecimentos da Sociologia, a oportunidade ampla e irrestrita de, nos labirintos de seus opúsculos, desvendar as façanhas de agrupamento entre as suas singularidades (preferências, perfis, estilos, visões e comportamentos) e a realidade exterior, o conclamado mundo sensível e toda a sorte de eventos que marcam a vida como ela é. Dessa reunião entre sujeitos particulares e objetos universais origina-se a Mãe-Terra, o espaço comum de nossas vivências cotidianas. E sabemos como essa aproximação, esse laço de fraternidade, é difícil, exigente...

Não obstante os percalços intrínsecos ao desafio, nesses dias de "amadurecimento" pela entrada em nova idade, antigos amores, velhas paixões, livros, discos e películas de outros momentos, paisagens de muitas andanças, tudo tem sido reescrito, regravado com novos tons e notas. De modo geral, mágoas foram desfeitas, desavisos foram esquecidos. A sensação, real à exaustão, é a de que tudo se transforma, diariamente, numa herança imprescindível, um componente vital para a reunião entre o meu mundo e o universo.

No empenho que o tempo executa para se auto-realizar - e, no meu caso, forjar os autos de minha história diuturna - aprendi, como nunca antes, o sentido e a importância de esboçar crônicas e, com elas, reinventar meus passos. E é com esta crônica aqui que inauguro a segunda metade de minha vida. Que seja plena e bem-aventurada. É isso.

21 fevereiro 2009

Novas paradas: tempo de pensar...

"Retiro Espiritual", fotografia de Andre Mendes

Carnaval é tempo de inversões. Em sua história, essa concentração de dias de folia buscou sempre problematizar os aspectos mais normativos e encalacrados da realidade social. Contra o despotismo do dinheiro, sai às ruas o bloco de azaração e utopia; teimando em face da pouca mobilidade social, a festa do povo permite ao mais simples trabalhador gozar a alegria de um reinado de ardor, festa, abundância. Enfim, se voltamos ao século XVII e às moldagens já bastante mercantis e privatistas do pré-capitalismo já audaciosamente com ares de hegemônico dos oitocentos, encontramos papéis sociais de pés para o ar, tempo de pajelança e poder na casa do operariado, dos mais pobres entre os habitantes da já alargada e precária vida urbana nos centros e periferias de Londres e Paris...

Hoje, aqui na terra consagrada do carnaval-múndi, o histórico e já esquecido festival de contestação da pequena-burguesice de nosso maus hábitos virou espetáculo midiático, painéis de celebridades para holofotes, escadaria para ascensão artística da mediocridade dos sem-talento, dos sem-graça, dos sem-chance... Camarins de BBBs, apelações de corpos femininos e masculinos projetados em salas de cirurgia estética (pouco éticas, aliás), feira para os novos vendilhões da mercadoria pós-moderna mais famosa: aquela que corrompe o caráter, esfacela o sonho, inibe a esperança revolucionária...

Nesses dias de carnaval televisionado e amplos salões de gente fútil patrocinada por cervejas em briga comercial, opto sempre pela retirada d'alma, pelo tempo de cinema, literatura e reflexividade, planejamento mais acurado do ano, dos projetos a perseguir. Via de regra, inundo o escritório caseiro de blues e rock, torcendo pela manutenção rebelde e insubmissa da juventudo do século XX que construiu tantas pontes, atravessou-as e perdeu o ingresso do retorno. Dias de carnaval são excelentes para recriar os mapas da volta, do reencontro com a paz e a utopia. E que se divirtam os foliões inocentes, de bom espírito.

07 fevereiro 2009

Compreendendo agora o silêncio dos intelectuais...

"Silêncio...", fotografia de Paulo César

Em 2005 - com extensos prolongamentos nos dois anos seguintes -, virou moda no Brasil falar no tal "silêncio dos intelectuais". No tornado que tomava de roldão o governo brasileiro, com as denúncias de corrupção, jogos de interesses e influência nefasta de poder, compra de apoio nas casas parlamentares e nos bastidores dos partidos políticos etc., alguns nomes importantes da intelectualidade latino-americana (como Marilena Chauí, filósofa e professora da USP) foram acusados de manter imperdoável silêncio, omitindo-se de análises críticas e previamente condenatórias em relação aos acontecimentos tão, digamos, tilintantes, ameaçadores da ordem e da estabilidade democráticas. É claro que essas acusações partiram da grande imprensa empresarial do país, acostumada às vestes de urubu ao menor sinal de crise, andança dos aparelhos institucionais da nação. Quando esses movimentos visam ao benefício público e popular das classes subalternas, aos trajes de urubu se somam também os olhares de ódio e as típicas tentativas de golpe, intimidação e criminalização, margem comum na trajetória das elites brasileiras em toda a República.
Bom, por que me reportei a esse fato? Por que me lembrei dos complôs da mídia brasileira sempre tão cáusticos e contrários às lutas por emancipação e liberdade do povo brasileiro?
Por ansiedade (minha esposa diz, reiteradamente, que essa é minha chaga maior, não obstante eu mesmo me considere um sujeito tranquilo se visto, como de hábito, no meio dos terremotos constantes do neoliberalismo tosco das classes dominantes hoje endemoninhadamente globalizadas!), por vício ou por postura pessoal e profissional marcadamente insistente, as justificativas de Marilena Chauí em defesa de seu nada obsequioso calar-se me vieram à cabeça, neste momento em que articulo algumas tímidas reflexões sobre os (des)caminhos da educação, da ciência e da pesquisa no nosso país.
A autora de "Cultura e Democracia" relembra o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, que, em seu belíssimo "Pela Mão de Alice", atesta ser o projeto modernidade uma síntese complexa porém desejadamente equilibrada entre os mecanismos sociais e históricos de regulação e emancipação. Do lado da regulação estariam, desde os movimentos revolucionários europeus dos séculos XVIII e XIX, o Estado, como razão política central, vertical e impositiva; o Mercado, como espaço de livres câmbios e desgarrados ímpetos de investimento econômico e criativo; e a Comunidade, como locus da atuação política, das mediações entre desejos e carências tanto individuais como, principalmente, coletivas defronte do poder das outras duas instâncias regulatórias. No que dizia respeito aos processos de emancipação, deveriam estar lado a lado a racionalidade das artes, da ciência, da ascensão tecnológica e da vida propriamente dita, essa última nos seus mais amplos quesitos de dignidade e bem-estar. Esses processos, juntos, deveriam conferir às singularidades e às coletividades humanas uma autonomia radical, com a qual todos pudessem, de variadas maneiras, expressar suas visões e aptidões, críticas e posições diante das coisas do mundo.
Vale ressaltar que as singularidades que compõem o mundo comum seriam sempre, em respeito à autonomia e à dignidade radicais que lhes revestem a existência, contempladas com a parcela da riqueza social concernente à máxima fourieriana: "De cada um de acordo com suas possibilidades; a cada um de acordo com suas necessidades". Nesse sentido, não devem exisitir, num mundo moderno e visceralmente democrático e livre, perseguições, retaliações, preconceitos, vinganças ideológicas, essas pequenezas escravocratas e servis.
Diante da profunda análise de Boaventura de Sousa Santos, brevemente compilada no definitivo artigo de Marilena Chauí, "Intelectual Engajado: uma figura em extinção" (publicado na coletânea organizada por Adauto Novaes, "O Silêncio dos Intelectuais" , da Companhia das Letras, em 2006), ouso, como a autora de "Brasil: o mito fundador", afirmar que a cultura, representação maior dos exercícios da arte, das técnicas e da ciência, permitiu, nos movimentos em defesa da aventura moderna, o surgimento do pensador livre, radicalmente independente de instituições e aparelhos de regulação social. Numa palavra, ao intelectual sempre fora facultada a expressão livre diante das ocorrências patrocinadas tanto pelo Estado e pelo Mercado quanto pela Academia e pelas instituições religiosas, econômicas e políticas. A própria denotação intelectuais, criada por Zola, pressupunha necessária independência: liberdade de criticar, promover a luta pela emancipação concreta por meio de palavras e idéias que pudessem ser postas em movimento, ação, revolução.
Volto a Marilena Chauí e de seu artigo, pedindo licença aos meus leitores, transcrevo magistral passagem do sociólogo franco-argelino Pierre Bourdieu...
"Os intelectuais surgiram historicamente no e pelo ultrapassamento da oposição entre a cultura pura e o engajamento. São por isso seres bidimensionais. Para invocar o título de intelectual, os produtores culturais precisam preencher duas condições: de um lado, pertencer a um campo intelectualmente autônomo, independente do poder religioso, político, econômico e outros, e precisam respeitar as leis particulares desse campo; de outro lado, precisam manifestar sua perícia e autoridade específicas numa atividade política exterior ao campo particular de sua atividade intelectual. Precisam permanecer produtores culturais em tempo integral sem se tornar políticos. Apesar da antinomia entre autonomia e engajamento, é possível mantê-los simultaneamente. Quanto maior a independência do intelectual com relação a interesses mundanos, advinda de sua mestria, tanto maior sua inclinação a asseverar essa independência, criticando os poderes existentes, e tanto maior a afetividade simbólica de qualquer posição política que possa tomar" (In: BOURDIEU. "The corporation of the universal: the role of intelectuais in the modern world". Telos, 1989, n. 81, p. 99).
Pertencer às esferas do mundo com a liberdade - e a obrigação - de criticá-las quando assim julgar pertinente. Trabalhar em instituições que não estejam a salvo de suas duras e ácidas observações, quando o caso assim for. Defender convicções e ideários sem fustigá-los, engessando-os em cômodas circunstâncias de privilégios políticos e materiais, proposições empresariais, defesa de minudências de fragmentos de classe, mormente espraiadas em dinheiro e influência sobre vidas alheias. Pois bem, se não me atropela a interpretação que faço da fala (da vida e da obra) de Pierre Bourdieu, essas devem ser as características de um intelectual. E sua conduta deve assim consolidar-se: sob nenhuma ocorrência, sentir-se contraído; sob quaisquer apelos, faltar com a palavra crítica; sob todo regozijo do vil metal, jamais negar suas origens e as classes que defende, principalmente se essas forem as subalternizadas, já tão massacradas e alijadas pelo capitalismo desordenado da atual "nova ordem mundial".
Confesso que nos últimos anos, embora eu ainda esteja humildemente imbuído de manter minha candidatura a intelectual das classes subalternas, das quais origino e as quais nunca traí na defesa de minhas idéias e convicções, ressenti-me de tais características. Acreditei demais em histórias do mundo corporativo que, disfarçadas, prometeram mudar o quadro da educação no país e a qualidade do humano que se lança, de modo precário e ilusório, ao chamado "mercado de trabalho". Cheguei mesmo a enriquecer cofres burgueses trabalhando voluntariamente em atividades que, mais tarde (na real, desde sempre - eu é que não quis ou pude perceber), se revelaram desprezadas por quem fingia partejá-las. Beirei o ridículo desfazendo-me de prioridades acadêmicas (como pesquisa, qualificação de títulos, convites para escritas, congressos) para insistir numa fé quase cega de que as coisas estavam bem e iriam melhorar...
Esqueci-me, pois, de Sartre, no formidável "Os comunistas e a paz", que aconselha ao envolvimento com os fatos, à aceitação dos acontecimentos, mas adverte contra o fato de impregnação, contaminação do real sobre a necessária soberania intelectual, que deve primar pela universalidade reflexiva e atuante, pelas questões de longo alcance, distantes de particularismos, discursos isolados, promessas desproporcionais à concretude do mundo, dos dissabores da hegemonia burguesa de nosso tempo.
Agora, refeito de tantas ilusões e em processo de recuperação das dores deixadas por tantos equívocos e suas práticas, reconheço-me mais à vontade para retomar meus antigos projetos (dentre os quais escrever é o mais importante e prazeroso). Sei que, ao assumir a vocação intelectual da crítica e da coerência de propósitos - o que, em muitos casos, deve coincidir com o silêncio e o distanciamento -, terei de cortar da própria carne. Nesse sentido, certos confortos e beneplácitos se vão. E, quero crer, para sempre.
O tão alvejado silêncio dos intelectuais, de fato, fizera-se recurso da intelectualidade na sua inteireza, na sua plena condição, densa e sempre contraditória, de recolher-se das mediocridades do mundo, dos assuntos contaminados por interesses da regulação sobre/contra a emancipação. No Brasil, como de costume, busca-se tutelar idéias, corromper valores, cooptar personagens. Todos aqueles que se insurgem contra essas históricas práticas de diminuição do outro - do suposto oponente, frise-se - são lançados à margem de tudo, postos à mercê da vulgata, do esquecimento.
Lembro ainda de Maurice Merleau-Ponty, no estrondoso "Aventuras da Dialética", obra em que postula a incorporeidade do pensador, ou seja, sua ampla liberdade diante das narrativas encapsuladas pelos interesses imediatos de certos grupos na existência cotidiana. Graças à sua incorporeidade, ao intelectual cabe jamais opinar prontamente sobre os fatos; nunca ceder à tentação de se envolver com verdades derradeiras, unanimidades eletrônicas, midiáticas. O distanciamento e a busca permanente por mediações (fabricação intelectual que leva tempo, muito tempo; daí seu desprezo numa era de "magias" instantâneas e de fragmentos acelerados do tempo pós-moderno) devem nortear a conduta intelectual, alimentar sua postura. Nesse sentido, criticar "manchetes" e "furos jornalísticos", ajuizar valores sobre intempéries do dia-a-dia, apequenar grandes temas para favorecer interesses apressados e minúsculos... nada disso é tarefa do intelectual. Essas coisas merecem apenas silêncio. E terão também, a partir de hoje e sempre, o meu grandioso e ensurdecedor silêncio, para usar aqui um oxímoro do saudoso conservador Nelson Rodrigues.
Às grandes causas da vida um brinde. Atrasado e sincero. Disposto e agora firme. É isso.

02 fevereiro 2009

Resgatando mapas: "Soldiers of Sunrise" e os emblemas de uma geração

Capa original de "Soldiers of Sunrise", de 1987 (ilustrada por Alberto Torquato), da banda paulistana Viper: um dos marcos na história do heavy metal brasileiro e um clássico de todos os tempos

Existem diversas teorias pedagógicas, psicológicas e até epistemológico-gnosiológicas (aquelas que versam sobre a origem, a produção e o alcance do conhecimento humano) que insistem na informação de que as coisas que nos ocorrem na infância e na adolescência, forjando-nos caráter e modalidades de comportamento, acompanham nossa existência até o final. Em que pese o caráter controvertido dessas “verdades incontestáveis”, assumo que concordo com muito disso, sobretudo no que se refere à aquisição de preferências estéticas (musicais, alimentícias, paisagísticas, orientações do belo, do desejado) e éticas (postura diante do que virá, por toda a vida, ser encerrado como certo ou errado). As mudanças, sem sombra de dúvida, surgem, impõem-se até, mas são costuradas no tecido daquilo que foi marcado, consagrado como valor desde a tenra idade, no limiar primeiro das nossas histórias.

Quando lembro (e ouço) o álbum “Soldiers of Sunrise”, da banda paulistana Viper, lançado pelo selo Rock Brigade, em 1987, percebo a pertinência dessas teorias, que, para muito além de conspiratórias ou intelectualmente abusivas, refletem bastante o peso que valores, passagens e estações de nossa formação, exercem sobre nossas consciências e condutas, não obstante a avalanche de transformações que recai sobre cada instante de nossas trajetórias pessoais. Inevitavelmente, frise-se.

Contemplar a bela capa do LP (sim, sou do tempo dos eternos discos de vinil), criada e concebida pelo traço firme de Alberto Torquato, figura ilustre entre as bandas underground do heavy metal brasileiro nas duas décadas precedentes, já é uma grande e deliciosa viagem. As cores fortes e quentes, a anunciar os soldados do amanhecer na interminável batalha do som pesado em todo o mundo, repousam atrás de um logotipo empedrado do Viper, com pontas e lâminas afiadas, lancinantes, revelando simbolicamente toda a fúria que está por dentro da bela arte em papel. O disco propriamente dito é um petardo de quase um centímetro de espessura, extremamente limitado em sua produção, com mixagem e acabamento sonoro muitíssimo aquém da qualidade musical dos garotos da banda – a média de idade dos meninos, lá nos distantes 1987, era de 16 anos...

Na versão em CD do álbum de estreia dos meninos do Viper, da Paradoxx Music, que saiu unida ao segundo registro comercial da banda, o excelente Thatre of Fate (que dá uma resenha à parte), a capa foi alterada, em luz, cor e logotipo, nos Photoshops da tão aclamada era virtual, fato que, pelo bem e pelo mal, retrai a magia da velha produção artesanal de mestre Torquato. Ainda que muito bela, a nova capa, de 1997, não reproduz a imperfeição absolutamente humana da arte manual, concebida como espírito de um discão notável, precursor de toda uma parcela da geração-oitenta de jovens no Brasil.

As adversidades do tempo, felizmente, param por aí. A qualidade digital das velhas faixas de “Soldiers of Sunrise” nada retirou da originalidade do som do Viper nos tempos de gravação musical analógica, mantendo, entre outras coisas, a aura impressionante do impacto cultural do álbum no intervalo das duas metades dos anos 1980’.

As nove composições do álbum, datadas, em sua maioria, de 1985 e registradas, em parte, na demo “Killera Sword”, cortam inúmeras tendências e estilos do que de melhor já era praticado no mundo do heavy metal em todo o planeta. Iron Maiden, Helloween (que na mesma época revolucionaria o mundo da música pesada com seus dois “Keepers” e a voz “divisora de águas” de Michael Kiske), Manowar, Judas Priest e outros clássicos heavy estão presentes em todas as canções do velho “Soldiers”. Rifadas de guitarra escorregadias e cortantes, cozinha bem-definida, pesada e com inúmeros trabalhos no decorrer das faixas, talento vocal inaudito do adolescente Andre Matos, arranjos peculiares, inesquecíveis conjugações de melodia, velocidade e acidez. Tudo isso ajudou a preparar as adjetivações mais comuns à lembrança provocada pelo debut do Viper no imaginário coletivo da geração-oitenta: clássico, pioneiro, irreproduzível.

Foto do encarte do LP "Soldiers of Sunrise", com a line-up que gravou o álbum: Pit Passarell (baixo), Felipe Machado (guitarra), Andre Matos (vocal), Yves Passarell (guitarra) e Cassio Audi (bateria)

“Knights of Destruction” abre o disco quebrando, literalmente, tudo. Sem a usual intro, expediente de que lançavam mão 10 em cada 10 bandas do estilo à época, a faixa de abertura expõe guitarras soltas, com os acordes de Felipe Machado e Yves Passarell deslizando pelos braços de suas guitarras, intransigentemente conectadas aos metais distorcidos de pedaleiras funcionando em uníssono. O refrão da canção corre de modo ascendente pelos nossos ouvidos, perfurando canais e grudando nos tímpanos. O disco já seria inesquecível se fosse somente o single dessa canção. Mas há mais, bem mais.

Com “oooos” típicos daquilo que se tornaria nos anos seguintes emblema do metal melódico em todo o globo, “Nightmares” apresenta um Andre Matos cantando livremente, entoando bela melodia e trazendo à luz belos cruzamentos de sua voz com o andamento instrumental da banda. A música, em si, é exemplo de como as coisas podem e devem funcionar em grupo. Vale frisar importante aspecto da banda na época do “Soldiers”: Andre Matos, até hoje um dos mais cortejados vocalistas do Brasil (que deixou o Viper após o segundo álbum e fez estrada no Angra, no Shaman e em diversos projetos mundo afora) tinha somente 15 anos. Sim, 15 anos e uma voz de estremecer cristaleiras e enternecer os amantes da boa música pesada.

A terceira faixa do álbum, “The Whipper”, inicia-se com escalas em tom maior, alegres, de vibração marcante e prato cheio para a voz de Matos, que aproveita para ditar o ritmo contagiante e veloz da canção em sua segunda parte. A canção seguinte, “Wings of the Evil” (cuja letra é síntese do conceito temático do álbum, com mensagens de transformação, sonho e força, alma e denúncia de tempos em que grandes batalhas são necessárias para a superação de um estado de coisas alicerçado no “mal” e no não-humano), possui uma abertura bem heavy, cheia de marcações de baixo e bateria - na bela cozinha mantida a ferro e fogo pelas quatro cordas de Pit Passarell e pelas batucadas nervosas de Cassio Audi – e guitarras de riffs abertos, espaçados, antecipando um pré-refrão repleto de pontuações vocais que põem a nu o poderio e a versatilidade do garoto Andre Matos.

No final do LADO A, em “HR”, Matos simplesmente inverte sua potência vocal, cantando, digamos assim, ao avesso. O timbre de sua voz ganha tom barroco, sujo, destacadamente relacionado com as linhas de guitarra da canção. O refrão, linear e contínuo, abre as portas para o desfile de Machado e Passarell, a dupla de guitarras espraiadas por toda a música. As vestimentas e os arranjos musicais de “HR” lembram Lemmy e a trupe do Motörhead. (Creio não ser à toa que a banda foi convidada para abrir os espetáculos da banda inglesa, protagonista das faixas de “Orgasmatron”, no Brasil. Eu me lembro bem e estava lá, em 1988 ou 1989, no Ginásio do Ibirapuera, balançando a cabeça e curtindo uma das mais fantásticas fases da minha vida.)

A faixa-título do álbum abre o LADO B e é, no mínimo, inesquecível, épica. Com quase sete minutos, “Soldiers of Sunrise” vai do heavy metal tradicional à la Iron Maiden e Judas Priest ao doom, intervalo pesadão com batidas fragmentadas e lentas na produção sonora da cozinha e nas rifadas de guitarra, passando por experimentais bem power, no melhor estilo daquilo que viria a ser, nos vindouros anos 1990’, a moda do metal mundial. Com backs seguros e graves, escalas e arpejos de guitarra cativantes e cadenciados, bateria incessante e explosões de prato por toda a parte, a faixa-título do primeiro álbum foi inscrita na história do heavy metal brasileiro como canção obrigatória, certamente presente em todas as listas de “melhores de todos os tempos”. Na sequência, aparentemente com o propósito de aliviar a concentração de energia deixada no corpo e no cérebro pela canção anterior, vem a hardona “Signs of the Night”, de guitarras abafadas, refrão pegajoso, ritmo coeso, corrido, intenções quase dançantes. Trata-se do maior apontamento comercial do álbum, sem ser, obviamente, apelativa. Confesso que, naqueles hoje distantes anos 1980’, era a música do disco que eu mais ouvia, repetidamente, insuportavelmente... A estrutura simplificada de seu arranjo dá guarida a esse declarado exagero.

Após a simplicidade consistente de “Signs of the Night”, o aporte instrumental do álbum: “Killera (Princesso of Hell)”, com vários piques e destaque incontestável para as linhas agremiadas de guitarra e baixo, que acabam por produzir uma melodia rara em músicas instrumentais no heavy metal, em particular o nacional, viciado em clichês e repetições à exaustão do mais-do-mesmo que se pratica pelas bandas consagradas dos Estados Unidos e da Europa. Pode-se dizer que “Killera” é um instrumental do heavy nacional, com quês de ritmos bem nossos (que no futuro seria prática irritante de muitas outras bandas, mas com intenções muito menos nobres e talentosas, quase ridículas...).

A última canção (nossa, título de música brega!) é “Law of the Sword”. Melhor encerramento para um grande álbum não poderia haver. Iron Maiden e Helloween, com toda a peculiaridade do tratamento dos garotos do Viper às suas próprias composições, parecem amalgamados numa canção de muito vaivém, construções e desconstruções sonoras. Novamente, o doom, o peso tradicional e as experimentações a mil por hora dão pujança ao universo de diversidades de uma música do Viper. A sensação, após o último grito de Matos, que prenuncia o fim do disco, é de um vazio incrível, um abandono. Não há mais faixas? O álbum acabou? Não há extras? Não existiriam canções escondidas, bônus ao vivo, nada?! O fato é que o Viper, graças ao impacto produzido pelo seu álbum de estreia, viria a fazer carreira estrondosa e internacional, provocando a cada novo disco uma novidade na história da música pesada. Todos os LPs (ou CDs) do Viper são diferentes uns dos outros, o que aponta, de um lado, muita criatividade para extravasar; de outro, certa imprecisão na construção de sua identidade. Essa última característica forçou a banda a ter muitas formações, idas e voltas. Enquanto “Theatre of Fate” é magistral e consagradoramente visto também como um clássico, ao lado do bom “Evolution” (já sem a voz de Matos), “Coma Rage” – meio punk, meio sei-lá-o-quê - e as incursões pelo pop-made-in-legião-urbana enveredam pelo caminho sem saída do banal, do incerto, do apelativo. Sem aqui fazer juízo de mérito ou de opções por trajetórias profissionais, os últimos álbuns do Viper na fase que separa a banda do bom retorno em 2007, com “All My Life”, coincidentemente (?) vinte anos após o lançamento do disco aqui resenhado, desgastaram o ímpeto da banda, corroeram a relação com os fãs e forçaram a banda a um demorado e imerecido ostracismo.

Com “All My Life”, sonoramente próximo aos primeiros discos dos rapazes da classe média paulistana que ousaram fazer heavy metal nos instáveis anos de sua adolescência, o Viper faz as pazes com sua história e com seus fãs, como eu, que agora tenho a oportunidade de lembrar como um registro em vinil, “Soldiers of Sunrise”, pôde ser tão importante em minha formação pessoal, tanto do ponto de vista ético quanto da perspectiva estética. Mais que um disco, a chegada ao mundo fonográfico da banda Viper é um sinal da vitalidade da geração-oitenta em sua versão mais underground, que insiste, trafega, traslada vales e mapas, e está sempre por aí, poetizando, fazendo suas canções, compondo seus versos, delineando sua prosa no mundo, pelo mundo, com o mundo. É isso.