29 outubro 2009

Minha resistência

Fotograma de "Fahrenheit 451" (1966), de François Truffaut, que esboça um mundo em que os livros, sendo ilegais, seriam recolhidos e incinerados. Quem, hoje, com um livro em mãos, seria considerado uma "ameaça à ordem"? Quem hoje se importaria se os livros desaparecessem?

A leitura faz parte da vida de todo o mundo. Os livros não. As novas gerações leem céus e infernos, mundos e fundos; veem TV, conectam-se por horas a servidores ou outras vidas virtuais, quase inanimadas. Impedidas por todo esse excesso de pouco criativas fantasias, não transformam mais palavras em ideias, frases em juízos, parágrafos em argumentos, páginas em descobertas, livros em razão para existir, transcender, voltar a Terra mais vigorosos, sabedores de um amanhã diferente, melhor.

Ler, hoje, é colorir telas e transbordar a alma em encruzilhadas, desalmando-a na incerteza certa. O vazio preenche o indizível. As narrativas estão mesmo todas mortas - e enterradas! Noves fora todos os ismos, até aqueles irretorquíveis e ingênuos. Adeus às inocências, sempre tão necessitadas da palavra, do lirismo das letras, da paixão que imagina, ousa, refaz o mundo sílaba após sílaba.

Cronistas não prestam mais homenagens ao futuro. O próprio futuro, órfão do presente, perdeu-se na imemorialidade do passado, ancestral esquecido, mutilado pelos vitrais da pós-modernidade.

Eu escrevo porque sou pura resistência.

23 outubro 2009

À revelia

A doce crítica de Mafalda, do grande Quino, ao modo como os reacionários veem a liberdade...

aos educadores que simpatizam com o amanhã,
apesar do vazio desesperançoso do presente

Pensar para mudar
mudar para algo ser
algo ver
poder fazer
origem: theoro

Sentido é impermanência
figura do alterar
para manter
humanizando
revolução: destino

Tristes tópicos trópicos
mentes conservadoras
quase reacionárias
se soubessem o que defendem
desejam reacender
sentença: consciência-fora-de-si

A velha palavra não provoca
é frágil diante das certezas tão incertas
do amanhã improvável
- isso é certo!
da leitura desfeita, rarefeita, relegada
- isso é ainda mais certo!

No jeito sem trejeito
a ternura perde para o inaudito
deseducado, deselegante
facilidades: paralisia

Consumadas pelo consumo
almas buscam o que há
não havendo
iludindo o presente já sem depois
não houve daqui a pouco também: sina

Cabeças impermeáveis
histórias travadas
a bancarrota da dignidade
banal, frugal, nada venal
efeito radical: neomesmices

Vidas habitam despovoados
imberbes, imaturas
deslocadas, descoladas, amarguradas

Haverá o novo?
Certamente: à revelia

17 outubro 2009

Dançando com um anjo

Disseram-me dia desses que a inserção de vídeos aqui no "Espaço" seria uma pequena questão de tempo. Andei relutando por privilegiar a palavra escrita como arma essencial da crítica e da sensibilidade, mesmo quando o assunto eram filmes e álbuns musicais. E isso, creio, não mudará tão cedo em minha vida... Fã incondicional do velho Udo e do Accept (legendária banda de rock pesado dos anos 80'), entretanto, não resisti e resolvi postar essa esmeralda de arte, voz e talento. Doro, alemã que publicou páginas densas em minha biografia amorosa na década dos oitenta, início dos noventa, e Udo, a voz, dão show nessa balada que estremece até muralhas. É ouvir e se emocionar. Sempre. Afinal, quem nunca sonhou em dançar com um anjo?!

07 outubro 2009

Tempo para o tempo - reconstruir

"Na ânsia de controlar o pensamento, o homem separou uns dos outros os diferentes aspectos da realidade, isolou os objetos ou fenômenos de seu ambiente; tornou-se incapaz de integrar um conhecimento em seu contexto e no sistema global que lhe dá sentido. O homem acreditou que o progresso e o desenvolvimento eram as soluções para tudo, e esta simplificação teve um alto custo para o planeta. Todo conhecimento da realidade não animado e controlado pelo paradigma de complexidade destina-se a ser mutilado e, nesse sentido, a carecer de realismo."

EDGAR MORIN