07 fevereiro 2009

Compreendendo agora o silêncio dos intelectuais...

"Silêncio...", fotografia de Paulo César

Em 2005 - com extensos prolongamentos nos dois anos seguintes -, virou moda no Brasil falar no tal "silêncio dos intelectuais". No tornado que tomava de roldão o governo brasileiro, com as denúncias de corrupção, jogos de interesses e influência nefasta de poder, compra de apoio nas casas parlamentares e nos bastidores dos partidos políticos etc., alguns nomes importantes da intelectualidade latino-americana (como Marilena Chauí, filósofa e professora da USP) foram acusados de manter imperdoável silêncio, omitindo-se de análises críticas e previamente condenatórias em relação aos acontecimentos tão, digamos, tilintantes, ameaçadores da ordem e da estabilidade democráticas. É claro que essas acusações partiram da grande imprensa empresarial do país, acostumada às vestes de urubu ao menor sinal de crise, andança dos aparelhos institucionais da nação. Quando esses movimentos visam ao benefício público e popular das classes subalternas, aos trajes de urubu se somam também os olhares de ódio e as típicas tentativas de golpe, intimidação e criminalização, margem comum na trajetória das elites brasileiras em toda a República.
Bom, por que me reportei a esse fato? Por que me lembrei dos complôs da mídia brasileira sempre tão cáusticos e contrários às lutas por emancipação e liberdade do povo brasileiro?
Por ansiedade (minha esposa diz, reiteradamente, que essa é minha chaga maior, não obstante eu mesmo me considere um sujeito tranquilo se visto, como de hábito, no meio dos terremotos constantes do neoliberalismo tosco das classes dominantes hoje endemoninhadamente globalizadas!), por vício ou por postura pessoal e profissional marcadamente insistente, as justificativas de Marilena Chauí em defesa de seu nada obsequioso calar-se me vieram à cabeça, neste momento em que articulo algumas tímidas reflexões sobre os (des)caminhos da educação, da ciência e da pesquisa no nosso país.
A autora de "Cultura e Democracia" relembra o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, que, em seu belíssimo "Pela Mão de Alice", atesta ser o projeto modernidade uma síntese complexa porém desejadamente equilibrada entre os mecanismos sociais e históricos de regulação e emancipação. Do lado da regulação estariam, desde os movimentos revolucionários europeus dos séculos XVIII e XIX, o Estado, como razão política central, vertical e impositiva; o Mercado, como espaço de livres câmbios e desgarrados ímpetos de investimento econômico e criativo; e a Comunidade, como locus da atuação política, das mediações entre desejos e carências tanto individuais como, principalmente, coletivas defronte do poder das outras duas instâncias regulatórias. No que dizia respeito aos processos de emancipação, deveriam estar lado a lado a racionalidade das artes, da ciência, da ascensão tecnológica e da vida propriamente dita, essa última nos seus mais amplos quesitos de dignidade e bem-estar. Esses processos, juntos, deveriam conferir às singularidades e às coletividades humanas uma autonomia radical, com a qual todos pudessem, de variadas maneiras, expressar suas visões e aptidões, críticas e posições diante das coisas do mundo.
Vale ressaltar que as singularidades que compõem o mundo comum seriam sempre, em respeito à autonomia e à dignidade radicais que lhes revestem a existência, contempladas com a parcela da riqueza social concernente à máxima fourieriana: "De cada um de acordo com suas possibilidades; a cada um de acordo com suas necessidades". Nesse sentido, não devem exisitir, num mundo moderno e visceralmente democrático e livre, perseguições, retaliações, preconceitos, vinganças ideológicas, essas pequenezas escravocratas e servis.
Diante da profunda análise de Boaventura de Sousa Santos, brevemente compilada no definitivo artigo de Marilena Chauí, "Intelectual Engajado: uma figura em extinção" (publicado na coletânea organizada por Adauto Novaes, "O Silêncio dos Intelectuais" , da Companhia das Letras, em 2006), ouso, como a autora de "Brasil: o mito fundador", afirmar que a cultura, representação maior dos exercícios da arte, das técnicas e da ciência, permitiu, nos movimentos em defesa da aventura moderna, o surgimento do pensador livre, radicalmente independente de instituições e aparelhos de regulação social. Numa palavra, ao intelectual sempre fora facultada a expressão livre diante das ocorrências patrocinadas tanto pelo Estado e pelo Mercado quanto pela Academia e pelas instituições religiosas, econômicas e políticas. A própria denotação intelectuais, criada por Zola, pressupunha necessária independência: liberdade de criticar, promover a luta pela emancipação concreta por meio de palavras e idéias que pudessem ser postas em movimento, ação, revolução.
Volto a Marilena Chauí e de seu artigo, pedindo licença aos meus leitores, transcrevo magistral passagem do sociólogo franco-argelino Pierre Bourdieu...
"Os intelectuais surgiram historicamente no e pelo ultrapassamento da oposição entre a cultura pura e o engajamento. São por isso seres bidimensionais. Para invocar o título de intelectual, os produtores culturais precisam preencher duas condições: de um lado, pertencer a um campo intelectualmente autônomo, independente do poder religioso, político, econômico e outros, e precisam respeitar as leis particulares desse campo; de outro lado, precisam manifestar sua perícia e autoridade específicas numa atividade política exterior ao campo particular de sua atividade intelectual. Precisam permanecer produtores culturais em tempo integral sem se tornar políticos. Apesar da antinomia entre autonomia e engajamento, é possível mantê-los simultaneamente. Quanto maior a independência do intelectual com relação a interesses mundanos, advinda de sua mestria, tanto maior sua inclinação a asseverar essa independência, criticando os poderes existentes, e tanto maior a afetividade simbólica de qualquer posição política que possa tomar" (In: BOURDIEU. "The corporation of the universal: the role of intelectuais in the modern world". Telos, 1989, n. 81, p. 99).
Pertencer às esferas do mundo com a liberdade - e a obrigação - de criticá-las quando assim julgar pertinente. Trabalhar em instituições que não estejam a salvo de suas duras e ácidas observações, quando o caso assim for. Defender convicções e ideários sem fustigá-los, engessando-os em cômodas circunstâncias de privilégios políticos e materiais, proposições empresariais, defesa de minudências de fragmentos de classe, mormente espraiadas em dinheiro e influência sobre vidas alheias. Pois bem, se não me atropela a interpretação que faço da fala (da vida e da obra) de Pierre Bourdieu, essas devem ser as características de um intelectual. E sua conduta deve assim consolidar-se: sob nenhuma ocorrência, sentir-se contraído; sob quaisquer apelos, faltar com a palavra crítica; sob todo regozijo do vil metal, jamais negar suas origens e as classes que defende, principalmente se essas forem as subalternizadas, já tão massacradas e alijadas pelo capitalismo desordenado da atual "nova ordem mundial".
Confesso que nos últimos anos, embora eu ainda esteja humildemente imbuído de manter minha candidatura a intelectual das classes subalternas, das quais origino e as quais nunca traí na defesa de minhas idéias e convicções, ressenti-me de tais características. Acreditei demais em histórias do mundo corporativo que, disfarçadas, prometeram mudar o quadro da educação no país e a qualidade do humano que se lança, de modo precário e ilusório, ao chamado "mercado de trabalho". Cheguei mesmo a enriquecer cofres burgueses trabalhando voluntariamente em atividades que, mais tarde (na real, desde sempre - eu é que não quis ou pude perceber), se revelaram desprezadas por quem fingia partejá-las. Beirei o ridículo desfazendo-me de prioridades acadêmicas (como pesquisa, qualificação de títulos, convites para escritas, congressos) para insistir numa fé quase cega de que as coisas estavam bem e iriam melhorar...
Esqueci-me, pois, de Sartre, no formidável "Os comunistas e a paz", que aconselha ao envolvimento com os fatos, à aceitação dos acontecimentos, mas adverte contra o fato de impregnação, contaminação do real sobre a necessária soberania intelectual, que deve primar pela universalidade reflexiva e atuante, pelas questões de longo alcance, distantes de particularismos, discursos isolados, promessas desproporcionais à concretude do mundo, dos dissabores da hegemonia burguesa de nosso tempo.
Agora, refeito de tantas ilusões e em processo de recuperação das dores deixadas por tantos equívocos e suas práticas, reconheço-me mais à vontade para retomar meus antigos projetos (dentre os quais escrever é o mais importante e prazeroso). Sei que, ao assumir a vocação intelectual da crítica e da coerência de propósitos - o que, em muitos casos, deve coincidir com o silêncio e o distanciamento -, terei de cortar da própria carne. Nesse sentido, certos confortos e beneplácitos se vão. E, quero crer, para sempre.
O tão alvejado silêncio dos intelectuais, de fato, fizera-se recurso da intelectualidade na sua inteireza, na sua plena condição, densa e sempre contraditória, de recolher-se das mediocridades do mundo, dos assuntos contaminados por interesses da regulação sobre/contra a emancipação. No Brasil, como de costume, busca-se tutelar idéias, corromper valores, cooptar personagens. Todos aqueles que se insurgem contra essas históricas práticas de diminuição do outro - do suposto oponente, frise-se - são lançados à margem de tudo, postos à mercê da vulgata, do esquecimento.
Lembro ainda de Maurice Merleau-Ponty, no estrondoso "Aventuras da Dialética", obra em que postula a incorporeidade do pensador, ou seja, sua ampla liberdade diante das narrativas encapsuladas pelos interesses imediatos de certos grupos na existência cotidiana. Graças à sua incorporeidade, ao intelectual cabe jamais opinar prontamente sobre os fatos; nunca ceder à tentação de se envolver com verdades derradeiras, unanimidades eletrônicas, midiáticas. O distanciamento e a busca permanente por mediações (fabricação intelectual que leva tempo, muito tempo; daí seu desprezo numa era de "magias" instantâneas e de fragmentos acelerados do tempo pós-moderno) devem nortear a conduta intelectual, alimentar sua postura. Nesse sentido, criticar "manchetes" e "furos jornalísticos", ajuizar valores sobre intempéries do dia-a-dia, apequenar grandes temas para favorecer interesses apressados e minúsculos... nada disso é tarefa do intelectual. Essas coisas merecem apenas silêncio. E terão também, a partir de hoje e sempre, o meu grandioso e ensurdecedor silêncio, para usar aqui um oxímoro do saudoso conservador Nelson Rodrigues.
Às grandes causas da vida um brinde. Atrasado e sincero. Disposto e agora firme. É isso.