27 julho 2009

Urbanóide

A modelo e jornalista santista Juliana Góes, nua entre as luzes noturnas de São Paulo. O ensaio, publicado em revista comercial, em maio de 2008, revela a fantasia sempre oculta que peregrina pelas noites das grandes cidades: estigma urbanóide do prazer e da perdição (Fotografia: Valério Trabanco)
Aos primeiros dezoito anos de minha vida esplendorosamente historicizada na megalópole paulistana. Aos próximos tantos e tantos anos de minha história a poder/sonhar viver sob os braços do homem-do-céu, que trouxe a boa nova de minha renovada razão utópica, de minha revitalizada imaginação sociológica.

Na cidade
pelos entremeios
cantando, à espera de novas melodias
esquinas replicam histórias.

Biografias de luz, pedra, intenso movimento
faróis, sonoridades aos milhares
tribos, retribalização do mundo.
O cheiro de sedução ronda a noite
toma cenários, impulsiona personagens
assusta cada segundo da velha madrugada.

Desaviso programado
blues e rock and roll
bebidas a congelar hábitos perigosos
mantendo cego o voo incerto da guitarra em distorção
brilhos morenos
tentação de todas as cores
curvas dinâmicas.

Arranha-céus simbolizam a busca do infinito
promovem a ideia de ascensão e paz
dentro deles
entre mil paredes
eletrônicos e disciplinadores olhares
a fúria intensa
a explosão de um coração-menino
corpo que deseja vida
sonha poder ser humano
transcender imperfeito, inacabado.
A luz do dia anuncia um já cansado amanhã
perdem-se remorsos dos feitos noctívagos
a porta do mundo se abre
escancaradamente
para o abismo
protegido da loucura
impõe-se enfim a civilização do não-prazer.

Londrina, noite adentro, inverno e tempestade, 20.07.2009