25 março 2009

O ensaio necessário dos dias


Durante semanas, em tempo e espaço imprecisos, flagrei-me fotografando todo tipo de instrumento dedicado à preguiça, à contemplação, ao descanso. Com um celular em mão (de baixíssima resolução, frise-se), capturei imagens de cadeiras, bancos de praça, berços, camas, redes, almofadas gigantes, poltronas confortáveis (algumas nem tanto!), assentos de automóvel, balanços de parque, vasos sanitários... O intuito era recuperar imagens dos espaços dedicados ao ócio, ao pensar, ao desacelerar. Diante de um tempo exigente e impiedoso com o pouco-caso e as vagarosidades, optei por homenagear as resistências rebeldes daqueles que persistem nas longas respiradas, tomadas de fôlego. Num exercício prazeroso de afinamento do olhar antropológico, integrei à minha análise os grandes emblemas de cobiça do indivíduo pós-moderno, nos quais imaginam poder renovar ares e disposições, sonhar mais uma vez em voltar a ser humanos... Espero que o resultado incite alguma reflexão, novos olhares antropológicos. Particularmente, senti-me feliz diante das poltronas profundas, estofadíssimas, em que me vi espraiado, livre, eterno.

A preguiça move montanhas. Sem descanso não há mente, não há corpo. As ideias, as práticas, tudo aquilo que é permitido pela criatividade humana requer longas paradas, intensas espreguiçadas, demoradas partidas.

Da contemplação, vida do espírito, erguem-se os elementos constitutivos da vida ativa: o trabalho e a ação, a transformação do mundo em algo que possua nossa imagem, a qual exige ser lapidada diante dos espelhos do mundo.


Hannah Arendt já advertira: ¨Conhecer significa, antes de tudo, negar a realidade, desafiá-la.¨ Ora, se para desafiá-la é preciso, sim, que façamos coisas concretas, insubordinemo-nos diante das coisas por ela expressas, para negá-la necessitamos de cuidado e muita, muita reflexão. Mais uma vez, a preguiça se faz origem. Na ausência da chance de olhar para o nada, buscar articulações entre palavras e feitos, a realidade se torna pura abstração, um convite para a ação impertinente e inconsequente. A abrangência sempre desejada dos atos humanos deve se fazer permissiva diante da extravagante (em tempos de tanto pragmatismo e urgências vazias) arte da preguiça. Bom, a lição está em clássicos distantes no tempo e até no ideário: Paul Lafargue, ¨Direito à preguiça¨, e Bertrand Russel, ¨Elogio ao ócio¨.


Fazer nada também é ingrediente possível de uma cultura de resistência. Chamados a toda hora para sermos produtivos e incansáveis na busca por milhões (que irão enriquecer tão-somente os donos do capital, esvaziando o sentido do trabalho, transformando-o ainda mais em instrumento de espoliação e desumanização), assumir uma postura de preguiça e indolência diante dos alucinados calendários de mercado é pura rebeldia revolucionária, um sonoro não ao trabalhe, trabalhe, compre, compre.


Resistir aos apelos da sociedade de consumo e entretenimento tem nas paradas do ócio condição indispensável para seu vigor permanente. Onde encontrar ânimo para a leitura (ato de descriptografar os caracteres que mantêm em pé as muralhas da própria realidade) num tempo de tantas imagens e efeitos especiais? Como descobrir o prazer pela boa alimentação (base para o funcionamento adequado da máquina humana no combate a sua programação pelas ideologias reinantes do indivíduo fragmentado pós-moderno), pelos bons papos num tempo histórico em que tudo tem de ser veloz, todos têm de ser rápidos, frugais, banais? De que modo acurar os sentidos num mundo superficial, cravejado pela estética do útil e vendável? Mais uma vez se insurge como potência emancipadora a prática eloquente da preguiça e uma ação destemida do ócio.


Parar poder ver os muros de intolerância e perseguição que se erguem por toda a parte e sintonizar parcimoniosamente as vozes do mundo nas ondas da consciência livre e crítica, é necessário parar, caminhar lentamente, agudizar todos os elementos da sensibilidade humana. Vendo e ouvindo de novas formas, assumimos a possibilidade de desfazer preconceitos e tornar visíveis histórias e personagens esquecidos, silenciados pela lógica frenética e inconsistente de uma época de predisposições exclusivas aos números, saldos, receituários de liquidez e eficiência prática, instantânea. Corpo e mente exigem estações de calmaria, lugares em que possam se reunir para partilhar as experiências dos dias. Respirar e revigorar para ampliar as distâncias da caminhada, que pressupõe olhar atento, ouvidos esticados, sensações plenas. Sofás, cadeiras, redes, camas, cantinhos de introspecção, colméias de transformação – do humano e do mundano, em síntese histórica e dialética. É isso.