18 maio 2009

A vingança de Cronos

"Waiting for you", fotografia de Carlos Hauck

Críticas sobre a crise,
a maior crise da própria crítica.
Palavras vazias, corações despedaçados,
vidas inteiras desperdiçadas, ocaso dos propósitos.

Geração de poucos movimentos,
nada em gestação, nada da geração,
feitura, fazimento do mundo,
promessas em suspensão, indeterminadamente.

Vencidos por uma divindade caída,
destronada pelo filho mimado,
corremos de canto a canto
desfilando sorriso torpe, cínico,
de quem vence tudo,
menos a humilhação do tempo,
da ácida vingança do perdedor.

Trocamos amor por moedas,
solidariedade mercantil,
valor-de-troca.

As paixões criam novos verbos:
instantaneizam-se,
evaporam almas,
subjugam amores,
perdem-se no cipoal da vaidade,
veleidade, superfluidade.

Ainda verbos do tempo perdido,
em busca de vingança:
fragmentam-se, microparticularizam-se
Neologismos que buscam cortar, atenuar;
esvaziam, contudo, as possibilidades:
a esperança não pode se propagar no vácuo.

Ismos mortos, sepultados na indulgência,
na ridicularização dos ridículos.
Novas censuras, velhos censores,
adornados de liberalidade, motivação empresarial.

A volta do deus caído é triunfante,
semiendeusada pela hipocrisia,
pela Academia que já se acabou,
trasladou do ideal ateniense
para a estética espartana;
fingiu-se inovada, pós-tudo...
Entalou-se no ostracismo,
mergulhou nos pés de seus descaminhos,
nas pegadas sem pistas do amanhã improvável.

O tempo venceu.
O espaço foi tomado.
As saídas foram ofuscadas.
O grito: ainda o recurso da resistência.

Se soubermos gritar,
escreveremos outro final,
destronando a vingança de sua larga espera,
recuperando a vitória,
sentimento inabalável como História.

O tempo perderá.
O espaço será reconquistado.
Às saídas seremos bem conduzidos.
A verdade: questão de tempo.