12 setembro 2009

A Utopia como calor humanizador

Thomas Morus e o fac-símile da primeira edição de sua Utopia, ilha de paz e prosperidade romanceada e trazida à luz da memória política da humanidade em 1516

Amanhã, 13.09, farei minha terceira participação na Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina. Na primeira oportunidade, em 2006, como palestrante do mês, esbocei algumas considerações sobre o mundo pós-moderno. Em 2007, a substituir Dr. Leonardo Prota em suas reflexões filosóficas, falei sobre o amor. Agora é a vez de propagar minha crença na utopia, homenageando Morus, Rousseau e os contestadores libertários do século XVIII. Soube, no entanto, que serei convidado a compor o quadro de colaboradores culturais permanentes da Academia de minha cidade: estarei, com isso, a um passo da imortalidade. Viva a UTOPIA de quem fez da escrita um ofício de vida, para a vida.
Quando o continente americano foi redescoberto por Colombo, o inglês Thomas Morus tinha apenas 14 anos. A imagem de um paraíso perdido além-mar, ainda isento das barbáries estimuladas pela coroa inglesa e por um mercantilismo cada vez mais acirrado no Velho Mundo, influenciou de modo decisivo a vida e a obra do autor de Utopia. A expressão-título da obra-prima de Morus surge, então, pela primeira vez, em 1516, revelando ao mundo uma ilha em que tudo, a olhar da perspectiva de uma Europa do início do século XVI, era correto e humano, justo e fraterno. Dividida em duas densas partes, a narrativa utópica de Morus questiona a brutalidade da Grã-Bretanha contra todos que se lançam à frente de seus desejos de expansão e crescimento (os quais provocam agudas desigualdades sociais e inconcebíveis formas de exploração do trabalho sob proteção da propriedade privada) e, em seguida, designa o não-lugar, o imaginário, a fantasia que ilumina e permite: descrevem-se os detalhes da organização social da ilha Utopia.
Não obstante os limites de um sonho expresso literariamente na metade do milênio passado, em Utopia consagram-se a paz, a ordem e o respeito à diversidade, com igual tratamento de gênero, tolerância religiosa e divisão razoavelmente equilibrada das atividades sociais. Nascida da capacidade de sonhar de um sujeito que se antecipava ao advento histórico do Renascimento, a Utopia demonstra a inesgotável generosidade da espécie humana em relação ao despertar da compaixão e da verdadeira solidariedade.
O grande alcance social, político e cultural de Utopia, no entanto, se fez mais tarde, quando a influência do pensamento de Sir Thomas Morus (canonizado pela Igreja católica em 1935) contagiou renascentistas, iluministas e socialistas libertários, perfazendo uma tradição intelectual e militante que vem atravessando os séculos e rompendo fronteiras em todo o mundo.
O genebrino Jean-Jacques Rousseau, que viveu 66 anos e morreu 11 anos antes da Queda da Bastilha, na Paris de 1789, é um dos personagens de nosso tempo que melhor traduzem o impacto da Utopia na confecção das sociedades modernas. Contrário a Hobbes, que via entre os homens o imperativo do mal absoluto a espreitar cada vida, cada alma naturalmente podre e perturbada, e a Locke, que só conseguia entender a liberdade como um instrumento a serviço da propriedade privada burguesa, elevada pelo autor do Segundo Tratado Sobre o Governo à condição de direito natural, Rousseau entende por livre o homem capaz de repartir com todos o ideal e a aventura de construção da igualdade. Em seu Contrato Social, Rousseau não quer fugir ao estado de natureza hobbesiano nem delimitar os procedimentos para a manutenção da liberdade individual e do acúmulo de bens – prerrogativas caras ao pensamento liberal de inspiração lockeana. Sua única motivação é desvelar que a liberdade só se constrói coletivamente, num permanente exercício de fazer valer a vontade geral, a aspiração dos cidadãos. Depois de passar pelas mãos do rei e pelo indivíduo proprietário de bens, terras e muito capital, a soberania, enfim, chegava ao seu elixir mais avançado: o soberano, em Rousseau, é o povo. A Utopia, de Morus, ganha, com o pensamento político rousseauniano, ares de modernidade democrática.
Tragada pela ascensão dos ideais burgueses e pela materialização das sociedades de livre mercado, cujo eixo é a tão propagandeada propriedade particular dos meios de produção, a obra de Rousseau – e, em retrospectiva, as utopias pré-modernas, como a de Morus – perderia espaço na batalha das idéias e voltaria, na forma de radicalização das práticas e concepções de mundo, algumas décadas à frente, iluminada pelos acontecimentos mais marcantes da revolução francesa.
A trajetória do movimento iluminista nos séculos XVIII e XIX, motor e alicerce da dupla revolução política da Era Moderna – a francesa, de 1789, e a estadunidense, de 1776 -, oscilou entre a perspectiva liberal de adotar posturas cada vez mais conservadoras na luta política e a radicalidade democrática dos revolucionários de propagar aos quatro cantos a urgência de medidas cada vez mais ousadas e perturbadoras, inquietantes como política; acaloradas, como cultura.
Enquanto a intelectualidade burguesa buscava cerrar fileiras ao lado do liberalismo-conservador (como o próprio Locke, Burke, Voltaire), buscando de todas as formas declarar o fim do movimento revolucionário que permitiu o alçar voo das sanhas de poder de industriais e comerciantes, jovens contestadores reivindicavam melhores condições de vida aos trabalhadores, participação política efetiva da maioria operária e camponesa, expansão sem limites do acesso à riqueza socialmente produzida. Entre esses revolucionários corriam de modo eloquente e voraz os valores utópicos traçados por Morus, Rousseau e tantos outros precursores do ideal libertário.
Ainda que existam diferenças quase infinitas entre suas maneiras de conceber o “mundo perfeito” (penso, por exemplo, na excentricidade das proposições de Charles Fourier ou Saint-Simon e na concretude material de um Robespierre ou de um Graco Babeuf), os utópicos e libertários do século XVIII se unificavam no ideal de prolongar a revolução como ato político permanente e projeto cultural das classes sociais subalternas. Anarquistas e socialistas utópicos (definições que só farão sentido na vida política dos séculos XIX e XX) dividiam a utopia moderna: liberdade de fato, igualdade entre todos, fraternidade para valer.
Com a intensificação tecnológica e ideológica dos instrumentos de exploração do homem pelo homem; com a derrocada ambiental e a catarse ecológica do século XXI; com a corrosão do caráter num mundo em que trabalho é castigo e consumo, redenção e felicidade; com a frustrada experiência do socialismo do Leste no curso do século XX; com o individualismo ególatra e indiferente de nosso tempo tão virtual e pouco afetivo, abalado por doenças e sucessivas modalidades de mal-estar, sufocamento das liberdades humanas... imagino que seja por demais pertinente relembrar a fortuna crítica daqueles que não se restringiram a viver a vida de modo isolado e distante. A Utopia de nosso tempo – que pode aprender com Morus, Rousseau, Fourier, Marx, Gramsci e tantos outros batalhadores da liberdade – deve somar esforços na edificação de um ideal abrangente e avançado, capaz de reunir as identidades perdidas e redefinir prioridades à vida humana no planeta. Creio que em vez do ter, muito mais ser; em vez do “eu sou”, “nós podemos e, por isso, somos”. Pequenas mudanças de atitude trariam como valor cultural das novas gerações o imaginário utópico tão bem sintetizados nas palavras do filósofo Leandro Konder: “A utopia é uma fonte que alimenta inquietações generosas, nobres ímpetos justiceiros e uma preciosa disposição para a busca da felicidade universal. Nela se revelam aos seres humanos aspectos novos de suas carências, anseios, fantasias e desejos”. É isso.