17 abril 2009

À última hora da noite

"Hora Mágica", fotografia de Liliana Bagueixe

Demorei a ver poesia no abrupto mundo novo.
Havia decidido não mais me emocionar,
não sorrir ilusões.
Descontínuos amores,
repliquei prosa, cronista me surpreendi.

Despercebido de mim mesmo,
salvei a têmpora de minha mágoa.
Apaguei, desfiz, acendi, indaguei:
Que fazer?
Gesto bolchevique,
coração e memória ainda revolucionários.
Perscrutei, enfim, um poema-amanhã.

Insisti tanto em vislumbrar luz na escuridão
que esqueci estar à última hora da noite.
Pássaros sem voo
faces ocultas
tramas obscuras
fantasia à venda,
cardápio para a autoilusão.

Afinal, tanto medo de quê?
Encerrar a dor, iniciar, iniciar, iniciar.
Descontaminei os ânimos,
afrouxei os limites da paixão,
implodi, para recompor o mundo.

Mundo inteiro,
apesar da inevitável transação transada.
Aconcheguei-me ao menino Vicente,
o jovem-maduro Florestan,
e vi Deus do alto, humanizando,
apontando-me o mar,
o horizonte.

A queda sobre mim mesmo
despertou o sonho, o maior,
a semente de tudo.
(Ouvi Zé Geraldo acordar minha sonolenta manhã.)

Lembro agora,
longe do acovardado pequeno-burguês desenganado,
o peregrino de Raul:
"Baby, o que houve na França
[Londrina ou Rio de Janeiro]
vai mudar nossa dança".
Novos passos.
E a luz se fez!