16 julho 2009

Londrina descolada

O guitarrista londrinense Kiko Jozzolino (Fotografia: Renata Frigeri)

Texto publicado na REVISTA ESTAÇÃO n. 09 - Inverno de 2009

Londrina, no turbilhão das cores que compõem todas as suas noites, respira música e trafega por sonoridades bluseiras. Das cordas de Kiko Jozzolino é possível vislumbrar o melhor de nossa travessia pelos acordes mississipianos

Atravessando os territórios estadunidenses de Iowa, Illinois, Missouri, Lousiana, Alabama e Memphis, algumas das mais férteis terras musicais à beira do famoso Rio Mississipi, constata-se que Londrina, no norte vermelho da brasileira província paranaense, é de fato uma cidade invisível. Geograficamente, a terra de Arrigo Barnabé e das desventuras piratas de Itamar Assunção está anos-luz das águas bluseiras do rio negro da América do Norte. Urbana e culturalmente, no entanto, as proximidades se aconchegam. Quando o assunto são os feixes criativos das cordas guitarreiras de Chicago ou as violadas carregadas do pranto bluesy das estradas de Cleveland e Kansas City, Londrina é pura atmosfera blues, intensa força de acordes e solos de espraiada emoção, viscoso sangue.

No rico e plural repertório do Acústico Blues Trio ou das jornadas e jams capitaneadas pelas seis listras de Kiko Jozzolino, ícone e emblema da música bluseira em Londrina, tem-se um pouco do melhor da raiz musical negra americana, da insolência dos brancos ingleses amantes de Winter e Clapton, da qualidade artística dos ritmos que se esparramam pela jovem menina londrinense. As luzes da cidade, as esquinas, os copos de uísque e as baladas levadas por riffs e contornos de lucidez embriagada, na tocada sedutora das trilhas dos melhores amores, tudo isso propõe que Londrina tenha se descolado de seu itinerário à beira rio: por que não estamos todos nós a percorrer a margem esquerda do Mississipi, antecipando nossos sonhos numa meia-noite regada a Guy, Collins, Johnson, Cray e, é claro, Jozzolino, em Memphis ou Nova Orleans?

A elegância da urbanidade londrinense, reunida em torno de gente de todas as cores e de variados desejos (múltiplas tribos, como diriam os intelectuais pós-modernos ou os apresentadores de programas televisivos), é espaço propício para a cultura do blues. A bela cidade de tantos livros e poemas, cravejada de versos de espírito inquieto e sempre alternativo, já chegou a ser Estação Blues, graças a polifonia musical de suas rádios, de seus concertos matinais, vespertinos ou noturnos. Festival de cenas e letras, sons e interpretações, Londrina é bluseira também na forma, no alcance de sua arquitetura, traiçoeiramente moderna e tradicional: da madeira pioneira ao concreto de luxo das glebas e à miséria da periferia sem fronteiras. Em Londrina, como na musicalidade blues, expressam-se dor e alegria, amor e melancolia, o amanhã e o nunca mais.

Ladeada e enriquecida pela guitarra e pelos arranjos generosos de Kiko, a força bluseira da cidade também produz seus amálgamas, supostos e inesperados: ganham pinceladas mississipianas as composições de Roberto Carlos, Doors, Beatles; ultrapassam suas versões já tão blues as clássicas sempre necessárias de Joplin, Clapton, Didley, Charles... Em Londrina, uma cidade de luzes e escuridões, promessas e desavisos, o blues também é ontem e hoje, pop e tradição, futuro e reinvenção do passado. Numa palavra: na síntese de sua beleza ímpar, Londrina é blues na sua própria História, assim mesmo, com “H” mais-que-maiúsculo.