21 fevereiro 2009

Novas paradas: tempo de pensar...

"Retiro Espiritual", fotografia de Andre Mendes

Carnaval é tempo de inversões. Em sua história, essa concentração de dias de folia buscou sempre problematizar os aspectos mais normativos e encalacrados da realidade social. Contra o despotismo do dinheiro, sai às ruas o bloco de azaração e utopia; teimando em face da pouca mobilidade social, a festa do povo permite ao mais simples trabalhador gozar a alegria de um reinado de ardor, festa, abundância. Enfim, se voltamos ao século XVII e às moldagens já bastante mercantis e privatistas do pré-capitalismo já audaciosamente com ares de hegemônico dos oitocentos, encontramos papéis sociais de pés para o ar, tempo de pajelança e poder na casa do operariado, dos mais pobres entre os habitantes da já alargada e precária vida urbana nos centros e periferias de Londres e Paris...

Hoje, aqui na terra consagrada do carnaval-múndi, o histórico e já esquecido festival de contestação da pequena-burguesice de nosso maus hábitos virou espetáculo midiático, painéis de celebridades para holofotes, escadaria para ascensão artística da mediocridade dos sem-talento, dos sem-graça, dos sem-chance... Camarins de BBBs, apelações de corpos femininos e masculinos projetados em salas de cirurgia estética (pouco éticas, aliás), feira para os novos vendilhões da mercadoria pós-moderna mais famosa: aquela que corrompe o caráter, esfacela o sonho, inibe a esperança revolucionária...

Nesses dias de carnaval televisionado e amplos salões de gente fútil patrocinada por cervejas em briga comercial, opto sempre pela retirada d'alma, pelo tempo de cinema, literatura e reflexividade, planejamento mais acurado do ano, dos projetos a perseguir. Via de regra, inundo o escritório caseiro de blues e rock, torcendo pela manutenção rebelde e insubmissa da juventudo do século XX que construiu tantas pontes, atravessou-as e perdeu o ingresso do retorno. Dias de carnaval são excelentes para recriar os mapas da volta, do reencontro com a paz e a utopia. E que se divirtam os foliões inocentes, de bom espírito.