14 abril 2009

Encruzilhada vermelha

"A encruzilhada", fotografia de Fabio Palma

Diante da árvore suntuosa, percebeu que havia dois caminhos possíveis. Não sabia nada sobre nenhum dos dois. Nunca havia estado ali. Jamais pensara em uma situação daquelas. A chuva não tardaria a cair, céu se fechando, nuvens escurecendo. Sentiu, quase de uma só vez, todos os medos, as maiores ansiedades.

Cronista de seus dias, havia perdido a fé nas palavras. Desde garoto só escrever, escrever, escrever conferia algum sentido a sua existência. Agora, depois de tantas decepções, depois de tantos poemas desperdiçados e tantas prosas engavetadas pelas ausências do mundo, estava decidido: chega de palavras! Chegara ao ponto de debochar de sua epígrafe dileta: "A mais poderosa das armas. Palavras. Não pelo tom, mas pelo eco", do bom Manoel Affonso de Mello. Qual eco? Por onde ecoam as palavras num mundo tão sem diálogo, tão intolerante, ardentemente desamoroso?

Os dois caminhos a sua frente replicavam ainda mais a ardência da desilusão.

Perdido nas armadilhas do impasse, relembrava os amores despedaçados, as seguidas derrotas após inúmeras batalhas travadas. Amanda, Patrícia, Bruna, Carolina, Fernanda, Juliana, Nayara, Cíntia, Sabrina... rostos cada vez mais distantes, nublados, tragados pelos dias à espera da melhor palavra, da letra ideal, da história perfeita. Recordava, acabrunhado, as parcelas mais intensas e não vividas com o amor de suas mulheres. Elas chegavam e partiam, impacientes por não presenciarem a ficção virar realidade, a poesia transformar-se em conquista.

O alvissareiro anonimato tão bem cuidado se ressentia naquele momento, naquela dupla não-saída diante de seus olhos. Absorto em suas angústias e irrealizações, iniciou farta especulação acerca dos caminhos. Ideologizou seus enigmas.

À direita. Lembrou-se inexoravelmente destro e notou mais luz pelo caminho. Pôde vislumbrar mais verde e calmaria também. Nada de buracos, nenhuma ameaça a olho nu. O caminho para o leste prometia tranquilidade, temperança. Mais: não exigia palavra, sentimento algum, crítica, reflexão, nada vezes nada. A expectativa, que se realizava num horizonte mais-que-provável de sucesso e prosperidade material, era de transubstanciação. Veria, enfim, a vida perdida entre linhas, lápis e editores eletrônicos de texto converter-se milagrosamente em abundância e comportamentos pequenos-burgueses. O passado regado a longas caminhadas e intermináveis esperas acenava então com o próprio fim. Bastava-lhe dar um passo e seguir em frente. Ilusões desfeitas, a novíssima estrada propunha altíssimas doses diárias de auto-ajuda, ritos, vestes, sons e mercadorias da moda.

Decidiu imaginar-se na contramão mais um vez.

À esquerda. O velho se renovando, o passado reciclado, a História em permanente repetição. Pelo lado ocidental conseguia contemporizar mais amores desfeitos, inacreditáveis juras falsas, irremediáveis mentiras sobre mudança. As cores da liberdade, da igualdade e da fraternidade já demostravam desbotamento, certo cansaço histórico. Lutas, bandeiras, premissas, tudo apontava progressivo envelhecimento, morte anunciada pelo abandono de ideais. Os ismos se refugiavam em escuras cavernas ao longo de todo o caminho. Os trânsfugas de toda a sorte, radicais e moderados, assaltavam o trecho afugentando os mais vividos, expurgando os mais inexperientes. Desgraças a sua presença tão cheia de desfaçatez, algozes capitulantes, a opção à esquerda tornava-se muito pouco atraente.

Entre o sim e o não, uma vida de glórias e sucessos recheada de posses e anglicismos ou uma caminhada prolongada pelas batalhas de mesmas cores, tons, ecos, tudo muito incerto - e liderada pela palavra escrita utópica e por contínuos desamores em retirada -, deu passo à esquerda, optou pelas cruzadas escuras, pela longa pista sem atalhos nem promessas de tranquilidade e recompensas materiais.

Era domingo e a semana dava o ar da graça.

Julgou que ainda havia algo a escrever.