31 março 2009

Educação e conservação...

"Two # 2", fotografia de Paulo Leal

Convidado a participar de uma mesa de debates sobre o tema "Educação e Violência: duas faces da mesma moeda", comecei e me interrogar sobre esse pretenso e indissociável vínculo. Corre mundo a ideia de que a educação e o direito, uma vez irmanados, podem alterar significativamente a tessitura do real. Educar e conhecer acessos ao mundo do legal, do normatizado; antecipar-se às crises, poupar, seguir em frente; buscar saberes variados, fragmentados, capazes de permitir mobilidade em meio às avessas e indesejadas crises do capital... Todo esse palavrório, deselegante até não mais poder, configura uma das ideologias mais duradouras da era moderna, alicerçada pelo lógica de reprodução do próprio capital, qual seja: a de que vencer é um questão de insistência, busca, individualismo competitivo. A grande parceria entre Direito e Educação em nossos tão desencantados tempos da deseperança tem, pois, servido a isto: estimular personalidades competitivas, não-solidárias, hábeis a sobreviver numa realidade que grita aos quatro cantos do planeta que a lei deve ser a do salve-se quem puder. Para muito além dos conflitos éticos irresolvíveis dessa questão, tal assertiva reproduz desigualdades, formas variadas de exploração e a ingênua crença na sobrevivência do indivíduo solipsista, alijado voluntariamente do escopo da vida coletiva. Ciente de que esse tipo de abordagem não seria o foco das intervenções dos convidados (articulados socialmente sob a ótica da reprodução conservadora da história única do não-valor liberal e da vitória permanente da ordem capitalista), elaborei as impertinências abaixo. Espero que reflitam um pouco da inquietação de todos aqueles que buscam saídas reais para nossas crises e decepções. Saídas que devem, necessariamente, passar pela urgência de uma outra ordem social, um outro mundo - possível e cada vez mais desejado
“As rugas em nosso rosto são as assinaturas das grandes paixões que nos estavam destinadas, mas nós, os senhores, não estávamos em casa.”
Walter Benjamin

A questão da violência está diretamente vinculada aos processos gerais de reprodução social do capital. Imaginar que instituições ou práticas isoladas, ainda que bem-intencionadas e fruto de esforços coletivos sinceros e empenhados, possam enfrentar a criminalidade e o avanço crescente da barbárie pós-moderna, ofertando saídas eficientes e duradouras, é replicar ingenuidades e descaracterizar a própria essência da vida comum, qual seja: a da permanente conexão entre os fenômenos políticos, econômicos, culturais, educacionais, jurídicos... os quais, aparentemente, têm folêgo próprio, independente.

Marx definiu com clareza a força dialética dos esforços que buscam interpretações fidedignas da realidade. Ou se caminha para totalidades cada vez mais abrangentes, capazes de retornar ao seu ponto de partida de modo mais pertinente e consequente, ou se reproduz o mundo das ilusões, que assevera ser possível humanizar em meio ao desumano, valorizar diante dos não-valores, democratizar e promover justiça e liberdade no seio de uma sociedade marcadamente excludente, programada para moer gente, destruir sonhos, acirrar as desigualdades como origem e destino do próprio salão dos grandes negócios, das grandes jogadas, das crises permanentes engendradas pela tacanha e canhestra crença neoliberal de que não há mais horizontes utópicos possíveis.

Hoje, num universo do trabalho cada vez mais precarizado e mercantil (em que projetos e saberes se transformam diariamente em vis objetos de troca e acumulação de riquezas nas mãos da minoria), a educação é, sem sombra de dúvida, política oficial de conservação da ordem. Na esteira da tradição deixada por Marx e os revolucionários dos séculos XVIII e XIX, a coisa poderia ser indagada do seguinte modo: a quem interessa consciências emancipadas, juízos críticos, fazeres totalizantes? Como reunir num único mundo a riqueza que ostenta e violenta e a humanidade que aproxima e partilha? De que vale o consumo de luxo se ele não puder gerar cobiça e agravar distinções de classe, de acesso ao conhecimento, perturbar mentes, desvirtuar talentos, alienar corações? A escola pode algo contra a marca indelével do capital, isto é, sua insistência em arrefecer, segregar, tornar obsoletos e insignificantes sonhos de virtude, projetos verdadeiramente humanistas?

E o direito sob as cores (opacas e sem vida, é claro) do capital, o que pode? Há justiça que repare fome, miséria, perseguição, consequências das distorções ideológicas, publicidades nefastas, enfim, a exploração, do simbólico ao concreto, do homem pelo homem?

Numa pergunta: há educação que humanize e justiça que repare, promulgue paz e liberdade, num mundo todo moldado pela carne moída e dilacerada das engrenagens do capital?

30 março 2009

A mão que faz o samba...

Fotograma de "Metrópolis" (1927), do alemão Fritz Lang. À época a questão da politização das tecnologias e dos recursos capazes de alavancar a produção e acirrar os conflitos de classe na ordem social que opõe capital e trabalho já se fazia presente por inteiro. Brilhante peça do cinema mundial, a película magistral de Lang explora com sensibilidade o universo dos trabalhadores, suas lutas, seus sonhos de conquista...
(Texto entregue para publicação à Revista Estação, edição de outono, 2009)
Luz, câmera, ação! Das primeiras ocasiões em que essa expressão era anunciada, em bradada emoção nos campos de produção cinematográfica, aos dias atuais, tão “velozes e furiosos”, muita coisa mudou: as luzes melhoraram, as câmeras ganharam modelos e versões cada vez mais potentes e sofisticadas, a ação passou a ser mediada, de forma intensa e nada relativizadora, pelos incrementos da tecnologia na vida social.

É notório o fato de que a tecnologia acrescenta possibilidades, cria inúmeras estratégias de sedução, potencializa atividades. Ela, em si, é sempre extraordinária. A questão - mais profunda, portanto - é saber que uso efetivo as pessoas fazem dela, de seus inventos, circunstâncias. Estão dadas todas as alternativas imagináveis: paz e guerra, emancipação ou subjugação, partilha ou concentração, conhecimento ou alienação. Dependendo das atividades por meio das quais a tecnologia ganha pista, alça voo, o ser humano proclama a liberdade ou, de modo igualmente poderoso, retorna, preso e amargurado, à escravidão do corpo e da alma.

Computadores, carros lindos e possantes, celulares de mil e uma utilidades, centros de loja que expressam as maravilhas da arquitetura e do consumo pós-modernos, satélites, sinais, frequências, sintonias, medicamentos, instrumentos para o ensino e a pesquisa, objetos que disseminam a comunicação, o contato, levam longe a palavra, o gesto, o desejo... todas essas coisas são inquestionavelmente fabulosas, inquietantes, burilam nossa imaginação, agudizam nossas fantasias.
Politizar o uso e o domínio de todas essas tecnologias é, no entanto, o centro do debate. Afinal de contas, a quais interesses irão servir a fabricação e a distribuição desses itens? A Internet, coqueluxe do mundo contemporâneo, servirá a que tipo de propósito? Numa sociedade cravejada por diferenças sociais infinitas, a tecnologia também é uma questão política, um desdobrar da luta pelo controle ideológico da vida coletiva. É bom, para os meninos e as meninas de hoje e de amanhã, que jamais esqueçamos: a mão que faz o samba (ou o rock, ou o xote) faz também a bomba, a guerra total. A definição é circunstancial, mediada pelas histórias que julgamos realizar. Se quisermos uma tecnologia pertinente, voltada para o futuro do humano, devemos, antes de mais nada, humanizar nossas relações sociais. Outro remédio será sempre outra grande ilusão. É isso.

25 março 2009

O ensaio necessário dos dias


Durante semanas, em tempo e espaço imprecisos, flagrei-me fotografando todo tipo de instrumento dedicado à preguiça, à contemplação, ao descanso. Com um celular em mão (de baixíssima resolução, frise-se), capturei imagens de cadeiras, bancos de praça, berços, camas, redes, almofadas gigantes, poltronas confortáveis (algumas nem tanto!), assentos de automóvel, balanços de parque, vasos sanitários... O intuito era recuperar imagens dos espaços dedicados ao ócio, ao pensar, ao desacelerar. Diante de um tempo exigente e impiedoso com o pouco-caso e as vagarosidades, optei por homenagear as resistências rebeldes daqueles que persistem nas longas respiradas, tomadas de fôlego. Num exercício prazeroso de afinamento do olhar antropológico, integrei à minha análise os grandes emblemas de cobiça do indivíduo pós-moderno, nos quais imaginam poder renovar ares e disposições, sonhar mais uma vez em voltar a ser humanos... Espero que o resultado incite alguma reflexão, novos olhares antropológicos. Particularmente, senti-me feliz diante das poltronas profundas, estofadíssimas, em que me vi espraiado, livre, eterno.

A preguiça move montanhas. Sem descanso não há mente, não há corpo. As ideias, as práticas, tudo aquilo que é permitido pela criatividade humana requer longas paradas, intensas espreguiçadas, demoradas partidas.

Da contemplação, vida do espírito, erguem-se os elementos constitutivos da vida ativa: o trabalho e a ação, a transformação do mundo em algo que possua nossa imagem, a qual exige ser lapidada diante dos espelhos do mundo.


Hannah Arendt já advertira: ¨Conhecer significa, antes de tudo, negar a realidade, desafiá-la.¨ Ora, se para desafiá-la é preciso, sim, que façamos coisas concretas, insubordinemo-nos diante das coisas por ela expressas, para negá-la necessitamos de cuidado e muita, muita reflexão. Mais uma vez, a preguiça se faz origem. Na ausência da chance de olhar para o nada, buscar articulações entre palavras e feitos, a realidade se torna pura abstração, um convite para a ação impertinente e inconsequente. A abrangência sempre desejada dos atos humanos deve se fazer permissiva diante da extravagante (em tempos de tanto pragmatismo e urgências vazias) arte da preguiça. Bom, a lição está em clássicos distantes no tempo e até no ideário: Paul Lafargue, ¨Direito à preguiça¨, e Bertrand Russel, ¨Elogio ao ócio¨.


Fazer nada também é ingrediente possível de uma cultura de resistência. Chamados a toda hora para sermos produtivos e incansáveis na busca por milhões (que irão enriquecer tão-somente os donos do capital, esvaziando o sentido do trabalho, transformando-o ainda mais em instrumento de espoliação e desumanização), assumir uma postura de preguiça e indolência diante dos alucinados calendários de mercado é pura rebeldia revolucionária, um sonoro não ao trabalhe, trabalhe, compre, compre.


Resistir aos apelos da sociedade de consumo e entretenimento tem nas paradas do ócio condição indispensável para seu vigor permanente. Onde encontrar ânimo para a leitura (ato de descriptografar os caracteres que mantêm em pé as muralhas da própria realidade) num tempo de tantas imagens e efeitos especiais? Como descobrir o prazer pela boa alimentação (base para o funcionamento adequado da máquina humana no combate a sua programação pelas ideologias reinantes do indivíduo fragmentado pós-moderno), pelos bons papos num tempo histórico em que tudo tem de ser veloz, todos têm de ser rápidos, frugais, banais? De que modo acurar os sentidos num mundo superficial, cravejado pela estética do útil e vendável? Mais uma vez se insurge como potência emancipadora a prática eloquente da preguiça e uma ação destemida do ócio.


Parar poder ver os muros de intolerância e perseguição que se erguem por toda a parte e sintonizar parcimoniosamente as vozes do mundo nas ondas da consciência livre e crítica, é necessário parar, caminhar lentamente, agudizar todos os elementos da sensibilidade humana. Vendo e ouvindo de novas formas, assumimos a possibilidade de desfazer preconceitos e tornar visíveis histórias e personagens esquecidos, silenciados pela lógica frenética e inconsistente de uma época de predisposições exclusivas aos números, saldos, receituários de liquidez e eficiência prática, instantânea. Corpo e mente exigem estações de calmaria, lugares em que possam se reunir para partilhar as experiências dos dias. Respirar e revigorar para ampliar as distâncias da caminhada, que pressupõe olhar atento, ouvidos esticados, sensações plenas. Sofás, cadeiras, redes, camas, cantinhos de introspecção, colméias de transformação – do humano e do mundano, em síntese histórica e dialética. É isso.

11 março 2009

Os manuscritos amorosos de Marx

"AMOR", fotografia de Jorge Vieira

Relia, dias atrás, os manuscritos parisienses de Marx, mundialmente conhecidos como Manuscritos Econômico-filosóficos de 1844, de carreira póstuma, já entrada no século XX. Os escritos do Marx da juventude (divisão meio estranhada e tipológica de sua vida intelectual) contêm as bases do humanismo socialista, bem como os alicerces da dialética e da consciência marxista em ebulição, rebelde, revolucionária. No meio da leitura, sempre prazerosa e reveladora, encontrei uma passagem fascinante, uma reflexão sobre o amor e a condição humana diante das vicissitudes de tão belo e complexo sentimento. No amor, Marx também vê dialogia e contradição, força viva de movimentos de intenções e realizações práticas. Vale a pena ler, com cuidado, atenção, rigor absoluto, A cada nova passada de olhos por tão belo parágrafo de idéias e letras, novas interpretações. Bom, é o que se pode esperar de autor tão ímpar, permanentemente renovado em suas críticas sempre atuais aos dias brutais do capitalismo contemporâneo. Em épocas de sandices como a "ditabranda" da Folha de S. Paulo e a perene criminalização dos movimentos sociais pela grande imprensa empresarial, que faz capitularem intelectuais e liberdades críticas com seu jogo de sedução e celebração cínica do real, Marx é alimento para a alma e para a vontade, meio hibernada, é verdade, de continuar pelos caminhos da esperança e da liberdade.

Se se pressupõe o homem como homem e sua relação com o mundo como uma relação humana, só se pode trocar amor por amor, confiança por confiança etc. Se se quiser gozar da arte deve-se ser um homem artisticamente educado; se se quiser exercer influência sobre outro homem deve-se ser um homem que atue sobre os outros de modo realmente estimulante e excitante. Cada uma das relações com o homem - e com a natureza - deve ser uma exteriorização determinada como vida individual efetiva que corresponda com o objeto da vontade. Se amar sem despertar amor, isto é, se teu amor não produz amor recíproco, se mediante tua exteriorização de vida como homem amante não te convertes em homem amado, teu amor é impotente, uma desgraça.

Karl Marx, 1844

04 março 2009

A idade de ser feliz

por Mário Quintana

Existe somente uma idade para a gente ser feliz,
somente uma época na vida de cada pessoa
em que é possível sonhar e fazer planos
e ter energia bastante para realizá-los,
a despeito de todas as dificuldades e obstáculos.

Uma só idade para a gente se encantar com a vida
e viver apaixonadamente e desfrutar tudo com toda intensidade
sem medo nem culpa de sentir prazer.

Fase dourada em que a gente pode criar e recriar a vida
à nossa própria imagem e semelhança
e vestir-se com todas as cores
e experimentar todos os sabores
e entregar-se a todos os amores
sem preconceito nem pudor.

Tempo de entusiasmo e coragem
em que todo desafio é mais um convite à luta
que a gente enfrenta com toda disposição
de tentar algo novo, de novo e de novo,
e quantas vezes for preciso.

Essa idade, tão fugaz na vida da gente,
chama-se "Presente"
E tem a duração do instante que passa.

02 março 2009

Terceiro Turno

"Fênix ", fotografia de Alexandra da Silva Pinto de Oliveira. Tal qual a ave mitológica dos gregos e, antes, egípcios, Londrina irá renascer das próprias cinzas, após lento e demorado processo de revitalização dado por sua "morte" política, em 2008. Do mesmo modo como a ave mitológica, Londrina já se acostumou a carregar peso maior que o das suas possibilidades e força, logrando êxito, surpreendendo, dando a volta por cima, surgindo mais esbelta e encantadora. Este é o desafio da ave londrinense no tercerio turno de 29 de março: resgatar a dignidade da política e desenhar o município norte-paranaense de terras rubras no mapa das grandes lições da cidadania e da vida brasileira. Um desenho de sangue, suor e muitas lágrimas.

Não existem dúvidas a respeito de minha paixão por Londrina. Eu e todos que acompanham meus escritos, aulas, devaneios fotográficos e cinematográficos reconhecemos que tudo que idealizo e transformo em ação, objetividade concreta (para falar com o velho Marx), rende alguma homenagem a Londrina, oferta-lhe novos graus de minha reverência, de minha eterna gratidão. Aqui na terra vermelha norte-paranaense tive o privilégio de cursar uma Universidade de ponta, conhecer gente definitiva na consolidação de minha visão de mundo, encantar-me e casar-me com Karina e ver, junto dela, nosso pequeno João Gabriel nascer para o mundo. Sim, de Londrina para o universo.

Nesse sentido, apoquenta-me demais a chegada de um terceiro turno das eleições municipais do ano passado, a ser realizado no próximo dia 29. Antônio Belinati (que felizmente ganhou mas não levou), uma vez catapultado da vida política da cidade, ao menos de modo mais direto e visível a olho nu, rompeu letras jurídicas, causou trezenas de transtornos, acirrou os conflitos político-partidários da cidade e lançou a comarca numa onda estranha de instabilidade democrática e apatia, em tons bem maiores do que os de regra na política institucional brasileira e em nossa tão titubeante experiência cidadã. Sempre bom lembrar que Belinati não fez nada disso sozinho: anda insistentemente acompanhado do que há de mais anacrônico na senda política de Londrina, do Paraná e do país. Uma boa centena de correligionários dispostos a tudo para não perder redes de influência e apoios para seus tentáculos nas estruturas de poder da cidade, fenômenos que vêm lhes garantindo, décadas a fio, importantes filões de riqueza material e, por extensão, fôlego eleitoral.

Os leitores do "Espaço" sabem de minha predileção por temas frios, que possam se eternizar, dado seu nível de universalização na história das idéias socialistas e das artes e culturas em geral. Não me apetece escrever sobre circunstancialidades e tornar o blog obsoleto em horas, dias, na melhor das hipóteses. Por isso, não escrevo sobre tragédias noticiadas pela TV, bastidores fragmentados e instantaneístas da vida nacional, eleições, pacotes econômicos, partidas de futebol de meio de campeonato (a não ser que um episódio dessas epopéias da vida cotidiana se torne tão especial e fantástico a ponto de virar verbete de enciclopédias culturais...). Amedronta-me virar um espaço marcado pela tirania do óbvio e das intimidades, para lembrar aqui uma preocupação essencial do grande sociólogo Richard Sennett no tocante à sociabilidade contemporânea.

Mas Londrina não é manchete de um impresso diário. A cidade tem tradição, tem história e merece papel de destaque na vida brasileira. O incômodo e a baixa auto-estima que neste momento marcam o semblante do londrinense são temas urgentes, que requerem de todos detidas análises, comprometidos engajamentos para sua superação. Não há dúvidas de que o resultado do chamado terceiro turno em Londrina, seja ele qual for, terá permitido aos habitantes da pequena Londres um profundo exercício de autocrítica, uma sincera e talvez corrosiva aceitação da mea culpa.

Os erros pulularam em toda parte. A vista grossa (cega?) das instâncias federais da justiça brasileira permitiu que o caso se estendesse por todo o calendário eleitoral de 2008. A cassação pelo TSE da candidatura de Belinati, impugnado pelo TRE parananese antes das eleições, deu-se após consagrado o nome do pepista (insígnia dos partidários do PP, partido também de Paulo Maluf, outra das excentricidades de nossa democracia liberal) nas urnas, por expressiva e incomprensível votação popular. Festim que poderá ganhar contornos de tragicomédia no caso da absolvição de Belinati pelo STF, dia desses, num futuro qualquer... Fato é que imprensa cooptada, justiça morosa, baixíssima organização e participação popular nos temas coletivos da experiência social, tudo isso junto permitiu tal imbróglio, tal inadequação aos tempos de liberdade e aspiração democrática. Belinati foi longe e chegou à vitória no segundo turno porque as ausências se fizeram sentir em tudo que era canto: pouca gente se prestou ao luxo de informar corretamente (e falo agora explicitamente dos chamados meios de comunicação social de massa) a quantas andavam os processos que pesavam sobre o ex-triprefeito; a apatia generarizada em relação às políticas institucionais no país, em muito alimentada pelo próprio descaso e despreparo de nossos representantes, logrou enorme êxito em manter afastada da discussão pública a sucessão muncipal na cidade, como se as eleições fossem simplesmente mais um acontecimento ordinário, passageiro e sem significado algum; o nada renovado quadro político da cidade, com lideranças antigas, desgastadas, pouquíssimo afeitas aos anseios das novas gerações e estremecidas no imaginário e na paciência dos eleitores mais experientes, contribuiu também - e de modo superlativo! - para o desinteresse, a desmotivação generalizada. São múltiplas, portanto, as determinações do fracasso da vida política londrinense. Mas são igualmente diversas as possilidades que agora, no olho do furacão, se nos apresentam. Vamos lá ver.

Novidades promissoras nos candidatos que irão disputar o terceiro turno no final de março não existem, sob qualquer perspectiva de que se possa ver. O tucano Hauly, campeão de derrotas na tentativa de chegar à prefeitura de Londrina, pouco impressiona por sua profunda antipatia, pouco apreço pelas questões mais urgentes das classes subalternas. Representa, numa hipótese pós-romântica hoje em dia, uma visão de eficiência da máquina burocrática do poder, destacando em seu palavrório a minimização de custos e a maximização de resultados: parece até disputa para obtenção dos famigerados selos ISO. Verdade é que o neoliberalismo tucano que já causou sérios problemas ao Brasil em anos anteriores tem no candidato em questão boa expressividade. Não vejo nas forças econômicas e nos interesses privados que o sustentam nada que se possa aproximar de políticas públicas que visem ao combate das desigualdades sociais e à promoção efetiva da cidadania. Quando ouço o discurso de Luis Carlos Hauly, de embate apagado, meio nulo, forçado, tenho a impressão de estar diante de um alto executivo em busca de emprego numa empresa de capital transnacional, prometendo cortes, perseguição às organizações de classe e o surrupio da ordem pública, em favor do privatismo tosco e indiferente de nossa elite econômica - que de nossa, aliás, nada tem, nada...

Já com Barbosa Neto, não obstante a permanência da incredulidade e da tristeza nas constatações mais evidentes, a coisa é diferente, pega um pouco mais pesado. Pedetista de algum tempo (conquanto nada dele possa ser visto como parte do legado de sujeitos como Brizola ou Darcy Ribeiro, além de, pior, em sua prática nada haver de democrático, popular, socialista...), o terceiro colocado no primeiro turno chega agora a uma disputa talvez inesperada, porém muito desejada. O jornalista formado pela UEL - e, dizem, bom garoto, bom aluno - pleiteia pela terceira vez a cadeira de prefeito de Londrina. Perdeu em 2000, no segundo turno - de lavada, frise-se! -, e em 2004 e 2008 passou longe. Deverá absorver muitos votos de Antônio Belinati, que apoiou no segundo turno e cuja semelhança nas falas e ações, além de notório compadrio, já não são mais novidade nem segredo para ninguém.
Diante da urna, fastigado e desconfiado, o eleitor londrinense terá de optar entre dois deputados federais no curso de seus mandatos, dois representantes daquilo que faz duas ou três décadas emperra Londrina, mantendo a cidade de tantas histórias e incontáveis orgulhos no equívoco do anonimato, de certo ostracismo no mapa Brasil. Um tucano que esconde (ou dele se envergonha?) seu passado de fortes alianças com os setores mais atrasados e conservadores da vida nacional; um pedetista que já foi belinatista, já flertou descaradamente com o malufismo e o mundo-cão dos programas sensacionalistas de TV e Rádio, tendo sido filiado ao PP e nunca produzido clara identidade política e ideológica junto a setores populares e organizados da sociedade londrinense. Qualquer escolha, outro aviso de incêndio quanto ao futuro da cidade. Essa é a determinação que ainda pende para o lado negativo. Independentemente das figuras - e que figuras, não?! - que se apresentam como sucessoras à interinidade que sufoca e trava a prefeitura de Londrina, lançada no momento a um remendo de composições fisiológicas de partidos instáveis e altamente caudilhados, caberá à sociedade londrinense designar o vislumbre positivo de todo esse mal-estar. E é nesse aspecto que reside a centelha de positividade e esperança que me move no debate público sobre o futuro de Londrina, minha cidade...

Nos momentos decisivos de seu percurso, Londrina sempre primou pelo dinamismo e pela coragem. Isso se repete dia a dia, sempre que a cidade é colocada na encruzilhada de seu próprio destino. No esporte, nas artes, na cultura, na política, Londrina se antecipa a grandes centros, promove grandes festivais, brinda seus cidadãos com grandes feitos, memoráveis realizações. A população de pés vermelhos é tão amante de si mesma que coloca em primeiro plano, diante das bandeiras nacional e estadual, seu pano rubro de quatro estrelas, símbolo maior de sua eticidade, de sua garra e idiossincrasias. No plano acadêmico (razão pela qual aqui vivo, caminho, poetizo), Londrina pulsa vida universitária descolada e inovadora, reunindo profissionais de todas as competências e valores, sendo nisso tudo incomparável em todo o Paraná. Há um adágio popular, do tempo dos pioneiros ingleses da década de 1930 e também da chegada dos primeiros mineiros, paulistas e gaúchos tropeiros, que se ufana: "Todo londrinense é um paranaense, mas nem todo paranaense é um londrinense..."
Da saga de suas conquistas e também de seus equívocos (como o denegar de seus índigenas e excluídos, posseiros, negros e minorias a papéis coadjuvantes ou esquecidos em sua trajetória como ouro verde e, depois, centro cultural e universitário do sul do país), os londrinenses, em 29 de março, irão se indispor com suas insatisfações e frustrações pessoais e irão promover evento único na prática cidadã de sua História. Mesmo entre os eleitores mais aficcionados de Belinati, que o veem como "pai dos pobres" ou qualquer outra besteira que o valha, haverá a pujança do resgate da dignidade da cidade. Iremos às urnas e, ainda que diante de escolhas tão aquém da cidade e seu brilho, daremos lição de civilidade ao país, reafirmando nosso pioneirismo como cidade precursora de boas novas, repleta de gente fascinante, sempre à procura de um lugar mais ao sol. Nisso se fixam os aspectos mais fabulosos de todo esse lamentável episódio nominado terceiro turno. Que dele possam nascer novas estradas, todas elas mais democráticas e sábias, absolutamente avessas a aventureiros e biografias incondizentes com o perfil de nossa tão amada cidade. É isso.