25 junho 2009

Herança

Vista ao cair da tarde do Pão de Acúcar, Rio de Janeiro/RJ, provavelmente a mais bela das capturas disponíveis ao olhar-esperança: símbolo do planeta-sonho (Fotografia de Roberto Mendes)

Pedirei duas passagens. Um tíquete deve me permitir belas vistas das montanhas verdes, aquelas que lançam sombra sobre os riachos de minha infância. Ao respirar o ar puro da altitude fria porém terna das saudades tão expressivas das velhas crônicas de meu avô materno, maestro soberano, espero encontrar a inspiração necessária para tomar as decisões acertadas, de efeito realmente duradouro e regozijante.
A segunda parte da viagem, patrocinada pelo outro tíquete, custeado por insolúveis gotas de suor-orvalho, deverá me levar para as estrelas, para a quinta delas. Lá, no mirante de meus mais caros sonhos, quero ver novamente o mar, iluminado pela certeza da descoberta. Lembro que na ponte entre a terceira e a quarta estrela, num momento de tomada romântica de minha visão de mundo, descobri-me em meio às palavras, para sempre letrado até os confins do humano. Não é à toa que a última letra é também o portal para novas galáxias, mais reluzentes, povoadas de inteligências solidárias. A celebração da vida vem, portanto, logo após a conquista da estrela de número cinco - o nome dela é resistência.
Anos mais tarde, durante todo o processo de adaptação a novos mundos, anseio recuperar o futuro, sublimando incertezas e marcando comprometimentos longe do abismo do presente-passado. Na estrela do amanhã, horizonte de minha vida, imagino preencher o universo de rosas, projetando no olhar de meu filho uma trajetória honesta e coerente. Quero ser a herança derradiana de meu porvir. Quero, isso sim, viver por ter vivido. E amado. E ter feito a coisa certa.