28 agosto 2009

"Garotas Rodrigueanas" (homenagem ao tricolor mais conservador de minha vida)

"Recônditos prazeres", fotografia do português Aoluar

Havia duas pessoas na estranha sala de espera. A mais jovem, menina de 15 , 16 anos, procurava o próprio olhar, perdido pelas paredes da clínica, a contar frisos entre os azulejos. A outra pessoa, também garota, mais velha um pouco, madura e bela, aparentava 25, 26 anos. Corpo escultural, olhos perfurantes, insistia em fazer evidentes belo decote, sugestivos e doces seios. Em nenhum momento trocaram sinais ou palavras.

As garotas já haviam folheado revistas, ido até a porta de entrada umas centenas de vezes. A tensão lhes tomava os ânimos. Diferentes no corpo, na idade e marcadamente nas histórias de vida, aguardavam a urgente visita a um médico de senhoras - nome viciadamente conservador ofertado a ginecologistas num passado não muito distante, moralista aos tubos, falso às alturas.

Quando a menina mais jovem ouviu seu nome, lançado ao ar pela secretária de pouco humor daquela pequena e burguesa clínica médica no chique entroncamento de ruas centrais de Londrina, suas sobrancelhas ganharam voo, mantiveram-se estanques e não puderam esconder o misto de alívio (a hora havia chegado) e medo. A provável pergunta em sua mente: o que terei de ouvir depois de tudo que me ocorreu?

Conjecturas. Era tudo que se podia produzir num momento como aquele.
De repente, percebeu-se que a garota mais velha se levantou e conduziu-se com a outra até o consultório. Estavam juntas, despercebidas uma da outra, é verdade, mas, agora, indubitavelmente juntas.

Momentos depois soube-se que eram namoradas, em crise após o relacionamento ter sido atingido pelo retorno inoportuno de um coleguinha de escola da garota mais jovem. Beijos de lá, beijos de cá, acabaram dando sorte à experiência que as duas, em comunhão de paixão, haviam despertado unidas, morando juntas, brigadas com meio mundo. Transaram, os colegiais, de modo imprudente, sem o uso de preservativos.

Ainda que se sentindo traída, a morena de vinte e poucos anos acompanhou a pequena paixão ao ginecologista. Queria ter certeza de que a amada, tão jovem e desavisada das coisas do mundo, estava bem. Aproveitaram a oportunidade para reatar a união, perdoaram-se mutuamente, pela traição de uma, pela cólera da outra.
O amor tem suas curvas e linhas de chegada. Dura é a espera.