20 julho 2009

O marxismo de mestre Weber ou o fantasma weberiano no (in)consciente de Marx

Sociólogo brasileiro Michael Löwy, em clique durante evento do coletivo catalão on-line Revolta Global. Para Löwy, autor, entre outros, de "Aviso de incêndio", em que compila e disseca com arguta crítica e refinada análise temática as teses benjaminianas sobre a História, há muitas relações entre as teorias de Weber e Marx, clássicos do pensamento sociológico. Tidos como incongruentes por muitos autores de ontem, de hoje e, provavelmente, de amanhã, Marx e Weber se encontram em inúmeros momentos de suas categorias e de seus sempre atuais conceitos. É possível verificar em "racionalidade instrumental", de Weber, e "ideologia" e "alienação", de Marx, algumas dezenas de bifurcações analíticas, mutuamente validadas e generosas. Desde "História e consciência de classe" (1923), do filósofo húngaro Georg Lukács, passando por diversos membros da imprescindível Escola de Frankfurt - como Adorno, Horkheimer e Marcuse, por exemplo -, até chegar a sociólogos contemporâneos, como o engajado francês Pierre Bourdieu, Marx e Weber perfilam caminhos possíveis, de trabalhos convergentes e enriquecedores para ambas as perspectivas de análise pertencentes ao escopo da "ciência da sociedade". Parece que só não vê quem não quer...
Pobres burocratas! Imagino que devam sentir enorme vazio em relação às suas próprias aspirações. É provável que, por serem hostis ao sonho humano, locupletem-se em barrar o desejo alheio de virtude. Papéis, assinaturas, protocolos, mil vias... Exigem o mundo de todos; conquistam miudezas, mesquinharias para si mesmos.

Sociólogo Michel Löwy, brasileiro radicado em Paris, escriba e pesquisador de mão cheia e cabeça bem-feita, foi genial ao apontar as intersecções entre a obra e a reflexão de dois clássicos sociológicos, mestres Weber e Marx. A burocracia, impedimento da democracia e da razão verdadeiramente livre – não obstante requerida pela complexidade das modernas sociedades industriais do Ocidente – reuniria-se periodicamente, segundo livre poema de minhas interpretações, com a falsa consciência projetada na dominação ideológica. De um modo ou de outro, a ação livre e humana se vê impedida, barrada, limitada por forças quase invisíveis, originadas como chuva, sempre de cima para baixo. Nesse sentido, o burocrata é o explorado dominado, o burro de carga do capitalismo, que se sente melhor quando se percebe, no vazio de suas impossibilidades, capaz de se sobrepor mesmo ao mínimo de liberdade e criação expressas noutras faces, emblemas de novos sonhos. O burocrata, numa palavra, é o bode expiatório da ideologia burguesa, hegemonizada pelos formulários, pelos legalismos, pela indefectível escola de urubus-rei disseminada em nosso mundo.

Os burocratas são também jogadores menores, hábeis porém insustentáveis atletas da mesmice, da reprodução cega da ordem social. Preferem vencer hoje, comemorar agora sua incompletude incontestável a olho nu, a projetar-se na estrada para o futuro, na composição articulada em torno de valores mais abrangentes, como a compostura ética, a solidariedade, a moral que partilha, enaltece, comunga. Sob discurso pretensiosamente voltado para a promessa de mudança, agilidade, confiabilidade, embebedam-se do próprio veneno, tornando suas vidas coisas breves, amesquinhadas. Como diria Weber, aprisionadas, as tristes vidas dos burocratas, em ¨gaiolas de ferro¨. O correspondente conceitual na senda marxiana seria – outra vez num exercício audacioso de desmedida interpretação pessoal – a força da ideia de alienação. Diz como fazer, como não fazer, impõe regras, estipula limites. Na hora de ser como quer que a vida se lhe apresente pela ação do outro, o burocrata simplesmente ignora sua opacidade, sua fragilidade como ser da não-ação, grosseira inanição: ele não pertence a si mesmo; é apenas instrumento de manipulação, ferramenta a serviço da exploração e da reprodução permanente da luta de classes – na qual, frise-se, ele provavelmente nem acredita...

Há mais, duros percalços, pedregosas agruras: no cruzamento das reflexões dos dois gênios da menina Sociologia, o velho (às vezes enraivecidamente muito, muito jovem) burocrata atropela suas veleidades e anuncia estrondosos ¨nãos¨. A razão – depreciação imoral relativa à palavra ¨sacanagem¨ - é sempre a mesma: perseguição, vingança, pura e doída manifestação de seu falso poder (o qual o capital lhe promete sob auspiciosas e ilusórias remunerações). O burocrata, desumanamente, se realiza na frustração do outro, na consagração de uma suposta derrota para um pressuposto oponente. Sem amor nem práticas cotidianas que lhe permitam da simplicidade harpa para a boa vida, ecos da onda do belo mar, o burocrata fetichiza sua versão de si mesmo, transformando-se em alguém temível, terrível, assustador. Na verdade, para falar com Marx, mercantiliza-se, traslada para a condição de peça à venda, a serviço do capital, de um palavrório falacioso de poder, conquistas, futuro promissor. É conveniente para a sagacidade do capital que deseja sangue de homens decepcionados com a vida, descrentes na mudança, na força viva da organização coletiva, do turbilhão revolucionário. Mentes caídas, ordem perpetuada, eis a fórmula da produção ideológica da burocracia e do acovardamento das multidões...

O solipsismo responsável pelo amedrontamento do vigor revolucionário – necessariamente coletivo e politicamente sustentado pela teoria e pela eficiência da ação livre – encontraria em Weber (novamente minha inquieta e petulante aproximação das diferenças – culpa do Löwy e, antes, do Lukács e do Goldmann) porta aberta para o conceito de ética da responsabilidade, isto é, para a clara acepção de que, para fazer, é preciso, mais do que tudo, antecipar discurso, anunciar intenções, assenhorar-se soberanamente das adversidades e animosidades. Ser ético, portanto, é reconhecer-se no outro, verdadeiro antídoto contra a individualização profana que arrasta a humanidade para a estúpida crença no salve-se quem puder. Numa palavra: para Weber, contra a mercantilização da vida e da experiência humana, só a emancipação da vida pela ética, pelo compromisso com o desenvolvimento de todo o corpo social. É possível aproximar a ideia de luta contra o fetichismo da vida e da sociedade – caríssimo a Marx e que leva de fato os sujeitos humanos às mais bárbaras aberrações contra si mesmos - à proposição weberiana de ação social: para superar o que nos coisifica somente a ação responsável, coletiva e duradoura, de sentidos todos voltados para o amanhã, casa-coração da esperança revolucionária. Essa coisa na qual os burocratas definitivamente não creem, sequer conhecem, dela desconfiam arrefecidamente...