04 agosto 2009

Divagações V - da irredutibilidade ao pragmatismo

Andei relendo o belo "Os irredutíveis", de Daniel Bensaïd. Política deve ser insubmissa à economia. Educação deve ser autônoma e forte em face das decisões burocráticas. Ideias e valores não podem sucumbir ao pragmatismo tácito de nossos tempos. Desejos humanos devem permanecer sempre irredutíveis à mercantilização das formas e dos conteúdos. Resumindo a grande ópera de Bensaïd: a irredutibilidade do que é humano preserva a História diante das tentativas vis do dinheiro e da politicagem amesquinhada de fazer das coisas intangíveis e belas, para quaisquer fins, vazios fugazes e condicionados ao bem-estar econômico de meia-dúzia de indivíduos (des)afortunados. De todos os teoremas de Bensaïd expostos em seu imprescindível livro, entretanto, o quinto é o mais pertinente e abrangente: à pós-modernidade e à mercantilização do mundo devemos opor a rica experiência denegada e mal-interpretada do comunismo, como maneira irredutível de trazer à baila a emancipação verdadeira do ser humano. Bensaïd acaba por dúvidar dos fragmentos da modernidade líquida - para falar com Bauman - e apostar, de modo insistente, na articulação entre política, liberdade e classe social, respeitando mas condicionando a deveres específicos e limitados os temas de gênero e multiculturalismo. O autor de "Os irredutíveis" ainda crê na universalização da política e na grandiosidade dos projetos utópicos. Como eu, um eterno irredutível.