28 fevereiro 2009

A metade de uma crônica

"A criação... porque tudo tem um início", fotografia de PAC

Crônicas aproximam biografias e histórias, reconciliam essas duas categorias às vezes tão distanciadas, vistas como incongruentes. Ouvia, dia desses, dois álbuns de mesmo nome, "Chronicles", um dos canadenses do Rush, outro do mago do blues e da guitarra, Eric Clapton. Os dois CDs possuiam a mesma característica essencial: compilavam o melhor de cada etapa na trajetória musical dos artistas, revisitando-as.

A palavra crônica também sugere ricos momentos da vida literária. Quem nunca leu - ou ao menos dela ouviu falar - a "Crônica de uma Morte Anunciada", do colombiano Gabriel García Márquez? Semelhante pergunta pode ser feita em relação às belas letras semanais, publicadas num jornalão da grande imprensa empresarial, reunidas nas deliciosas histórias que o gaúcho Moacyr Scliar recria a partir de pequenos noticiários cotidianos da vida urbana ou interiorana do Brasil.

A intenção das crônicas, portanto, é reinventar aquilo que já se fez, de certo modo já se universalizou, o que, por diversas razões, necessita ser novamente visto, apreciado, contado de modo diferente. Ao resgatarem episódios e personagens, as crônicas se permitem boas doses de humor, fato que as torna quase sempre mais atraentes do que a suposta verdade de que tratam, reorganizam - recheando o mundo vivo de aspectos fabulescos, de ironias, de pesares e inquietudes, não importa.

Junto aos contos e novelas - breves e densas narrativas que requerem precisão no trato linguístico, riqueza de vocabulário e inestimáveis habilidades para a síntese e o poder de persuasão -, as crônicas se abrem, pois, a revisões, balanços, reedições das coisas da vida. Nessas facetas da palavra escrita, a ficção parece ser mais real que a própria verdade. O ilusionismo é a arte do contista, do novelista, do cronista, ainda que todos eles estejam a lidar com os fatos inexoráveis de nossas saltitantes experiências no mundo.

Eu, agora apontando para a metade da vida (segundo estatísticas repetidas e oficiais acerca da expectativa média de vida entre brasileiros do sexo masculino), venho relançando olhares sobre vários capítulos de minha história de vida; venho, num esforço heróico, tentando reunir minha biografia e a história de tudo que me cerca - um esforço, digamos, para produzir a totalidade de mim mesmo. É dessa ordem de diligência, aliás, que nasce a imaginação sociológica, conceito caro ao saudoso estadunidense Charles Wright Mills, autor da promessa científica mais ambiciosa de nosso tempo, qual seja: dedicar aos indivíduos, por meio dos métodos e conhecimentos da Sociologia, a oportunidade ampla e irrestrita de, nos labirintos de seus opúsculos, desvendar as façanhas de agrupamento entre as suas singularidades (preferências, perfis, estilos, visões e comportamentos) e a realidade exterior, o conclamado mundo sensível e toda a sorte de eventos que marcam a vida como ela é. Dessa reunião entre sujeitos particulares e objetos universais origina-se a Mãe-Terra, o espaço comum de nossas vivências cotidianas. E sabemos como essa aproximação, esse laço de fraternidade, é difícil, exigente...

Não obstante os percalços intrínsecos ao desafio, nesses dias de "amadurecimento" pela entrada em nova idade, antigos amores, velhas paixões, livros, discos e películas de outros momentos, paisagens de muitas andanças, tudo tem sido reescrito, regravado com novos tons e notas. De modo geral, mágoas foram desfeitas, desavisos foram esquecidos. A sensação, real à exaustão, é a de que tudo se transforma, diariamente, numa herança imprescindível, um componente vital para a reunião entre o meu mundo e o universo.

No empenho que o tempo executa para se auto-realizar - e, no meu caso, forjar os autos de minha história diuturna - aprendi, como nunca antes, o sentido e a importância de esboçar crônicas e, com elas, reinventar meus passos. E é com esta crônica aqui que inauguro a segunda metade de minha vida. Que seja plena e bem-aventurada. É isso.