19 maio 2009

Sem elas

"Elas", fotografia de Nelson Nereu

Ouvia garoto
que seria só solidão,
nas noites frias,
de verão,
na interminável dor,
do tempo e do espaço.

Hoje sei que a solidão passa,
volta, vai, retorna sempre,
com elas ou sem elas.
A ausência do mundo-mulher
dói na própria fratura de seu não-vir,
não-estar, não-querer-saber.

Contorno o universo,
replico livros,
cantarolo discos inteiros,
posando de literato, poeta,
intelectual engajado (deveras, aliás!).
A falta do lábio eterno,
contudo e sem nada,
macula meus versos,
meus takes e remakes,
dando fim trágico
ao início,
ao fim,
e ao meio de minhas histórias.
Fábulas da vida,
roteiros da ficção que se quer esquecer,
negar, refugiar no inaudito,
a força-mulher é pulsação,
dança, comunicação sem palavras,
movimento e sedução,
letra e música,
capa e miolo,
preenchimento d´alma.
No colo, sob mãos,
carinhos e auspícios venturosos.
Nos braços, sob olhares,
jeitos e molejos,
a dádiva do toque,
nuvens que cobrem meu mundo:
faminta lucidez.
Sem elas,
eu adormeço, sim, poeta urbano,
mas triste,
escandalizado em meu vazio,
no turbilhão de incertezas
que povoa, agita e caotiza meu universo,
solo, girando em torno de um sol sem luz:
puro fogo.

18 maio 2009

A vingança de Cronos

"Waiting for you", fotografia de Carlos Hauck

Críticas sobre a crise,
a maior crise da própria crítica.
Palavras vazias, corações despedaçados,
vidas inteiras desperdiçadas, ocaso dos propósitos.

Geração de poucos movimentos,
nada em gestação, nada da geração,
feitura, fazimento do mundo,
promessas em suspensão, indeterminadamente.

Vencidos por uma divindade caída,
destronada pelo filho mimado,
corremos de canto a canto
desfilando sorriso torpe, cínico,
de quem vence tudo,
menos a humilhação do tempo,
da ácida vingança do perdedor.

Trocamos amor por moedas,
solidariedade mercantil,
valor-de-troca.

As paixões criam novos verbos:
instantaneizam-se,
evaporam almas,
subjugam amores,
perdem-se no cipoal da vaidade,
veleidade, superfluidade.

Ainda verbos do tempo perdido,
em busca de vingança:
fragmentam-se, microparticularizam-se
Neologismos que buscam cortar, atenuar;
esvaziam, contudo, as possibilidades:
a esperança não pode se propagar no vácuo.

Ismos mortos, sepultados na indulgência,
na ridicularização dos ridículos.
Novas censuras, velhos censores,
adornados de liberalidade, motivação empresarial.

A volta do deus caído é triunfante,
semiendeusada pela hipocrisia,
pela Academia que já se acabou,
trasladou do ideal ateniense
para a estética espartana;
fingiu-se inovada, pós-tudo...
Entalou-se no ostracismo,
mergulhou nos pés de seus descaminhos,
nas pegadas sem pistas do amanhã improvável.

O tempo venceu.
O espaço foi tomado.
As saídas foram ofuscadas.
O grito: ainda o recurso da resistência.

Se soubermos gritar,
escreveremos outro final,
destronando a vingança de sua larga espera,
recuperando a vitória,
sentimento inabalável como História.

O tempo perderá.
O espaço será reconquistado.
Às saídas seremos bem conduzidos.
A verdade: questão de tempo.

11 maio 2009

Longe demais de tudo II

Fotografia de Luis Mendonça
Lembrava espaços antigos da infância:
ruas, vielas, escadarias, bancos e praças.
Rememorava com paixão velhos amores,
com amor, eternas e antigas paixões.

Os beijos suaves, a timidez do toque,
o desejo a reprimir, conter,
explodir mais tarde,
nos delírios do rock and roll

Um olhar, um trejeito,
uma simples forma de amar,
vestir uma camisa,
tudo isso me conduziu por
dois, três, quatro anos,
tempo entre o velho
e o novo lançamento.
No fundo,
sempre uma banda de rock.

Os laços de eternidade,
a figura ilimitada da paixão incontestável,
o brilho evidente do amor latente,
o empuxo da paixão manifesta.
Figuras de excesso de um tempo longe,
longe demais de tudo,
uma outra e reiterada vez.

01 maio 2009

Longe demais de tudo

"Cores e curvas", fotografia de Quark (2006)
Brilhos, retornos,
insistência quase irritante.
A pergunta prossegue:
vou conseguir?
Outra é ainda perdulária:
e o que será de mim?
Entre nuvens, simples trechos e solos de blues,
desenho o mapa de meus dias.
Contemplo o amanhã à frente dos meus sonhos.
Dia claro e ensolarado,
um velejar em altíssimo mar.
Penso em jantar a dois.
Elejo Guy e Cocker, alternados,
para variar.
Seleciono o vinho com a mão trêmula:
um erro, longo adeus.
Pernoito em meus delírios,
percorro pernas com a ponta dos dedos,
acomodo costas sob pés,
deslizo meu mundo por todas as curvas,
livres, leves, radicais,
estrada enlouquecida.
Penumbras e faróis,
próximas e mais distantes,
três lampejos matinais,
corro de mim,
enfim, domingo.
Romances policiais,
heróis desejados,
personalidades idolatradas,
veneradas na excentricidade.
Aventuras de um noctívago,
pura mesmice.
A escrita pode me levar,
ao som de Clapton,
sempre muito longe demais.
Outra vez.