02 março 2009

Terceiro Turno

"Fênix ", fotografia de Alexandra da Silva Pinto de Oliveira. Tal qual a ave mitológica dos gregos e, antes, egípcios, Londrina irá renascer das próprias cinzas, após lento e demorado processo de revitalização dado por sua "morte" política, em 2008. Do mesmo modo como a ave mitológica, Londrina já se acostumou a carregar peso maior que o das suas possibilidades e força, logrando êxito, surpreendendo, dando a volta por cima, surgindo mais esbelta e encantadora. Este é o desafio da ave londrinense no tercerio turno de 29 de março: resgatar a dignidade da política e desenhar o município norte-paranaense de terras rubras no mapa das grandes lições da cidadania e da vida brasileira. Um desenho de sangue, suor e muitas lágrimas.

Não existem dúvidas a respeito de minha paixão por Londrina. Eu e todos que acompanham meus escritos, aulas, devaneios fotográficos e cinematográficos reconhecemos que tudo que idealizo e transformo em ação, objetividade concreta (para falar com o velho Marx), rende alguma homenagem a Londrina, oferta-lhe novos graus de minha reverência, de minha eterna gratidão. Aqui na terra vermelha norte-paranaense tive o privilégio de cursar uma Universidade de ponta, conhecer gente definitiva na consolidação de minha visão de mundo, encantar-me e casar-me com Karina e ver, junto dela, nosso pequeno João Gabriel nascer para o mundo. Sim, de Londrina para o universo.

Nesse sentido, apoquenta-me demais a chegada de um terceiro turno das eleições municipais do ano passado, a ser realizado no próximo dia 29. Antônio Belinati (que felizmente ganhou mas não levou), uma vez catapultado da vida política da cidade, ao menos de modo mais direto e visível a olho nu, rompeu letras jurídicas, causou trezenas de transtornos, acirrou os conflitos político-partidários da cidade e lançou a comarca numa onda estranha de instabilidade democrática e apatia, em tons bem maiores do que os de regra na política institucional brasileira e em nossa tão titubeante experiência cidadã. Sempre bom lembrar que Belinati não fez nada disso sozinho: anda insistentemente acompanhado do que há de mais anacrônico na senda política de Londrina, do Paraná e do país. Uma boa centena de correligionários dispostos a tudo para não perder redes de influência e apoios para seus tentáculos nas estruturas de poder da cidade, fenômenos que vêm lhes garantindo, décadas a fio, importantes filões de riqueza material e, por extensão, fôlego eleitoral.

Os leitores do "Espaço" sabem de minha predileção por temas frios, que possam se eternizar, dado seu nível de universalização na história das idéias socialistas e das artes e culturas em geral. Não me apetece escrever sobre circunstancialidades e tornar o blog obsoleto em horas, dias, na melhor das hipóteses. Por isso, não escrevo sobre tragédias noticiadas pela TV, bastidores fragmentados e instantaneístas da vida nacional, eleições, pacotes econômicos, partidas de futebol de meio de campeonato (a não ser que um episódio dessas epopéias da vida cotidiana se torne tão especial e fantástico a ponto de virar verbete de enciclopédias culturais...). Amedronta-me virar um espaço marcado pela tirania do óbvio e das intimidades, para lembrar aqui uma preocupação essencial do grande sociólogo Richard Sennett no tocante à sociabilidade contemporânea.

Mas Londrina não é manchete de um impresso diário. A cidade tem tradição, tem história e merece papel de destaque na vida brasileira. O incômodo e a baixa auto-estima que neste momento marcam o semblante do londrinense são temas urgentes, que requerem de todos detidas análises, comprometidos engajamentos para sua superação. Não há dúvidas de que o resultado do chamado terceiro turno em Londrina, seja ele qual for, terá permitido aos habitantes da pequena Londres um profundo exercício de autocrítica, uma sincera e talvez corrosiva aceitação da mea culpa.

Os erros pulularam em toda parte. A vista grossa (cega?) das instâncias federais da justiça brasileira permitiu que o caso se estendesse por todo o calendário eleitoral de 2008. A cassação pelo TSE da candidatura de Belinati, impugnado pelo TRE parananese antes das eleições, deu-se após consagrado o nome do pepista (insígnia dos partidários do PP, partido também de Paulo Maluf, outra das excentricidades de nossa democracia liberal) nas urnas, por expressiva e incomprensível votação popular. Festim que poderá ganhar contornos de tragicomédia no caso da absolvição de Belinati pelo STF, dia desses, num futuro qualquer... Fato é que imprensa cooptada, justiça morosa, baixíssima organização e participação popular nos temas coletivos da experiência social, tudo isso junto permitiu tal imbróglio, tal inadequação aos tempos de liberdade e aspiração democrática. Belinati foi longe e chegou à vitória no segundo turno porque as ausências se fizeram sentir em tudo que era canto: pouca gente se prestou ao luxo de informar corretamente (e falo agora explicitamente dos chamados meios de comunicação social de massa) a quantas andavam os processos que pesavam sobre o ex-triprefeito; a apatia generarizada em relação às políticas institucionais no país, em muito alimentada pelo próprio descaso e despreparo de nossos representantes, logrou enorme êxito em manter afastada da discussão pública a sucessão muncipal na cidade, como se as eleições fossem simplesmente mais um acontecimento ordinário, passageiro e sem significado algum; o nada renovado quadro político da cidade, com lideranças antigas, desgastadas, pouquíssimo afeitas aos anseios das novas gerações e estremecidas no imaginário e na paciência dos eleitores mais experientes, contribuiu também - e de modo superlativo! - para o desinteresse, a desmotivação generalizada. São múltiplas, portanto, as determinações do fracasso da vida política londrinense. Mas são igualmente diversas as possilidades que agora, no olho do furacão, se nos apresentam. Vamos lá ver.

Novidades promissoras nos candidatos que irão disputar o terceiro turno no final de março não existem, sob qualquer perspectiva de que se possa ver. O tucano Hauly, campeão de derrotas na tentativa de chegar à prefeitura de Londrina, pouco impressiona por sua profunda antipatia, pouco apreço pelas questões mais urgentes das classes subalternas. Representa, numa hipótese pós-romântica hoje em dia, uma visão de eficiência da máquina burocrática do poder, destacando em seu palavrório a minimização de custos e a maximização de resultados: parece até disputa para obtenção dos famigerados selos ISO. Verdade é que o neoliberalismo tucano que já causou sérios problemas ao Brasil em anos anteriores tem no candidato em questão boa expressividade. Não vejo nas forças econômicas e nos interesses privados que o sustentam nada que se possa aproximar de políticas públicas que visem ao combate das desigualdades sociais e à promoção efetiva da cidadania. Quando ouço o discurso de Luis Carlos Hauly, de embate apagado, meio nulo, forçado, tenho a impressão de estar diante de um alto executivo em busca de emprego numa empresa de capital transnacional, prometendo cortes, perseguição às organizações de classe e o surrupio da ordem pública, em favor do privatismo tosco e indiferente de nossa elite econômica - que de nossa, aliás, nada tem, nada...

Já com Barbosa Neto, não obstante a permanência da incredulidade e da tristeza nas constatações mais evidentes, a coisa é diferente, pega um pouco mais pesado. Pedetista de algum tempo (conquanto nada dele possa ser visto como parte do legado de sujeitos como Brizola ou Darcy Ribeiro, além de, pior, em sua prática nada haver de democrático, popular, socialista...), o terceiro colocado no primeiro turno chega agora a uma disputa talvez inesperada, porém muito desejada. O jornalista formado pela UEL - e, dizem, bom garoto, bom aluno - pleiteia pela terceira vez a cadeira de prefeito de Londrina. Perdeu em 2000, no segundo turno - de lavada, frise-se! -, e em 2004 e 2008 passou longe. Deverá absorver muitos votos de Antônio Belinati, que apoiou no segundo turno e cuja semelhança nas falas e ações, além de notório compadrio, já não são mais novidade nem segredo para ninguém.
Diante da urna, fastigado e desconfiado, o eleitor londrinense terá de optar entre dois deputados federais no curso de seus mandatos, dois representantes daquilo que faz duas ou três décadas emperra Londrina, mantendo a cidade de tantas histórias e incontáveis orgulhos no equívoco do anonimato, de certo ostracismo no mapa Brasil. Um tucano que esconde (ou dele se envergonha?) seu passado de fortes alianças com os setores mais atrasados e conservadores da vida nacional; um pedetista que já foi belinatista, já flertou descaradamente com o malufismo e o mundo-cão dos programas sensacionalistas de TV e Rádio, tendo sido filiado ao PP e nunca produzido clara identidade política e ideológica junto a setores populares e organizados da sociedade londrinense. Qualquer escolha, outro aviso de incêndio quanto ao futuro da cidade. Essa é a determinação que ainda pende para o lado negativo. Independentemente das figuras - e que figuras, não?! - que se apresentam como sucessoras à interinidade que sufoca e trava a prefeitura de Londrina, lançada no momento a um remendo de composições fisiológicas de partidos instáveis e altamente caudilhados, caberá à sociedade londrinense designar o vislumbre positivo de todo esse mal-estar. E é nesse aspecto que reside a centelha de positividade e esperança que me move no debate público sobre o futuro de Londrina, minha cidade...

Nos momentos decisivos de seu percurso, Londrina sempre primou pelo dinamismo e pela coragem. Isso se repete dia a dia, sempre que a cidade é colocada na encruzilhada de seu próprio destino. No esporte, nas artes, na cultura, na política, Londrina se antecipa a grandes centros, promove grandes festivais, brinda seus cidadãos com grandes feitos, memoráveis realizações. A população de pés vermelhos é tão amante de si mesma que coloca em primeiro plano, diante das bandeiras nacional e estadual, seu pano rubro de quatro estrelas, símbolo maior de sua eticidade, de sua garra e idiossincrasias. No plano acadêmico (razão pela qual aqui vivo, caminho, poetizo), Londrina pulsa vida universitária descolada e inovadora, reunindo profissionais de todas as competências e valores, sendo nisso tudo incomparável em todo o Paraná. Há um adágio popular, do tempo dos pioneiros ingleses da década de 1930 e também da chegada dos primeiros mineiros, paulistas e gaúchos tropeiros, que se ufana: "Todo londrinense é um paranaense, mas nem todo paranaense é um londrinense..."
Da saga de suas conquistas e também de seus equívocos (como o denegar de seus índigenas e excluídos, posseiros, negros e minorias a papéis coadjuvantes ou esquecidos em sua trajetória como ouro verde e, depois, centro cultural e universitário do sul do país), os londrinenses, em 29 de março, irão se indispor com suas insatisfações e frustrações pessoais e irão promover evento único na prática cidadã de sua História. Mesmo entre os eleitores mais aficcionados de Belinati, que o veem como "pai dos pobres" ou qualquer outra besteira que o valha, haverá a pujança do resgate da dignidade da cidade. Iremos às urnas e, ainda que diante de escolhas tão aquém da cidade e seu brilho, daremos lição de civilidade ao país, reafirmando nosso pioneirismo como cidade precursora de boas novas, repleta de gente fascinante, sempre à procura de um lugar mais ao sol. Nisso se fixam os aspectos mais fabulosos de todo esse lamentável episódio nominado terceiro turno. Que dele possam nascer novas estradas, todas elas mais democráticas e sábias, absolutamente avessas a aventureiros e biografias incondizentes com o perfil de nossa tão amada cidade. É isso.