31 março 2009

Educação e conservação...

"Two # 2", fotografia de Paulo Leal

Convidado a participar de uma mesa de debates sobre o tema "Educação e Violência: duas faces da mesma moeda", comecei e me interrogar sobre esse pretenso e indissociável vínculo. Corre mundo a ideia de que a educação e o direito, uma vez irmanados, podem alterar significativamente a tessitura do real. Educar e conhecer acessos ao mundo do legal, do normatizado; antecipar-se às crises, poupar, seguir em frente; buscar saberes variados, fragmentados, capazes de permitir mobilidade em meio às avessas e indesejadas crises do capital... Todo esse palavrório, deselegante até não mais poder, configura uma das ideologias mais duradouras da era moderna, alicerçada pelo lógica de reprodução do próprio capital, qual seja: a de que vencer é um questão de insistência, busca, individualismo competitivo. A grande parceria entre Direito e Educação em nossos tão desencantados tempos da deseperança tem, pois, servido a isto: estimular personalidades competitivas, não-solidárias, hábeis a sobreviver numa realidade que grita aos quatro cantos do planeta que a lei deve ser a do salve-se quem puder. Para muito além dos conflitos éticos irresolvíveis dessa questão, tal assertiva reproduz desigualdades, formas variadas de exploração e a ingênua crença na sobrevivência do indivíduo solipsista, alijado voluntariamente do escopo da vida coletiva. Ciente de que esse tipo de abordagem não seria o foco das intervenções dos convidados (articulados socialmente sob a ótica da reprodução conservadora da história única do não-valor liberal e da vitória permanente da ordem capitalista), elaborei as impertinências abaixo. Espero que reflitam um pouco da inquietação de todos aqueles que buscam saídas reais para nossas crises e decepções. Saídas que devem, necessariamente, passar pela urgência de uma outra ordem social, um outro mundo - possível e cada vez mais desejado
“As rugas em nosso rosto são as assinaturas das grandes paixões que nos estavam destinadas, mas nós, os senhores, não estávamos em casa.”
Walter Benjamin

A questão da violência está diretamente vinculada aos processos gerais de reprodução social do capital. Imaginar que instituições ou práticas isoladas, ainda que bem-intencionadas e fruto de esforços coletivos sinceros e empenhados, possam enfrentar a criminalidade e o avanço crescente da barbárie pós-moderna, ofertando saídas eficientes e duradouras, é replicar ingenuidades e descaracterizar a própria essência da vida comum, qual seja: a da permanente conexão entre os fenômenos políticos, econômicos, culturais, educacionais, jurídicos... os quais, aparentemente, têm folêgo próprio, independente.

Marx definiu com clareza a força dialética dos esforços que buscam interpretações fidedignas da realidade. Ou se caminha para totalidades cada vez mais abrangentes, capazes de retornar ao seu ponto de partida de modo mais pertinente e consequente, ou se reproduz o mundo das ilusões, que assevera ser possível humanizar em meio ao desumano, valorizar diante dos não-valores, democratizar e promover justiça e liberdade no seio de uma sociedade marcadamente excludente, programada para moer gente, destruir sonhos, acirrar as desigualdades como origem e destino do próprio salão dos grandes negócios, das grandes jogadas, das crises permanentes engendradas pela tacanha e canhestra crença neoliberal de que não há mais horizontes utópicos possíveis.

Hoje, num universo do trabalho cada vez mais precarizado e mercantil (em que projetos e saberes se transformam diariamente em vis objetos de troca e acumulação de riquezas nas mãos da minoria), a educação é, sem sombra de dúvida, política oficial de conservação da ordem. Na esteira da tradição deixada por Marx e os revolucionários dos séculos XVIII e XIX, a coisa poderia ser indagada do seguinte modo: a quem interessa consciências emancipadas, juízos críticos, fazeres totalizantes? Como reunir num único mundo a riqueza que ostenta e violenta e a humanidade que aproxima e partilha? De que vale o consumo de luxo se ele não puder gerar cobiça e agravar distinções de classe, de acesso ao conhecimento, perturbar mentes, desvirtuar talentos, alienar corações? A escola pode algo contra a marca indelével do capital, isto é, sua insistência em arrefecer, segregar, tornar obsoletos e insignificantes sonhos de virtude, projetos verdadeiramente humanistas?

E o direito sob as cores (opacas e sem vida, é claro) do capital, o que pode? Há justiça que repare fome, miséria, perseguição, consequências das distorções ideológicas, publicidades nefastas, enfim, a exploração, do simbólico ao concreto, do homem pelo homem?

Numa pergunta: há educação que humanize e justiça que repare, promulgue paz e liberdade, num mundo todo moldado pela carne moída e dilacerada das engrenagens do capital?