11 março 2009

Os manuscritos amorosos de Marx

"AMOR", fotografia de Jorge Vieira

Relia, dias atrás, os manuscritos parisienses de Marx, mundialmente conhecidos como Manuscritos Econômico-filosóficos de 1844, de carreira póstuma, já entrada no século XX. Os escritos do Marx da juventude (divisão meio estranhada e tipológica de sua vida intelectual) contêm as bases do humanismo socialista, bem como os alicerces da dialética e da consciência marxista em ebulição, rebelde, revolucionária. No meio da leitura, sempre prazerosa e reveladora, encontrei uma passagem fascinante, uma reflexão sobre o amor e a condição humana diante das vicissitudes de tão belo e complexo sentimento. No amor, Marx também vê dialogia e contradição, força viva de movimentos de intenções e realizações práticas. Vale a pena ler, com cuidado, atenção, rigor absoluto, A cada nova passada de olhos por tão belo parágrafo de idéias e letras, novas interpretações. Bom, é o que se pode esperar de autor tão ímpar, permanentemente renovado em suas críticas sempre atuais aos dias brutais do capitalismo contemporâneo. Em épocas de sandices como a "ditabranda" da Folha de S. Paulo e a perene criminalização dos movimentos sociais pela grande imprensa empresarial, que faz capitularem intelectuais e liberdades críticas com seu jogo de sedução e celebração cínica do real, Marx é alimento para a alma e para a vontade, meio hibernada, é verdade, de continuar pelos caminhos da esperança e da liberdade.

Se se pressupõe o homem como homem e sua relação com o mundo como uma relação humana, só se pode trocar amor por amor, confiança por confiança etc. Se se quiser gozar da arte deve-se ser um homem artisticamente educado; se se quiser exercer influência sobre outro homem deve-se ser um homem que atue sobre os outros de modo realmente estimulante e excitante. Cada uma das relações com o homem - e com a natureza - deve ser uma exteriorização determinada como vida individual efetiva que corresponda com o objeto da vontade. Se amar sem despertar amor, isto é, se teu amor não produz amor recíproco, se mediante tua exteriorização de vida como homem amante não te convertes em homem amado, teu amor é impotente, uma desgraça.

Karl Marx, 1844