30 março 2009

A mão que faz o samba...

Fotograma de "Metrópolis" (1927), do alemão Fritz Lang. À época a questão da politização das tecnologias e dos recursos capazes de alavancar a produção e acirrar os conflitos de classe na ordem social que opõe capital e trabalho já se fazia presente por inteiro. Brilhante peça do cinema mundial, a película magistral de Lang explora com sensibilidade o universo dos trabalhadores, suas lutas, seus sonhos de conquista...
(Texto entregue para publicação à Revista Estação, edição de outono, 2009)
Luz, câmera, ação! Das primeiras ocasiões em que essa expressão era anunciada, em bradada emoção nos campos de produção cinematográfica, aos dias atuais, tão “velozes e furiosos”, muita coisa mudou: as luzes melhoraram, as câmeras ganharam modelos e versões cada vez mais potentes e sofisticadas, a ação passou a ser mediada, de forma intensa e nada relativizadora, pelos incrementos da tecnologia na vida social.

É notório o fato de que a tecnologia acrescenta possibilidades, cria inúmeras estratégias de sedução, potencializa atividades. Ela, em si, é sempre extraordinária. A questão - mais profunda, portanto - é saber que uso efetivo as pessoas fazem dela, de seus inventos, circunstâncias. Estão dadas todas as alternativas imagináveis: paz e guerra, emancipação ou subjugação, partilha ou concentração, conhecimento ou alienação. Dependendo das atividades por meio das quais a tecnologia ganha pista, alça voo, o ser humano proclama a liberdade ou, de modo igualmente poderoso, retorna, preso e amargurado, à escravidão do corpo e da alma.

Computadores, carros lindos e possantes, celulares de mil e uma utilidades, centros de loja que expressam as maravilhas da arquitetura e do consumo pós-modernos, satélites, sinais, frequências, sintonias, medicamentos, instrumentos para o ensino e a pesquisa, objetos que disseminam a comunicação, o contato, levam longe a palavra, o gesto, o desejo... todas essas coisas são inquestionavelmente fabulosas, inquietantes, burilam nossa imaginação, agudizam nossas fantasias.
Politizar o uso e o domínio de todas essas tecnologias é, no entanto, o centro do debate. Afinal de contas, a quais interesses irão servir a fabricação e a distribuição desses itens? A Internet, coqueluxe do mundo contemporâneo, servirá a que tipo de propósito? Numa sociedade cravejada por diferenças sociais infinitas, a tecnologia também é uma questão política, um desdobrar da luta pelo controle ideológico da vida coletiva. É bom, para os meninos e as meninas de hoje e de amanhã, que jamais esqueçamos: a mão que faz o samba (ou o rock, ou o xote) faz também a bomba, a guerra total. A definição é circunstancial, mediada pelas histórias que julgamos realizar. Se quisermos uma tecnologia pertinente, voltada para o futuro do humano, devemos, antes de mais nada, humanizar nossas relações sociais. Outro remédio será sempre outra grande ilusão. É isso.