10 junho 2009

A vingança de Cronos (versão demo)

"Metrópole I", fotografia de Oscar Henrique Liberal de Brito e Cunha

Quando garoto, correr atrás de demo-tapes era um exercício prazeroso e quase sempre cheio de obstáculos. Amante das bandas de rock underground da urbanidade paulistana e carioca, interessava-me saber o que meus artistas diletos aprontavam em seus ensaios e suas garagens. Meses ou até anos mais tarde de adquirir as cobiçadas fitas de divulgação de suas canções e estilos musicais, chegavam-me às mãos seus LPs, seus discos de estréia, seus “bolachões”, como se dizia excitadamente à época. A evidência se repetia com insistente normalidade: a distância que caracterizava os universos das demos e dos discos de estúdio, cheios de efeitos e badaladas produções, era imensa, uma ponte até o fim do mundo. Eu mesmo, guitarrista de uma banda de heavy metal na adolescência, já imaginei milhões de vezes como teria sido nosso disco em relação às tantas fitinhas que gravamos... O disco nunca aconteceu, mas as fitas sobram no armário de minha memória, de minha saudade. O poema “A Vingança de Cronos”, publicado aqui no “Espaço” no mês passado, antes de ser o que é, também teve sua versão demo, que se perdeu e agora foi encontrada em uma de minhas eternas faxinas no escritório. No instante em que li a versão demo do poema, percebi que aquele antigo mundo das fitinhas de rock pesado tinha mesmo seu charme, sua particularidade inesgotável: assim como entre cassetes caseiros ou de modesta produção e LPs pouca coisa coincidia, os dois poemas são água e vinho, quase nada a ver um com o outro, a não ser a intenção ética e a norma estética, as quais perfazem os princípios deste que ora escreve, valente, sempre underground. Espero que as duas versões da vingança do deus-tempo agradem aos frequentadores do blog. Na minha época de caçador de demo-tapes, não era rara a predileção pelas composições de garagem em substituição aos discos: os ensaios de garagem tinham mais alma, mais sangue, mais sonhos de virtude. É isso.

Críticas sobre a crise,
a grande crise da crítica.
Tudo tão tornado natural, formal.
Espontaneamente, decidimos pelo consolo,
a culpa sem remorso
nem esperança.

Mesmices na tela,
batidas insistentes.
A beleza dos sons virou sinfonia única,
sem vida,
sem magia.

Almas frágeis, vazias,
crentes no amor fácil, extremamente fácil,
no óbvio como conduta.

Desposada dos elementos subjetivos da vida,
a história perdeu-se de vista,
sem chances para um breve aceno
Memórias curtas: um ano ou dois, mais tardar.

Mortais que perderam o sentido da vida,
atormentados pelo tempo
de uma divindade destronada,
vencida e humilhada pelo próprio filho.
Cronos vive hoje no ciberespaço da interação virtual

A geração da arrogância ganha ruas e mundos,
entende-se imortal, eterna, nos estilhaços de um tempo
que não as poupará: downloads vazios, arquivos corrompidos.
O amanhã será tão-somente o triste não-ser de anteontem.
Roda moinho, roda gigante.
Saudades da utopia de Zeus.