19 maio 2009

Sem elas

"Elas", fotografia de Nelson Nereu

Ouvia garoto
que seria só solidão,
nas noites frias,
de verão,
na interminável dor,
do tempo e do espaço.

Hoje sei que a solidão passa,
volta, vai, retorna sempre,
com elas ou sem elas.
A ausência do mundo-mulher
dói na própria fratura de seu não-vir,
não-estar, não-querer-saber.

Contorno o universo,
replico livros,
cantarolo discos inteiros,
posando de literato, poeta,
intelectual engajado (deveras, aliás!).
A falta do lábio eterno,
contudo e sem nada,
macula meus versos,
meus takes e remakes,
dando fim trágico
ao início,
ao fim,
e ao meio de minhas histórias.
Fábulas da vida,
roteiros da ficção que se quer esquecer,
negar, refugiar no inaudito,
a força-mulher é pulsação,
dança, comunicação sem palavras,
movimento e sedução,
letra e música,
capa e miolo,
preenchimento d´alma.
No colo, sob mãos,
carinhos e auspícios venturosos.
Nos braços, sob olhares,
jeitos e molejos,
a dádiva do toque,
nuvens que cobrem meu mundo:
faminta lucidez.
Sem elas,
eu adormeço, sim, poeta urbano,
mas triste,
escandalizado em meu vazio,
no turbilhão de incertezas
que povoa, agita e caotiza meu universo,
solo, girando em torno de um sol sem luz:
puro fogo.