17 abril 2009

À última hora da noite

"Hora Mágica", fotografia de Liliana Bagueixe

Demorei a ver poesia no abrupto mundo novo.
Havia decidido não mais me emocionar,
não sorrir ilusões.
Descontínuos amores,
repliquei prosa, cronista me surpreendi.

Despercebido de mim mesmo,
salvei a têmpora de minha mágoa.
Apaguei, desfiz, acendi, indaguei:
Que fazer?
Gesto bolchevique,
coração e memória ainda revolucionários.
Perscrutei, enfim, um poema-amanhã.

Insisti tanto em vislumbrar luz na escuridão
que esqueci estar à última hora da noite.
Pássaros sem voo
faces ocultas
tramas obscuras
fantasia à venda,
cardápio para a autoilusão.

Afinal, tanto medo de quê?
Encerrar a dor, iniciar, iniciar, iniciar.
Descontaminei os ânimos,
afrouxei os limites da paixão,
implodi, para recompor o mundo.

Mundo inteiro,
apesar da inevitável transação transada.
Aconcheguei-me ao menino Vicente,
o jovem-maduro Florestan,
e vi Deus do alto, humanizando,
apontando-me o mar,
o horizonte.

A queda sobre mim mesmo
despertou o sonho, o maior,
a semente de tudo.
(Ouvi Zé Geraldo acordar minha sonolenta manhã.)

Lembro agora,
longe do acovardado pequeno-burguês desenganado,
o peregrino de Raul:
"Baby, o que houve na França
[Londrina ou Rio de Janeiro]
vai mudar nossa dança".
Novos passos.
E a luz se fez!

14 abril 2009

Encruzilhada vermelha

"A encruzilhada", fotografia de Fabio Palma

Diante da árvore suntuosa, percebeu que havia dois caminhos possíveis. Não sabia nada sobre nenhum dos dois. Nunca havia estado ali. Jamais pensara em uma situação daquelas. A chuva não tardaria a cair, céu se fechando, nuvens escurecendo. Sentiu, quase de uma só vez, todos os medos, as maiores ansiedades.

Cronista de seus dias, havia perdido a fé nas palavras. Desde garoto só escrever, escrever, escrever conferia algum sentido a sua existência. Agora, depois de tantas decepções, depois de tantos poemas desperdiçados e tantas prosas engavetadas pelas ausências do mundo, estava decidido: chega de palavras! Chegara ao ponto de debochar de sua epígrafe dileta: "A mais poderosa das armas. Palavras. Não pelo tom, mas pelo eco", do bom Manoel Affonso de Mello. Qual eco? Por onde ecoam as palavras num mundo tão sem diálogo, tão intolerante, ardentemente desamoroso?

Os dois caminhos a sua frente replicavam ainda mais a ardência da desilusão.

Perdido nas armadilhas do impasse, relembrava os amores despedaçados, as seguidas derrotas após inúmeras batalhas travadas. Amanda, Patrícia, Bruna, Carolina, Fernanda, Juliana, Nayara, Cíntia, Sabrina... rostos cada vez mais distantes, nublados, tragados pelos dias à espera da melhor palavra, da letra ideal, da história perfeita. Recordava, acabrunhado, as parcelas mais intensas e não vividas com o amor de suas mulheres. Elas chegavam e partiam, impacientes por não presenciarem a ficção virar realidade, a poesia transformar-se em conquista.

O alvissareiro anonimato tão bem cuidado se ressentia naquele momento, naquela dupla não-saída diante de seus olhos. Absorto em suas angústias e irrealizações, iniciou farta especulação acerca dos caminhos. Ideologizou seus enigmas.

À direita. Lembrou-se inexoravelmente destro e notou mais luz pelo caminho. Pôde vislumbrar mais verde e calmaria também. Nada de buracos, nenhuma ameaça a olho nu. O caminho para o leste prometia tranquilidade, temperança. Mais: não exigia palavra, sentimento algum, crítica, reflexão, nada vezes nada. A expectativa, que se realizava num horizonte mais-que-provável de sucesso e prosperidade material, era de transubstanciação. Veria, enfim, a vida perdida entre linhas, lápis e editores eletrônicos de texto converter-se milagrosamente em abundância e comportamentos pequenos-burgueses. O passado regado a longas caminhadas e intermináveis esperas acenava então com o próprio fim. Bastava-lhe dar um passo e seguir em frente. Ilusões desfeitas, a novíssima estrada propunha altíssimas doses diárias de auto-ajuda, ritos, vestes, sons e mercadorias da moda.

Decidiu imaginar-se na contramão mais um vez.

À esquerda. O velho se renovando, o passado reciclado, a História em permanente repetição. Pelo lado ocidental conseguia contemporizar mais amores desfeitos, inacreditáveis juras falsas, irremediáveis mentiras sobre mudança. As cores da liberdade, da igualdade e da fraternidade já demostravam desbotamento, certo cansaço histórico. Lutas, bandeiras, premissas, tudo apontava progressivo envelhecimento, morte anunciada pelo abandono de ideais. Os ismos se refugiavam em escuras cavernas ao longo de todo o caminho. Os trânsfugas de toda a sorte, radicais e moderados, assaltavam o trecho afugentando os mais vividos, expurgando os mais inexperientes. Desgraças a sua presença tão cheia de desfaçatez, algozes capitulantes, a opção à esquerda tornava-se muito pouco atraente.

Entre o sim e o não, uma vida de glórias e sucessos recheada de posses e anglicismos ou uma caminhada prolongada pelas batalhas de mesmas cores, tons, ecos, tudo muito incerto - e liderada pela palavra escrita utópica e por contínuos desamores em retirada -, deu passo à esquerda, optou pelas cruzadas escuras, pela longa pista sem atalhos nem promessas de tranquilidade e recompensas materiais.

Era domingo e a semana dava o ar da graça.

Julgou que ainda havia algo a escrever.

07 abril 2009

A lagoa do Brasil

"Vi com as mãos" hoje pela manhã minhas primeiras fotos publicas em revista. Em janeiro passado, durante minhas férias no Rio de Janeiro, cliquei alguns instantes da Lagoa Rodrigo de Freitas, na zonal sul carioca, entre o Jardim Botânico e as praias de Ipanema e do Leblon. A beleza da lagoa, bem como toda a aura infinita que recobre suas ruas, passarelas, desfiles do belo, me seduziu à primeira contemplação. A lagoa, para mim, é síntese do Rio, no amálgama cintilante com as paixões futebolísticas da máquina tricolor das Laranjeiras. É bom demais estrear no mundo da fotografia com as imagens da lagoa mais badalada do país, principalmente quando estampada nas chiques páginas da Revista Estação, edição de outono

O Rio de Janeiro desperta infinitas paixões. Paisagens humanas e culturais ganham brilho na natureza esplendorosa de suas montanhas, praias, verdes mil. Há algo de mágico na orla que aponta, já cantava Tim Maia, o nada igual que existe entre o Leme, brotando ao pé do Pão de Açúcar, vizinho da interiorana Urca e da mística Praia Vermelha, e o Pontal, lá no Recreio, ponto de paz das praias oceânicas cariocas.

Para muito além das praias, contudo, águas em calmaria também abrilhantam a vida na antiga e mais bela capital do Brasil. A Lagoa Rodrigo de Freitas, espaço de morada, passeio, lazer e passagem de gente de todo o mundo, é recanto do conforto, oásis de amantes, celeste território de deslumbramento.


Vista do Corcovado ou do Mirante Dona Marta, posta a prova dos dedos e pés nas calçadas que a ladeiam, a Lagoa, simplesmente assim, é miragem viva, real, um jardim de maravilhas brasileiras acenando com a promessa de festejo e encanto nos atalhos para as estreladas rodas de samba e inquietos concertos de rock and roll da Zona Sul. Mas a Lagoa, metro quadrado milionário e residência fixa de celebridades e mercadorias multinacionais, é de todos os amantes do Rio e do Brasil. É eterna como o Tricolor das Laranjeiras, o Fluminense de Chico Buaque e Nelson Rodrigues, a poesia de Cartola, o cenário exuberante da Estação Primeira de Mangueira. É, pois, tradição e herança, testamento vivo do melhor do nosso país e de nossa gente.