02 fevereiro 2009

Resgatando mapas: "Soldiers of Sunrise" e os emblemas de uma geração

Capa original de "Soldiers of Sunrise", de 1987 (ilustrada por Alberto Torquato), da banda paulistana Viper: um dos marcos na história do heavy metal brasileiro e um clássico de todos os tempos

Existem diversas teorias pedagógicas, psicológicas e até epistemológico-gnosiológicas (aquelas que versam sobre a origem, a produção e o alcance do conhecimento humano) que insistem na informação de que as coisas que nos ocorrem na infância e na adolescência, forjando-nos caráter e modalidades de comportamento, acompanham nossa existência até o final. Em que pese o caráter controvertido dessas “verdades incontestáveis”, assumo que concordo com muito disso, sobretudo no que se refere à aquisição de preferências estéticas (musicais, alimentícias, paisagísticas, orientações do belo, do desejado) e éticas (postura diante do que virá, por toda a vida, ser encerrado como certo ou errado). As mudanças, sem sombra de dúvida, surgem, impõem-se até, mas são costuradas no tecido daquilo que foi marcado, consagrado como valor desde a tenra idade, no limiar primeiro das nossas histórias.

Quando lembro (e ouço) o álbum “Soldiers of Sunrise”, da banda paulistana Viper, lançado pelo selo Rock Brigade, em 1987, percebo a pertinência dessas teorias, que, para muito além de conspiratórias ou intelectualmente abusivas, refletem bastante o peso que valores, passagens e estações de nossa formação, exercem sobre nossas consciências e condutas, não obstante a avalanche de transformações que recai sobre cada instante de nossas trajetórias pessoais. Inevitavelmente, frise-se.

Contemplar a bela capa do LP (sim, sou do tempo dos eternos discos de vinil), criada e concebida pelo traço firme de Alberto Torquato, figura ilustre entre as bandas underground do heavy metal brasileiro nas duas décadas precedentes, já é uma grande e deliciosa viagem. As cores fortes e quentes, a anunciar os soldados do amanhecer na interminável batalha do som pesado em todo o mundo, repousam atrás de um logotipo empedrado do Viper, com pontas e lâminas afiadas, lancinantes, revelando simbolicamente toda a fúria que está por dentro da bela arte em papel. O disco propriamente dito é um petardo de quase um centímetro de espessura, extremamente limitado em sua produção, com mixagem e acabamento sonoro muitíssimo aquém da qualidade musical dos garotos da banda – a média de idade dos meninos, lá nos distantes 1987, era de 16 anos...

Na versão em CD do álbum de estreia dos meninos do Viper, da Paradoxx Music, que saiu unida ao segundo registro comercial da banda, o excelente Thatre of Fate (que dá uma resenha à parte), a capa foi alterada, em luz, cor e logotipo, nos Photoshops da tão aclamada era virtual, fato que, pelo bem e pelo mal, retrai a magia da velha produção artesanal de mestre Torquato. Ainda que muito bela, a nova capa, de 1997, não reproduz a imperfeição absolutamente humana da arte manual, concebida como espírito de um discão notável, precursor de toda uma parcela da geração-oitenta de jovens no Brasil.

As adversidades do tempo, felizmente, param por aí. A qualidade digital das velhas faixas de “Soldiers of Sunrise” nada retirou da originalidade do som do Viper nos tempos de gravação musical analógica, mantendo, entre outras coisas, a aura impressionante do impacto cultural do álbum no intervalo das duas metades dos anos 1980’.

As nove composições do álbum, datadas, em sua maioria, de 1985 e registradas, em parte, na demo “Killera Sword”, cortam inúmeras tendências e estilos do que de melhor já era praticado no mundo do heavy metal em todo o planeta. Iron Maiden, Helloween (que na mesma época revolucionaria o mundo da música pesada com seus dois “Keepers” e a voz “divisora de águas” de Michael Kiske), Manowar, Judas Priest e outros clássicos heavy estão presentes em todas as canções do velho “Soldiers”. Rifadas de guitarra escorregadias e cortantes, cozinha bem-definida, pesada e com inúmeros trabalhos no decorrer das faixas, talento vocal inaudito do adolescente Andre Matos, arranjos peculiares, inesquecíveis conjugações de melodia, velocidade e acidez. Tudo isso ajudou a preparar as adjetivações mais comuns à lembrança provocada pelo debut do Viper no imaginário coletivo da geração-oitenta: clássico, pioneiro, irreproduzível.

Foto do encarte do LP "Soldiers of Sunrise", com a line-up que gravou o álbum: Pit Passarell (baixo), Felipe Machado (guitarra), Andre Matos (vocal), Yves Passarell (guitarra) e Cassio Audi (bateria)

“Knights of Destruction” abre o disco quebrando, literalmente, tudo. Sem a usual intro, expediente de que lançavam mão 10 em cada 10 bandas do estilo à época, a faixa de abertura expõe guitarras soltas, com os acordes de Felipe Machado e Yves Passarell deslizando pelos braços de suas guitarras, intransigentemente conectadas aos metais distorcidos de pedaleiras funcionando em uníssono. O refrão da canção corre de modo ascendente pelos nossos ouvidos, perfurando canais e grudando nos tímpanos. O disco já seria inesquecível se fosse somente o single dessa canção. Mas há mais, bem mais.

Com “oooos” típicos daquilo que se tornaria nos anos seguintes emblema do metal melódico em todo o globo, “Nightmares” apresenta um Andre Matos cantando livremente, entoando bela melodia e trazendo à luz belos cruzamentos de sua voz com o andamento instrumental da banda. A música, em si, é exemplo de como as coisas podem e devem funcionar em grupo. Vale frisar importante aspecto da banda na época do “Soldiers”: Andre Matos, até hoje um dos mais cortejados vocalistas do Brasil (que deixou o Viper após o segundo álbum e fez estrada no Angra, no Shaman e em diversos projetos mundo afora) tinha somente 15 anos. Sim, 15 anos e uma voz de estremecer cristaleiras e enternecer os amantes da boa música pesada.

A terceira faixa do álbum, “The Whipper”, inicia-se com escalas em tom maior, alegres, de vibração marcante e prato cheio para a voz de Matos, que aproveita para ditar o ritmo contagiante e veloz da canção em sua segunda parte. A canção seguinte, “Wings of the Evil” (cuja letra é síntese do conceito temático do álbum, com mensagens de transformação, sonho e força, alma e denúncia de tempos em que grandes batalhas são necessárias para a superação de um estado de coisas alicerçado no “mal” e no não-humano), possui uma abertura bem heavy, cheia de marcações de baixo e bateria - na bela cozinha mantida a ferro e fogo pelas quatro cordas de Pit Passarell e pelas batucadas nervosas de Cassio Audi – e guitarras de riffs abertos, espaçados, antecipando um pré-refrão repleto de pontuações vocais que põem a nu o poderio e a versatilidade do garoto Andre Matos.

No final do LADO A, em “HR”, Matos simplesmente inverte sua potência vocal, cantando, digamos assim, ao avesso. O timbre de sua voz ganha tom barroco, sujo, destacadamente relacionado com as linhas de guitarra da canção. O refrão, linear e contínuo, abre as portas para o desfile de Machado e Passarell, a dupla de guitarras espraiadas por toda a música. As vestimentas e os arranjos musicais de “HR” lembram Lemmy e a trupe do Motörhead. (Creio não ser à toa que a banda foi convidada para abrir os espetáculos da banda inglesa, protagonista das faixas de “Orgasmatron”, no Brasil. Eu me lembro bem e estava lá, em 1988 ou 1989, no Ginásio do Ibirapuera, balançando a cabeça e curtindo uma das mais fantásticas fases da minha vida.)

A faixa-título do álbum abre o LADO B e é, no mínimo, inesquecível, épica. Com quase sete minutos, “Soldiers of Sunrise” vai do heavy metal tradicional à la Iron Maiden e Judas Priest ao doom, intervalo pesadão com batidas fragmentadas e lentas na produção sonora da cozinha e nas rifadas de guitarra, passando por experimentais bem power, no melhor estilo daquilo que viria a ser, nos vindouros anos 1990’, a moda do metal mundial. Com backs seguros e graves, escalas e arpejos de guitarra cativantes e cadenciados, bateria incessante e explosões de prato por toda a parte, a faixa-título do primeiro álbum foi inscrita na história do heavy metal brasileiro como canção obrigatória, certamente presente em todas as listas de “melhores de todos os tempos”. Na sequência, aparentemente com o propósito de aliviar a concentração de energia deixada no corpo e no cérebro pela canção anterior, vem a hardona “Signs of the Night”, de guitarras abafadas, refrão pegajoso, ritmo coeso, corrido, intenções quase dançantes. Trata-se do maior apontamento comercial do álbum, sem ser, obviamente, apelativa. Confesso que, naqueles hoje distantes anos 1980’, era a música do disco que eu mais ouvia, repetidamente, insuportavelmente... A estrutura simplificada de seu arranjo dá guarida a esse declarado exagero.

Após a simplicidade consistente de “Signs of the Night”, o aporte instrumental do álbum: “Killera (Princesso of Hell)”, com vários piques e destaque incontestável para as linhas agremiadas de guitarra e baixo, que acabam por produzir uma melodia rara em músicas instrumentais no heavy metal, em particular o nacional, viciado em clichês e repetições à exaustão do mais-do-mesmo que se pratica pelas bandas consagradas dos Estados Unidos e da Europa. Pode-se dizer que “Killera” é um instrumental do heavy nacional, com quês de ritmos bem nossos (que no futuro seria prática irritante de muitas outras bandas, mas com intenções muito menos nobres e talentosas, quase ridículas...).

A última canção (nossa, título de música brega!) é “Law of the Sword”. Melhor encerramento para um grande álbum não poderia haver. Iron Maiden e Helloween, com toda a peculiaridade do tratamento dos garotos do Viper às suas próprias composições, parecem amalgamados numa canção de muito vaivém, construções e desconstruções sonoras. Novamente, o doom, o peso tradicional e as experimentações a mil por hora dão pujança ao universo de diversidades de uma música do Viper. A sensação, após o último grito de Matos, que prenuncia o fim do disco, é de um vazio incrível, um abandono. Não há mais faixas? O álbum acabou? Não há extras? Não existiriam canções escondidas, bônus ao vivo, nada?! O fato é que o Viper, graças ao impacto produzido pelo seu álbum de estreia, viria a fazer carreira estrondosa e internacional, provocando a cada novo disco uma novidade na história da música pesada. Todos os LPs (ou CDs) do Viper são diferentes uns dos outros, o que aponta, de um lado, muita criatividade para extravasar; de outro, certa imprecisão na construção de sua identidade. Essa última característica forçou a banda a ter muitas formações, idas e voltas. Enquanto “Theatre of Fate” é magistral e consagradoramente visto também como um clássico, ao lado do bom “Evolution” (já sem a voz de Matos), “Coma Rage” – meio punk, meio sei-lá-o-quê - e as incursões pelo pop-made-in-legião-urbana enveredam pelo caminho sem saída do banal, do incerto, do apelativo. Sem aqui fazer juízo de mérito ou de opções por trajetórias profissionais, os últimos álbuns do Viper na fase que separa a banda do bom retorno em 2007, com “All My Life”, coincidentemente (?) vinte anos após o lançamento do disco aqui resenhado, desgastaram o ímpeto da banda, corroeram a relação com os fãs e forçaram a banda a um demorado e imerecido ostracismo.

Com “All My Life”, sonoramente próximo aos primeiros discos dos rapazes da classe média paulistana que ousaram fazer heavy metal nos instáveis anos de sua adolescência, o Viper faz as pazes com sua história e com seus fãs, como eu, que agora tenho a oportunidade de lembrar como um registro em vinil, “Soldiers of Sunrise”, pôde ser tão importante em minha formação pessoal, tanto do ponto de vista ético quanto da perspectiva estética. Mais que um disco, a chegada ao mundo fonográfico da banda Viper é um sinal da vitalidade da geração-oitenta em sua versão mais underground, que insiste, trafega, traslada vales e mapas, e está sempre por aí, poetizando, fazendo suas canções, compondo seus versos, delineando sua prosa no mundo, pelo mundo, com o mundo. É isso.