24 dezembro 2010

Novo tempo

"Feliz Ano Novo", fotografia de Maria Clara Eusebio

Descobrir na curva sinuosa, penosa, um atalho tranquilo para a esperança. 

Identificar nos acordes simples, nas melodias fáceis, o som perfeito para um encontro memorável.

Retirar da timidez das poucas palavras as letras ideais para compor o tempo sonhado.

Nutrir de paz a ventania cotidiana de toda manhã.

Buscar descanso sob copas frondosas e formosas, tão pouco vistas pelos indiferentes olhares sem poesia. Aliás, poetizar luzes e sombras, abraçar jovens e vividos, amar a todos, explosivamente.

Contar números de toda a sorte, mas sempre oferecer destaque aos pequenos, aparentemente insignificantes. Não é recente a certeza de que nas pequenas somas residem as pistas para as fortunas incalculáveis, do espírito e da vida.

Sentir o mar até onde ele não existe, degustá-lo com a palma dos pés, sorvê-lo com o maroto sorriso dos incansáveis.

Não cessar de repetir para si mesmo que a vida é um permanente porvir: será o que queremos que ela seja, desde que lutemos, brademos, façamos insurgir nossos desejos revolucionários.

Revolucionar tudo e todos. De lugar. De cor. De fonte e representação. De estados de espírito. Chorar alegrias, alegrar as indecifráveis tristezas humanas.

Humanizar, percorrer, acreditar, fazer o que é certo. 

FELIZ NATAL. GIGANTE 2011!

18 dezembro 2010

Pós-modernidade: os intelectuais e o espírito de nosso tempo

Sasha Grey, atriz pornô estadunidense, que protagonizou "Girlfriend Experience", do cultuado diretor Steven Soderbergh, em 2009, e já desponta como musa pop e pós-moderna por seu declarado amor ao rock, à filosofia, à boa arte e à grande cultura. A bela Sasha sintetiza bem o atual tempo de ecletismos, fragmentos, diversidade e paradoxos: seduz, inquieta e causa todo tipo de polêmica, despertando paixões absolutas e confusas, labirínticas.

Expus, em 21 de outubro, durante o III Encontro Científico de Psicologia da Faculdade Pitágoras (Londrina/PR), cujo eixo temático era "A Psicologia e as Demandas Atuais", uma palestra com o título "Pós-modernidade: mídias, violência e sexualidade". Entendo que esse seja um tema de abrangência infinita, capaz de abraçar a Deus e toda a sua época. É bem provável que por essa razão eu tenha me detido de modo mínimo às particularidades do subtítulo e buscado alargar minha fala em torno da própria ideia de pós-modernidade - ou de cultura pós moderna, posto que partilho da certeza de que não existe um tempo novo após a ainda inconclusa e desafiadora modernidade.... Hoje, editando meu texto para publicar aqui no "Espaço", pensei, pensei, e achei melhor mudar o subtítulo. Acredito que esteja mais sintonizado com o conteúdo - e não apenas a aparência - de minhas ideias sobre o tema.

No curso dos últimos trinta anos, a partir do conjunto de reformas liberalizantes e desregulamentadoras postas em acelerado movimento global por Thatcher e Reagan, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos da América, respectivamente, a construção social da realidade vem se fragmentando, dispersando e enfraquecendo sujeitos, concentrando poder e riqueza material nas mãos das grandes corporações transnacionais. Para que essa nova configuração da ordem mundial reunisse forças e acumulasse as energias que a tornam hegemônica nos dias atuais, espraiando-se por todas as nações e unificando compulsoriamente a nova territorialidade planetária, novas ideologias e inéditas (ao menos no tom e na intensidade) práticas tiveram de vir à luz. Vamos lá ver.

Em um plano bem geral, destaca-se na chamada pós-modernidade – um tempo histórico impreciso e escorregadio, mas, sem dúvida, palco de um momento novo da cultura e do comportamento humano – a primazia da estética sobre a ética. Aparências, mais do que nunca, contam e devem enganar, iludir, persuadir a esquecer conteúdos, denegá-los, desvalorizá-los. Reféns de uma realidade publicitária, imagética e hipertextual, os indivíduos mergulhados na liquidez contemporânea perambulam entre cores, sons, formas e seduções múltiplas que se metamorfoseiam a toda hora, impedindo solidez, durabilidade, lastro para nós firmes de sociabilidade e relacionamentos humanos. Nesse sentido, é importante destacar que o culto pós-moderno às mercadorias e aos novos fetiches da tecnologia e da comunicação acaba por revalidar o isolamento da estética atual: nos labirintos dinâmicos e irracionais de uma consagração individualista, consumista e egocêntrica da realidade, a posse – o TER – sobrepuja o SER, redesenhando as formas do viver junto. Como tão bem intuiu Eric Fromm, ter é algo que transcende o ser, posto que revela as urgências de um tempo voltado exclusivamente para o solipsismo das almas em busca inefável por prazer e delírio.

De modo paradoxal, esse mesmo topos do consumo e do discurso que incita ao refúgio, ao isolamento do espírito, ao salve-se-quem-puder, exige grandes multidões em trânsito, vias férreas, aéreas, rodoviárias, e também em corredores de centros de lojas e espaços de entretenimento fácil, descompromissado e quase sempre bestializante. Trabalhar muito para consumir e evitar a aproximação de coletividades críticas e contestadoras; ver pela TV e pela rede mundial de computadores imagens e banners dos objetos que fecundam a felicidade individual e o status ilusório de socialização forçada e oportunista; aceitar passivamente a naturalização do mundo, dos negócios humanos, rendendo-se diante da inexorabilidade do mercado e do capital, agora deus único de duas cabeças... Tudo isso endossa o desperdício de todas as energias disponíveis na extensão da vida no planeta. 

Os passos que destroem o planeta, por esgotá-lo em seus recursos naturais e agravar a questão do nó de sua própria sustentabilidade, desperdiçam também as vidas humanas: trabalho, educação, lazer e conhecimento precários para um futuro em que a certeza, se houver, será a de que nada ficou, nada deverá perdurar. Trata-se, portanto, da morte da imortalidade, a qual havia se tornado possível aos humanos por meio de suas obras, lições e exemplos coletivos, altruístas, em favor de todos. O crime revolucionário de Prometeu, à porta da pós-modernidade, tornou-se ato praticado em vão, leviano até.

Outra absurda contradição se evidencia no congraçamento do avesso pós-moderno, qual seja: aquela que revigora novas e variadas formas de exclusão. Na já antiga sociedade industrial – regulada pelo fordismo do pleno emprego e dos rigorosos acordos entre Estado, capital e sindicatos – as políticas públicas alcançavam muitos, quase todos, a depender do país e do estágio de desenvolvimento da agora considerada anacrônica e descontextualizada ideia de luta de classes. Na tradição clássica, onde havia forte organização operária, impactante pressão de diversos setores da sociedade civil, a sociedade política tornava-se agente de mudanças e transformações que desembocavam na satisfação de necessidades humanas básicas, elementares e até avançadas (em sentido lato!), como subsídios para a produção e recursos para educação, pesquisa, arte e cultura. Vale destacar que essa soma entre sociedade civil consistente e em permanente movimento e uma sociedade política atuante e caudatária dos movimentos nascidos e desenvolvidos na organização social resulta naquilo a que Gramsci chamou “Estado Ampliado”. E é desse conceito, em suas múltiplas determinações, que se trata a crise atual e a força emergente do pós-moderno: no lugar das velhas utopias e lutas políticas, convergentes e insurgentes, reina hoje a distopia singular da divergência e da resignação. Em meio a tanta cautela e toalhas úmidas diante do calor da realidade, as diferenças e resistências são criminalizadas, expurgadas, perseguidas, predatoriamente consumidas pela indiferença e pela brutal espoliação. Noutros termos, travestis, homossexuais, negros, mulheres, ativistas políticos etc. sofrem os apenamentos de um discurso que na prática detém e aprisiona aqueles que discordam, contestam, enfrentam, resistem. Apropriadamente, toda essa insensatez tem sido chamada de era do pensamento único. Absortos e fragilizados, no contrapé de todas essas novas configurações do direito penal e do estado policial – que pune e responsabiliza os pobres por sua pobreza e persegue os excluídos que não compõem a sociedade de consumidores – milhões optam por recrudescer fundamentalismos e práticas violentas. Coletivizam-se na negação do humano, rivalizando, sem saber, com o mundo que querem negar, desconstruir. Outro sinal das contradições líquido-modernas.

Para muito além de temas sociopolíticos e culturais tão autoevidentes, o pós-moderno faz caminhar pelas sombras ameaças bem menos visíveis e aparentemente muito menos dramáticas. A derrocada ambiental é uma dessas questões despercebidas.

O recente apelo a discussões em torno das mudanças climáticas e do aquecimento global, que trazem à galope o derretimento das calotas polares, o elevamento do nível das águas oceânicas etc., acaba por hegemonizar um debate de abrangência e conseqüências muito maiores. A crise nos modelos urbanos nascidos com o código moderno e proletário de ocupação do espaço faz transbordarem problemas como os do destino do lixo e as novas doenças e epidemias provocadas por um convívio cada vez menos planejado e sempre mais improvisado, insalubre. No mesmo ponto de inflexão, surge a temática das múltiplas formas de poluição – auditiva, visual, do ar, das águas – e de contaminação dos alimentos. Em direção ao campo, o agronegócio – que torna a vida campesina a atual vitrine do velho fordismo de serialização e desperdício de tempo e energia de vida – prolonga desertos verdes e se alia, como um irmão menor e aprendiz, aos latifúndios totalmente desproporcionais às atuais necessidades de produção de alimentos saudáveis, livres de pesticidas e defensivos (nomes eufêmicos para veneno!).

A título de arremate – num debate ainda indefinido, aberto e assediado por tantos saberes, disciplinas e formas de conhecimento -, um ponto de extrema importância para cercar o objeto pós-moderno é o da exaustiva e também progressiva banalização dos valores essenciais à urgência do quase esquecido mundo moderno.

A vida humana, nas megratópoles contemporâneas (uma hipérbole para o exagero do novo tempo de excessos), vem sendo rebaixada e progressivamente ultrapassada pelos tópicos concernentes ao relativismo sempre apressado de nossos dias. À medida que ganham força as diversas crenças no poder de todas as ideias, todas as formas de viver, todas as concepções e práticas existentes na realidade também alcançam status de válidas e legítimas. Assim, os fins passam a pouco render. Causas, ideários, princípios e condutas pautadas pela coerência são ultrapassados pelos ditames da total instabilidade do movimento, do carpe diem. No fio da navalha da História - ou na corda bamba em que Nietzsche viu o animal humano tentando em vão se equilibrar -, buscam esquivar-se da bancarrota o trabalho (instável, temporário, precário e alienante), o conhecimento (instrumentalizado, reduzido e previamente censurado), a cultura (mercantilizada, massificada, tornada efêmera e trivial) e a sexualidade (promovida a laboratório de indefinições, experimentos, riscos e infelicidade). Numa palavra, os conceitos e categorias tão caros a pensadores como Rousseau, Diderot, Marx, Benjamin, Gramsci volatilizaram seus conteúdos e adaptaram-se a liquidez das novas e intempestivas exigências do provisório e insociável mundo pós-moderno. Ainda que muitas dessas novas formatações sociais exijam maior entendimento dos intérpretes da realidade, na medida em que representam também o espaço de morada de muitos novos personagens de rebeldia e resistência, o típico do pós-moderno, não obstante seu discurso insistente em defesa da pluralidade – o qual só se efetiva no consumo e nas manifestações do indivíduo isolado -, é a busca por homogeneização e desarticulação das diferenças, posto que isso define, aperfeiçoa e potencializa as formas de dominação explicitadas pelas novas redes midiáticas e pelos grupos de negócios e mercadorias: trata-se, pois, da política do vazio e da não substância. Nesse sentido, aprecio muito a expressão modernidade tardia, pela qual Frederic Jameson expõe o atraso – ou, no mínimo, o desvio – cultural do pós-moderno: dividir para conquistar, na melhor das epígrafes romanas de guerra e invasão do outro.

Em livro de importância decisiva para a compreensão do fenômeno pós-moderno, o instigante e elucidativo “Legisladores e Intérpretes”, Zygmunt Bauman vaticina que a figura do intelectual, surgida no umbral do século XX para designar um tipo humano voltado para a crítica e a proposição de ideias, valores e ações que pudessem se universalizar e, assim, orientar utopias e desconstruções, passou dessa eloqüente e admirável condição de legislador da realidade para a de mero e por vezes estéril intérprete dos estilhaços da pós-modernidade. Incapaz de reunir conceitos e argumentos com vista à totalidade da vida social, conectando fenômenos e unificando saberes e práticas, o intelectual-intérprete reduziu-se a corrimão do temporário, do superficial, do mercantil e lucrativo, do inconsequente e “aberto” mundo das coisas que reinam sobre as pessoas, cruel e despoticamente. Ele mesmo se torna vítima do impacto que não consegue evitar: despedaçado, desperdiçado e impotente diante dos mistérios das origens de seu próprio tempo, o intelectual se quebra e se restringe a mero analista desacreditado de um espetáculo do qual ele é, em essência, um espectador assustado e, por vezes, conivente. É isso.

14 dezembro 2010

Todas as palavras do mundo

Maria Ribeiro, em ensaio de Marcio Simnch, para a Revista Trip

Há imagens, como já enfatizaram provérbios e ditados imemoriais, que substituem todas as palavras do mundo. Eu penso um pouco diferente: acredito em imagens que despertam palavras, alimentam desejos, formam escritores e artistas de letra escrita. Quando vi a atriz Maria Ribeiro, a bela da imagem, no filme TOLERÂNCIA (2000), de Carlos Gerbase, senti milhares de palavras percorrerem meu corpo, formando versos e prosas e ameaçando minha imaginação com a sedução eterna. Dialetizada entre a pureza angelical e a pura sacanagem das ninfas, Anamaria, personagem de Maria Ribeiro, não substituiu minhas letras: resgatou-as de seu exílio, dos recônditos de minha alma, e as traduziu em poesias, contos, romances para o eterno sempre.

Este ano foi um tempo em que escrevi muito e, paradoxalmente, quase nada. Explico. Embrenhei-me na rede mundial de computadores para, de algum modo, minimizar os danos que me causam o analfabetismo virtual, cujas estatísticas negativas eu tanto engrosso. Não sei fazer planilhas, sou péssimo com edições de vídeo e imagem, subaproveito os recursos da Internet e até dos editores de texto. Algumas pessoas até tentam me agradar dizendo que o "Espaço" é bonito e bem cuidado. Concordo com o segundo predicado, uma vez que, comparado a outros belos blogs que existem por aí, este amado meu chega a ser analógico, quase um papel sulfite. Muitos alunos também gostam de reiterar que os slides de minhas aulas são alegres, coloridos (invariavelmente em verde, branco e grená) e dinâmicos, com vídeos, fotografias, links etc. Bom, se soubessem quanto peno para elaborá-los...

Sob o prisma digital, portanto, escrevi muito: esboçei ideias e aforismos diários no twitter (uma ferramenta que não me permite esquecer minhas impertinências mais profundas); preparei dezenas de novas aulas, com autores, livros e teorias inéditas; escrevi todos os meses longos textos aqui no "Espaço", ainda que na maioria das vezes tenha publicado um só post mensal, ou dois, não mais do que três.

Vale destacar - e muito! - que coligi mais de 50 poemas para meu primeiro livro como eterno aprendiz da mais singela e bela entre todas as artes da palavra. Boa parte dessas poesias venho publicando desde 2005 aqui no blog. Reunidos, melhorados e acrescidos de alguns inéditos, os poemas compõem meu livro DESMUNDOS, uma homenagem no plural ao romance de Ana Miranda e uma referência aos desencontros de beijos, olhares, desejos que vivo desde a aurora do meu próprio tempo. DESMUNDOS, que só não saiu em 2010 por problemas editoriais e de diagramação (outro efeito doído de meu analfabetismo virtual), sairá com toda a certeza ainda no primeiro semestre de 2011.

O ardente e inquieto universo de minhas fantasias e imaginação (herança fourieriana) também produziu neste ano, que já abraça seu final, os oito roteiros para os contos de FRAN, reunião de histórias que narram um amor improvável. Eli ama Fran. Ele, receoso de si mesmo, contudo, nada diz a ela, que ao longo dos quatro pares de histórias, distintas paisagens e experiências simboliza e protagoniza o amor perfeito, o desejo sublime, a mulher divinizada. Criar, dar à luz e ajuizar esses contos foi uma experiência tensa e praticamente infinita, cujos frutos permanecem no porvir. As marcas disso, no entanto, fixam em mim a certeza de meu amor pela palavra escrita e pelos voluptuosos sentimentos despertados em minha vida por FRAN.

Mas até que DESMUNDOS e FRAN ocupem prateleiras, reais e virtuais, essas na web, e cheguem às mãos do leitor, serão apenas promessas, projetos de um escriba cuja visão de mundo contrasta a razão prática da sociedade capitalista, com suas urgências e incertezas, efemeridade e não substância. É certo que 2011 trará os dois livros ao mundo dos vivos e que será o meu ano literário: o primeiro ano do resto da minha vida.

Eu disse que escrevi pouco neste já em despedida 2010. E é verdade. Como sociólogo - e no quesito acadêmico stricto sensu - fiz muito pouco. Afora umas palestras aqui e acolá, dezenas de intervenções midiáticas na imprensa local analisando a campanha eleitoral do ano e uma proposta intelectual ousada de encruzilhada entre Antonio Gramsci e o anarquismo, restringi-me à sala de aula, várias turmas, uma avalanche de disciplinas por todo o período letivo. A conclusão, justa e clara, não me poderia ser outra: ficar muito em sala de aula representa, de modo quase automático na relação, produzir pouco, refletir menos, repetir-se demais. Como quero falar apenas do viés escriba, nem vou detalhar as consequências psíquicas e físicas de esgueirar-me na universidade entre centenas de representantes da juventude líquido-moderna...

Bom, o fato é que bons ventos vêm trazendo o ano da graça de 2011. Casa nova (enfim, o apê com o qual sonhei toda a vida), trabalho novo (testado e garantido durante uma longa, difícil e necessária transição para novos mares), perspectivas renovadas no plano da subjetividade... Meu filho me carrega no colo, à altura de seus deliciosos quatro anos. E minha vida a dois deve despertar para um novo tempo, melhor e mais afortunado, principalmente depois que BER-LINDA revolucionou minha história e partiu para adornar suas vitrines... Creio que terei agora o almejado lar doce lar.

Nas estradas sociológicas e socialistas desenhei minha trajetória há muitos anos. Não pretendo nem quero abandonar esse caminho - é nele que reacendo diariamente minha esperança no ser humano. Não obstante em vários momentos essa esperança-que-não-se-acaba seja abalada profundamente, é preciso dizer que de fato ela não terá fim. No dia em que ela cessar, a estrada terá terminado - pelo menos para mim.

O "Espaço" volta em 2011, mais bonito, mais bem cuidado, recheado de novidades para uma nova década. Como parte de minha revolução subjetiva, dedicar-me-ei muito mais aos posts, buscando evitar longos períodos sem publicações por aqui. No mais, desejo que o próximo ano seja bom para todos e traga indícios de que caminhamos bem para um mundo de homens e mulheres definitivamente livres e iguais. 

Ah, e que o Fluzão possa dar mais uma grande volta pela América e, enfim, conquiste o planeta - o que lhe é de nascimento, direito e paz. É isso.

Tudo

"Quase um beijo", fotografia de Cristye

Nunca entendi muito bem os enigmas e todo o fascínio que carregam e escondem os beijos. Nem sei dizer se a palavra beijo - um ato tão humano que permite a transcendência de seus sujeitos - possui plural. Penso que um beijo já seja soma, comunhão. Lembro que Shakespeare afirmou, mais de uma vez, que um beijo é a manifestação mais plena da intimidade. Beijar, acintosamente, é um gesto pornográfico, uma troca monumental de ingredientes que fabricam delírios e destemperos. Creio que até Charles Fourier apostaria no beijo como a paixão definitiva, o efeito sublime do processo de humanização.

Tanto mistério ainda me diz pouco a respeito das maravilhas que um beijo pode provocar. A simples ideia de um beijo suscita calores, arrepios, sonhos e muita turbulência. Dormir para sonhar com o beijo desejado, os lábios da vida; evitar o despertar para não ter de se descolar da boca perfeita. Beijos conduzem o pensamento à anatomia completa do ser, aos esconderijos de nós mesmos.

Lourenço Mutarelli, no indispensável "O cheiro do ralo", seu livro de estreia, de 2002, criou um sujeito obcecado pela bunda. Ele buscava - e acabou encontrando - a bunda perfeita. De modo diferente do solitário e paranoico personagem de Mutarelli, eu busco o beijo perfeito. Ainda que esse beijo jamais tenha acontecido, lá está ela - a bunda perfeita - no mesmo corpo dos lábios amados, da mulher ideal. O beijo desejado - sonho impossível - traz consigo a bunda, as pernas, os seios, a barriga, os pés, os olhos, a pele, o tudo perfeito.

Eu realmente não tenho pretensão de compreender a loucura que beijos alimentam. Desejo apenas sonhá-la. Feito um louco.

(Prólogo de meu livro de contos "FRAN". Trata-se de um breve devaneio de Eli, protagonista masculino das histórias, observando Fran, a mulher divinizada, em uma de suas rotinas diárias. Para Eli, ou para os pensamentos e desejos dele, Fran é a materialização do beijo perfeito - tão perfeito que absolutamente impossível.)

02 dezembro 2010

Adeus, BER-LINDA!


Fim do plantão tricolor. Fim dos "bons dias" e "boas noites". Fim dos doces "vida" e "amor". Fim de muitas coisas, de todas as coisas que deram sentido às coisas que não tinham razão de ser. Agora, o fim faz perecer. O olhar, camuflado e azul, eterizado, insinuante, que precisava se esgueirar da multidão atenta e às vezes tão maledicente, também cessou: não resistiu às poucas forças de sua resistência nada revolucionária, não obstante utópica e valente - que tentou ser forte, que buscou ser maior, que acreditou ser possível o que sempre será possível, somente aos olhares que não se cansam de erguer bandeiras.

A espera cansou. Os dias intermináveis cansaram. Os desencontros cansaram. Os sonhos incomuns cansaram de tantas incongruências, assimetrias de voz, vez, desejo. Os mundos, enfim, cansaram.

Houve um adeus, marcado pela linguagem que fez a união nascer: virtual, fria, distante, às vésperas do fim, que, ironicamente, havia sido seu início, no verão de minh'alma, no fim ingrato de um ano duro, mas necessário. Passado, ufa!

Ciente de que não haverá arrependimentos, de que o adeus de lá não voltará atrás e de que um sonho novo já ocupa seu coração, já coloniza todas as suas atenções, abaixo os olhos, respiro fundo, contemplo o céu e grito, atordoado, pronto para me esconder entre as lágrimas que só irão parar de escorrer para dar vazão às outras, aquelas verdes, brancas e grenás que salvarão, pela enésima vez, a minha vida da própria morte...

Adeus, BER-LINDA!

03 novembro 2010

Todos os buracos do mundo


Exemplares do novo livro do guitarrista-escritor Tony Bellotto, publicado pela Companhia das Letras (2010): leitura prazerosa e muitíssimo inteligente

Em um dos capítulos de seu novo romance, "No buraco", Tony Bellotto, o conhecido guitarrista da banda de rock Titãs, leva o protagonista Teo Zanquis, um esquecido integrante de uma banda oitentista de rock, dona de um único sucesso, hit parade, a Seattle. Em memórias pessoais, Teo passeia por seus tempos áureos e também rasos, numa bela mistura de exaltação e ostracismo. Nos EUA, na velha capital grunge e dos movimentos altermundistas da década de 90', Zanquis procura pelo túmulo de Jimi Hendrix. Entre um I'm sorry e um Excuse me, vocabulário máximo daqueles que se perdem pelos dicionários básicos da língua de Shakespeare, Teo Zanquis procura pelo cemitério do exímio guitarrista da geração Woodstock. Lembra, em suas andanças e divagações, que Jim Morrisson, líder do The Doors, que também morreu das overdoses da geração que queria mudar o mundo, foi enterrado em Paris e era sempre lembrado com reverência. Zanquis então passa a se perturbar: será que era por ser branco, filho de classes médias, ter estudado em bons colégios? O fato de ninguém saber informá-lo sobre em qual cemitério estava sepultado Hendrix - e, no limite, ninguém nem saber quem fora o grande Hendrix - deixou o protagonista de Bellotto em justificado estado de indignação. Ao final desse capítulo, o já antigo pop star manda tudo ao caralho, inclusive Paris e o racismo que faz desaparecerem gênios e verdadeiros talentos. O livro de Tony Belloto é delicioso e imprescindível. É isso.

27 outubro 2010

Por que votar em Dilma Rousseff?


Encaminhei hoje, a pedidos, o texto abaixo para o jornal FOLHA NORTE, que circula em Londrina gratuitamente todo final de semana. O texto será publicado na edição do próximo sábado, véspera do segundo turno das eleições presidenciais. Sempre me abstive de um envolvimento mais orgânico nos processos eleitorais, em grande medida para manter a independência e a força crítica das palavras. Neste 2010, entretanto, não pude deixar de manifestar abertamente meu voto: no primeiro turno votei em Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL, e agora voto, calmo e tranquilo, em Dilma Rousseff, do PT. Tomei essa postura em face de um processo totalmente despolitizado e moralista, no qual trouxeram à tona temas nada públicos, nada republicanos, com forte viés religioso e conservador. A direita brasileira, atracada na grande imprensa empresarial, perdeu o prumo e tem feito tudo e de tudo para desqualificar a essência da democracia, qual seja: o debate franco, pautado em projetos e visões de mundo. Escondida atrás e ao lado de forte penetração social por imagens e capitais, a burguesia nacional - aquela que nem essa desinação merece - resolveu, de modo atávico, difundir ódios e preconceitos, aniquilando o diálogo aberto e ideológico. Por isso, abri meu voto e esbocei alguns argumentos que o tornem público, sugestionável a novas contribuições e reflexões. É isso.

Em 2002, com a eleição de Lula, partilhei da ideia de que o Brasil refundava sua condição de nação republicana e democrática. A chegada de um operário e de um partido de esquerda à presidência do país redesenhava o mapa político e social do Brasil, alimentando novos imaginários e novos sentidos para a cultura nacional. Em pouco tempo, as dificuldades para superar a política econômica do governo anterior, conservadora e asfixiante, e uma timidez mórbida para fazer reformas estruturais que pusessem em xeque a hegemonia da pequena política de conluios e bastidores ultrassecretos, decepcionaram muitos dos entusiastas de primeira hora. Eu ainda sou um desses feridos.

Não é, contudo, nada honesto intelectualmente misturar os dois projetos que estão em disputa neste segundo turno das eleições presidenciais, demarcando-os pela indistinção. Dilma e Serra encabeçam visões diferentes de Estado e sociedade e defendem papel diferente para o governo de uma nação.

Nos últimos oito anos, com Lula presidente, houve a criação de um vigoroso mercado de consumo, com distribuição de renda entre aqueles que sempre estiveram à margem da história nacional; o salário mínimo deixou de ser uma fagulha na vida econômica nacional; o crédito popular ampliou o número de pequenos empreendedores. Enfim, o Brasil criou uma atividade econômica interna que livrou o país da exclusividade de ter de exportar bens primários para sobreviver. Além disso, não criminalizou os movimentos sociais e impediu, com isso, que o conservadorismo de plantão usasse o governo para perseguir e difamar os sem-terra, sem-teto, sem-amor deste país. 

O Brasil também teve uma elevada recuperação do papel do Estado, acabando com as privatizações e reformalizando a economia: os bancos públicos deixaram de financiar exclusivamente milionários e passaram a fomentar cooperativas e iniciativas de economia solidária, servindo a nação como indutores do desenvolvimento e da geração de emprego e renda. 

Necessário destacar também que o país avançou com a extensão da vida universitária por meio de uma abertura do ensino superior aos trabalhadores e seus filhos. Num país em que antes somente ricos se laureavam, a cara das futuras elites já tem novas colorações: branca, vermelha, negra... Na política externa, agora soberana, como tão bem disse Chico Buarque na última semana, o país deixou de falar grosso com Bolívia e Paraguai e fininho com os EUA, enterrou o absurdo da ALCA e fortaleceu relações com a América Latina, a África, a China, a Índia e – por que não? – o Irã.

Em síntese: não obstante os contrastes sociais que persistem no país; a necessidade de avançar muito mais em saúde e infraestrutura; a emergência de reformas políticas que privilegiem partidos e projetos e acabem com a corrupção nas entranhas do poder; e a coragem ainda por vir de enfrentar o monopólio das comunicações de massa, a nação prosperou e definiu um rumo mais socializante, menos liberalizante e entreguista. É por isso que Dilma Rousseff merece o voto do Brasil.

25 outubro 2010

Nunca te amei tanto desde ontem


Imagem do ensaio "A Naked Night Out With Monica Mattos", no qual a fotógrafa Autumn Sonnichsen captura a diva pornô brasileira pelas ruas de São Paulo na vastidão da madrugada

O que foi aquele olhar perdido, meu Deus? Havia nele uma nítida busca pelo tempo, um simples lugar. Livre como no melhor da tradição libertária, aqueles olhos de um amendoado retumbante demonstravam puríssima ingenuidade e procuravam, num insucesso absoluto, camuflar sua poderosa sedução. 

Perdi-me. Estava tão centrado para o debate sobre a pós-modernidade... Não consegui pensar de fato em mais nada, senão no desejo de ordenar aquele olhar displicente, magnético, tira-fôlego. Isto. Sem ar. Fiquei, numa tão somente meia metáfora, paralisado, sem condições de oxigenar os pulmões tranquilamente. Naquele instante, aliás, sentenciei-me a longas noites, tardias manhãs, sem nunca jamais saber coisa alguma a respeito de tranquilidade...

Cativei-me de pronto. E é possível que para sempre.

Assustei-me diante do apenas possível enlace eterno daquele cruzamento tão veloz de olhares porque me indispus brevemente com a chance de aquilo ter sido mais uma das milhares de imagens que nos atropelam dia a dia. Estamos mesmo numa era de muitos instantâneos. Percebi logo, entretanto, que quanto mais me esforçava por esquecê-lo, o distraído olhar - parceiro de lábios que proferiam palavras doces de um modo enlouquecedoramente suave - se perdia ainda mais em mim, incitando, deliciosamente, novas permissões para longos voos de fantasia e estrondosa felicidade.

Virtualizei-me. Os dias eram agora a lenta passagem de imagens que encontravam lábios, os meus e os daquele olhar. Um instante de perdição, um flagrante de sentidos, e aprendi a conviver de modo sempre revelador com a potência de minha imaginação. Depois de muito tempo, senti espraiar-se em mim o fôlego das ideias, o verdadeiro poder da sedução.

Quando atento, o olhar que me reinventou naquela manhã tão pouco promissora dividia-se entre o manter de sua calmaria excitante e o despertar de seus mistérios. Por lapsos diminutos de tempo, os lindos olhos mansos tentaram me convencer de sua normalidade, de sua exuberante indistinção. Nada. Minha imaginação reinventada assumia, durante esses esforços insuficientes e precários, o ativo papel de validar e sintetizar a excitação dos mistérios: jovem demais, longe demais, por isso mesmo desequilíbrio pulsante.

Cair do meu real era incidente necessário naquela manhã de segunda-feira. Era imperativo que algo até então nunca existente surgisse e me dissesse: "Nunca te amei tanto desde ontem". Satisfazia-me incontrolavelmente sugerir a mim mesmo que, na noite de domingo, durante os momentos de programação da semana,  todas as estrelas do céu tivessem resolvido, de maneira conspiratória, fabricar-me aquele olhar. Um presente. Os astros, enfim, haviam se rebelado: "Há um cérebro no mundo que precisa se perder para, antes tarde do que nunca, recuperar-se espantosamente. Hora de brilhar".

Elevei à mais exo das esferas a minha autoestima. Muito mais do que colisão de olhares e lábios em frenesi, aprendi a reunir em puro êxtase nossos corpos, inteiros, na força de seus detalhes e segredos. Tudo era muito envolvente e saboroso. Dia após dia, minhas palavras se reproduziam com enorme facilidade, multiplicando crônicas, contos e ensaios. Um velho romance empoeirado no fundo da gaveta ganhava vida nova, e em mim crescia a determinação de torná-lo  um livro emblema, definição de mim mesmo. Um título muito honesto a esse romance seria "Se a luz dos olhos seus"...

As palavras surgiam da virtualidade do encontro de nós dois, hipertextualizavam aquilo que havia de melhor em mim, loucuras e devaneios, esperança e proposição. Eu não precisava de mais nada real, stricto sensu; perfazia-me  somente o imaginar.

Lembro-me sempre de Fourier agora. Aprendi com ele que antes é necessário perder-se na abstração, para que algo de concreto se inspire no desfile bailarino das inspirações desconexas, anexas, confusa e ordinariamente complexas. É isso.

22 outubro 2010

Desterrar


"Distribuição das Armas" (1928), do muralista mexicano Diego Rivera

No próximo dia 15 de novembro, dia da República, estreia na CBN Londrina - 93,5 FM - minha coluna diária com comentários sobre "CULTURA e SOCIEDADE". Numa palavra, sobre tudo e mais um pouco. Para o piloto do comentário gravei alguns apontamentos sobre o drama dos mineiros aterrados no Chile, no Atacama, e a dimensão midiática e de poder que a história conseguiu alcançar. Todos os dias, de segunda a sexta, irei tocar no invisível, no delicado, naquilo que de toda a parte negam luz, clarividência. Sociólogos na rádio são assim: provocadores. Abaixo, o texto que preparei para meu programa piloto

Na última semana, o mundo acompanhou atento o resgate de trinta e três trabalhadores soterrados numa mina no norte do Chile, no Deserto de Atacama. Por 70 dias, centenas de metros abaixo do chão, os mineiros não puderam ver imprensa e governos de todo o mundo mobilizarem todos os recursos possíveis para tirá-los com vida de seu isolamento forçado.

À primeira vista, portanto, sobravam solidariedade e comoção. O que os milhares de holofotes, telas e microfones das mídias globais e o semblante de apreensão de chefes políticos de todo o mundo não permitiam ver é que aquele não foi nem será o último desses acontecimentos envolventes, vividos no limite entre o humano e o inumano.

Desmoronamentos, deslizamentos, soterramentos, inundações, despejos, todos os tipos de exclusão acompanham a existência dos trabalhadores em toda a parte, o tempo todo.

Bom seria se daquele exemplo em Atacama ficasse a sentinela incansável sobre as condições reais de vida em que se reproduzem quase dois terços da humanidade, impedidos de ver a luz do sol e o brilho do amanhã.

É justo que os mineiros do Atacama encontrem agora afetos e compensações. Não há dúvidas ou questionamentos quanto a isso. É ainda mais justo, porém, que todos nós não esqueçamos que perto, bem perto, à esquina, na periferia, nas favelas, nas fábricas pesadas, nos latifúndios, nas indústrias e confecções clandestinas, nos muitos cárceres do planeta, nosso sistema duro e quase sempre cruel aprisiona e enterra gente que mídias e governos não veem - e muitas vezes escondem de todos, para manter limpa a imagem que vendem para as telas, páginas e ondas da grande mídia burguesa, para o horário eleitoral, para os livros didáticos e para as consciências excessivamente despistadas. É isso.

16 setembro 2010

Latinizando II - o mistério da loba

Os mosaicos em verde, branco e grená da torcida do Fluminense são efetivamente um dos belos espetáculos latinos de nossa cultura. Organização, sofisticação e esplendor fazem da torcida tricolor um dos grandes personagens de nosso tempo, um encontro da elegância, da vibração, da arqueologia mais tradicional da perfeição humana

para o Fluminense Football Club
e minha musa tricolor, Ber-Linda.

Escrevi faz pouco mais de um ano e meio, ainda fustigado pelos acontecimentos finais de 2008 - um ano que começou tenso, desenvolveu-se para além das melhores previsões e terminou quase trágico! -, que crises correm aos ventos. Em parte porque, sinal de que alguma coisa não anda bem, os próprios sujeitos da crise buscam porto-seguro longe das maiores e mais drásticas consequências. Na maioria dos casos, entretanto, as crises são mesmo conduzidas pelos ventos, esparramadas pelo mundo, pelo maior número possível de espaços em que existam e convivam gente e seus sonhos. (Gramsci, sempre atual, destacava que crises são indicativo de que o velho agoniza e o novo ainda não aponta no horizonte; daí serem crises revelações de nossos medos e temores, uma possibilidade sempre latente de ebulição e explosão da novidade, seja ela qual for.)

No mundo latino, o americano, em caráter sempre especial, a krisis (do grego situação de instabilidade, incompletude, a urgência da ruptura) prolonga-se por mais de meio milênio, evidenciando nossas veias ora dilatadas, ora abertas, ora misteriosamente bailarinas.

Condenados a abastecer países-metrópoles, casas financeiras e monetárias, indústrias e culturas dos universos "civilizados" do hemisfério norte, o arco-íris de etnias latinas que cruzaram vidas e por aqui forjaram novas éticas e estéticas protagonizou por séculos uma aguerrida história de dor e insurgência. Entre nós, ainda que nada predispusesse imaginar, qualquer hipótese de futuro sempre passou pelas marchas humanas da resistência. Povos indígenas em suas múltiplas e diversas determinações; negros de tantas línguas, sóis e luas africanas; europeus de matizes socioeconômicos infinitos; caravanas e expedições de gente, de humanidade... perfilham, perfazem, perscrutam o sangue e a alma latinos de um povo novo, lembrado e sempre homenageado por Darcy Ribeiro, antropólogo brasileiro que apostava no Brasil como uma nova Roma, latinizada, melhorada, epicentro cultural e de convergência das melhores e mais sofisticadas formas de inteligência e solidariedade num futuro próximo e, sem dúvida alguma, inadiável.

O autor de Maíra acreditava que povos de todo o planeta viriam à América - ao Brasil, em especial - para ver, admirar, aprender novas formas de humanizar e permitir humanizar-se. O sangue negro e índio no qual fomos lavados e temperados exporia aos quatro cantos do globo forças criativas, embebidas na dança, no trejeito, nas saídas francas, corajosas, de disposição incansável de mestiços latinos para se tornarem porta-vozes da ação necessária do futuro.

O mistério da loba - musa dos povos solares e da coragem latina - contagiará as formas humanas de por aqui prestigiar o amor, o poder da sedução. Reduzirá a pó o medo do enfrentamento e eventuais complexos deixados por séculos de colonização renovada, que nasceu no império da faca e da cruz, atravessou a prevalência cruel de latifúndios e acordos espúrios impostos pela coroa britânica e atracou, em modernos e pós-modernos mares, na prerrogativa inquestionável dos deuses do mercado, inimigos declarados de tudo que cheire a liberdade, igualdade, fraternidade.

Na atraente magia da loba latina - que é alma e poder do amor -, a dança principal expõe a trajetória de corações valentes e escancarados, permanentemente voltados ao amanhã. O mistério da fêmea-alma, energia de doce e incrível entrega, verdade, talvez possa começar a ser desvendado no olhar latino, misto de ternura, compaixão, força selvagem; e também reunião equilibrada e acolhedora de paixões, desejos, necessidades de conferir à vida valor e sentido, mais, muito mais do ainda não vivido.

Na latinidade que fortaleceu a cultura de um povo novo, aquecido na generosidade orixá e no vibrante ritmo de seu toque de bola, de suas danças e sonoridades, de pura estesia, desponta um caminho certo, qual seja: o do coração do mundo e dos mosaicos audaciosos de cores de pura alegria, atrevimento. De imaculada resistência. E esperança.

04 setembro 2010

Ando devagar...


"A cadeira", fotografia de Ricardo Bhering

As tais fichas, responsáveis pela emergência dos fatos em nossa consciência, acabam mesmo caindo. E é graças a elas que ocorre com nossas ideias algo muito parecido àquilo que o genial geógrafo Milton Santos designou como sendo os três mundos num só, no tocante ao chamado processo globalizatório: o que nos fazem ver, celebrado e fascinante; o verdadeiro, perverso e desumano; e o que desejamos, outro, possível como nossa própria humana condição de desejar e fazer mais e melhor, sempre!

Via de regra, as fichas, com as três faces de uma mesma moeda, demoram mais que o necessário, muito mais que o suportável. Mas, afinal, caem como pedra.

Tomados pelas urgências de um mundo sempre com pressa (outra das facetas daquele primeiro tipo de mundo para impedir nossa visão das suas outras duas dimensões!), esquecemo-nos de definir prioridades, essas mágicas e exigentes peças de uma vida firme, de lentos e seguros passos, esclarecidas posições. Eleger e definir na ação um conjunto de prioridades para a vida, para além de todas as contas, é tarefa complexa; mas é igualmente imprescindível para que o tempo, soma inquieta e inevitável de nossas horas, dias, semanas, meses e anos, seja suave, frutífero, bela trajetória. Como - diz-se do olhar de Kant em seu último alento de vida - deve ser incrível voltar-se para trás, para as pegadas deixadas pelos caminhos percorridos, e repetir, tranquilo e satisfeito: "É, foi bom, muito bom!". No bom caminho, as prioridades devem ser as únicas urgências. O resto são tão-somente minúsculas pedras, cujo destino, como numa inocente brincadeira de criança de arremessar e sorrir, deve ser o fundo do mar. É isso.

18 agosto 2010

Gramsci e uma (des)leitura da segurança pública

No ano passado, em 16 de outubro, participei de uma etapa do projeto "Diálogos Mais Que Pertinentes", promovido por instituições de ensino superior privadas de Londrina/PR. O tema proposto para a mesa era, na verdade, uma questão: "O que significa segurança pública? Ela é papel de quem?". Para não cair na cômoda armadilha conservadora do investimento em mais e mais repressão contra delinquentes e marginais, caminhei para Antonio Gramsci e seu conceito de "Estado Ampliado". Assim, pude me referir ao Estado como dimensão política da vida social - essencialmente, portanto, se político, o Estado se enquadra perfeitamente na luta por emancipação dos subalternos e conquista efetiva de uma liberdade sem fronteiras contrária àquela imposta por ideologias e práticas legalistas e moralistas. Destoei na mesa e senti-me feliz, afinal, sabemos, a boa História é aquela que se escova a contrapelo.

A segurança pública, estampada no capítulo 144 da Constituição brasileira, é dever do Estado, direito e responsabilidade de toda a coletividade. Mais do que isso: almeja a preservação da ordem, da integridade física dos indivíduos e seu patrimônio – na variedade pública ou privada. As inúmeras polícias e todos os entes da federação se posicionam, por força de lei, como signatários de toda essa proteção. Numa palavra: segurança pública é responsabilidade do Estado, função política dos governos em exercício, predicado cidadão de todos os sujeitos políticos de uma dada comunidade humana.

Talvez apenas por acaso toda a contenda sobre tributação no Brasil se realize, na Carta Magna, logo após o disposto sobre segurança pública. Semioticamente, uma pergunta se revela inevitável: a ordem nos dispositivos seria algo em torno da questão sobre quem vai financiar todo o aparato de segurança e por quê?

Antes de elucubrar sobre os temas implícitos na ordem das coisas e nas formas de dominação social explícitas na letra da lei – a qual, numa sociedade de classes, é sempre contornada por dimensões ideológicas e econômicas -, parece-me imprescindível uma pequena reflexão sobre a natureza do Estado nas modernas sociedades capitalistas. Vou me ancorar em Antonio Gramsci, pensador italiano responsável por ter dado oxigênio e maior envergadura aos conceitos marxistas de Estado, poder e política.

Como aparato administrativo, organizacional e jurídico-político, o Estado viabiliza na prática a orquestração povo e território. Para tanto, assume para si mesmo aquilo que mestre Weber chamou de “monopólio da coerção física legítima”. Por isso, é poder supremo; por isso, atrai para suas determinações a subordinação de toda a comunidade. Vale ressaltar, contudo, que coerção física na forma de força bruta, desmedida e dada ao limite (castigo, prisão, morte), é recurso extremo, mais uma ameaça do que uma contenda regular, cotidiana. O importante na concepção moderna de Estado é sua reivindicação como centro decisório e a captura da obediência, da anuência coletiva. Gramsci afirmava que o Estado era “... todo o complexo de atividades políticas e teóricas com as quais uma classe dominante não só justifica e mantém o seu domínio, mas consegue obter o consenso ativo dos governados”. Diferentemente e para além de Marx, entretanto, o autor dos Cadernos do Cárcere amplia a noção de Estado cristalizada na herança marxista, oferecendo-lhe interessante composição civil e política. O Estado passa a ser, para Gramsci, a sociedade civil (espaço em que se criam e difundem os valores dos fragmentos de classe que compõem o bloco histórico em luta pela hegemonia de suas premissas, via TV, jornais, revistas, Internet, cinema, igreja, partidos, sindicatos, publicidade etc.) e a sociedade política, isto é, o aparato institucional de fazer política de modo público e generalista por meio da arquitetura estatal.

Dando ênfase aos papéis possíveis intrínsecos aos aparelhos de hegemonia privada espalhados por toda a sociedade civil, Gramsci condena a simplificação do Estado como “comitê organizado dos interesses da burguesia”, tal qual expresso em célebre passagem do Manifesto Comunista. Em vez disso, abre a perspectiva de politização do poder, de uma participação efetiva das classes subalternas no proclamar das mudanças, como artífices do futuro. Nesse sentido, segurança pública pode vir a ser muito mais que proteção de indivíduos e sua propriedade, governos e seus patrimônios históricos. A politização do poder tem início justamente no momento em que deixa de ser tão-somente estrutura de Estado, aparelho de força, instância de coerção. Além de poder-sobre (vigor do capital, articulações de classe em defesa de interesses particulares e exclusivistas típicas de uma sociedade que condena tudo que cheire a igualdade), faz-se inadiável o fortalecimento de um poder-fazer, a potência da realização, que desbrava e rompe limites, questiona, inquieta, move (cf. Nogueira, 2007, p.123).

Marco Aurélio Nogueira, cientista político paulista, autor do indispensável “Potência, limites e seduções do poder”, no caminho deixado pela tradição gramsciana de valorização da política, afirma...

Há muito combustível para que se adote um modo não-político de fazer política. Quando, por exemplo, o diálogo democrático é substituído pela intimidação, pela desfaçatez ou pela afronta aos “bons modos”, a política vai para o espaço. Quando a política é praticada como se fosse um happening ou um show que, a cada três ou quatro anos, agita as energias comunitárias mas não se faz acompanhar de nenhuma forma de mobilização permanente e de nenhuma iniciativa educacional, estamos longe da política. Uma atitude que compensa a letargia cotidiana com espasmos de combatividade “incendiária” só contribui para afastar as pessoas da política. [...] o único antídoto é a recuperação plena da face generosa da política. Não é o virar as costas para a política, mas sim recepcioná-la de braços e mentes abertos para então, em nome dela e com os recursos dela, enfrentarmos aqueles que pregam a ação contra a discussão, a veemência contra a ponderação. Pode ser um caminho longo. Fora dele, restará apenas, na melhor das hipóteses, a mesma velha e desbotada rotina dos atos e das palavras que não empolgam” (Nogueira, 2007, p. 124, 125).

Poder e política, Estado e segurança pública são elementos inseparáveis, que só fazem sentido se pensados sob os parâmetros da totalidade da vida social. Se política, mais que um edifício de ações programadas pela letra quase sempre estéril da lei transcendente, necessita tornar-se valor, porvir, eixo moral de reflexão/ação, Estado e segurança pública, numa sociedade que se deseja democrática e progressista, exigem refundar seu pacto, os termos de sua parceria. Não é o mercado – para horror do palavrório liberal – o epicentro da segurança pública e social. Como direito humano fundamental, viver em paz só pode ser algo assegurado por uma instância que se realiza politicamente, pelo dissenso, pela batalha permanente das ideias. Nesses termos, entregue ao Estado tal qual ele se engendra em nossas pós-modernas sociedades desiguais e excludentes, a ideia de segurança pública será sempre numérica, quantitativa: mais contingente policial, mais armas, mais viaturas, mais repressão. O Estado policial e penal nascido dessa visão de segurança, de poder, de política nos acompanha a meio milênio e é no mínimo corresponsável por todo o nosso estado de coisas... Elaborar novas culturas e forjar outras dinâmicas de relacionamento social, dando espaço a subjetividades alternativas e mais inquietas, insurgentes, é estrada certa para a refundação do Estado, da política e da segurança em nossa sociedade. Sob linguagem explícita, isso pressupõe que sejam criadas as condições para avaliar uma nova polícia (desconstitucionalizada, desmilitarizada, cidadã), um novo sistema penitenciário (que corrija e dê norte aos direitos ao trabalho, à progressão justa das penas, aos direitos humanos) e, principalmente, um regime socioeducativo que repense a direção das políticas públicas, seus conteúdos diretos e indiretos e a valorização de suas conquistas como o Estatuto da Criança e do Adolescente e a criação da Secretaria Nacional de Direitos Humanos.

Para tanto, responder à pergunta deixada lá atrás, sobre a sequência segurança pública / questão tributária em nossa carta constitucional, oferta amarga provocação: o financiamento da segurança pública, sabe-se, é coletivo, formaliza-se em impostos que desmoronam a mínima renda dos mais pobres. E seus benefícios imediatos, atingem a quem? É isso.

23 julho 2010

Benjaminianas II - Se num mar de estrelas...

No início da década de 1970', dezenas de militantes do Partido Comunista do Brasil decidiram ocupar as margens do Rio Araguaia, no norte do país, e por lá criar focos à la Cuba de guerrilha. O intuito, historicamente já consagrado, era mobilizar a população camponesa contra o regime civil-militar que se prolongava no Brasil desde 1964. Do Araguaia, acreditavam os comunistas, nasceriam os germes de uma revolução social que se disseminaria por toda a nação. Alguns anos mais tarde, contudo, o resultado foi um verdadeiro massacre patrocinado pelas forças de repressão militar: 76 pessoas, entre militantes e populares da região, foram sumariamente assassinadas. Até hoje permanecem mistério o paradeiro de muitos corpos e as cruentas estratégias militares de matança, ocultação de cadáver e brutalidade contra aqueles que, em sua maioria jovens, acreditavam na força da liberdade e da ação humana.

Naquele ano, acalorado 68', havia muitas coisas em comum entre aqueles dois jovens. Ele, altivo, amante de todos os esportes, aficcionado pelo álbum branco dos Beatles e pela singeleza roqueira de "Between The Buttons", dos Rolling Stones, um incondiconal fã da estética de Glauber, despia preconceitos, sublimava intolerâncias, expurgava todas as formas de morrer por nada. Queria porque queria - e acreditava nisso veementemente - mudar o mundo. Não perdia a chance de se repetir à exaustão: "O que realmente me interessa é amar e mudar as coisas!". No contrapé, ela, ternura angelical, fragilidade e sensibilidade em medidas corretíssimas, sonhava viver a vida, correr mundo, conhecer culturas, cineastas, literatos; imaginava-se diariamente nos sofás amorosos de Kundera, nos mares de Hemingway, no Rio de Janeiro de Machado de Assis. Ele e ela, consonantes, vogais em síntese de uma palavra sonora - AMOR -, eram a ideia pura de um par perfeito, eterno, paradigma romanesco.

Contagiado pela febre política estudantil de sonhadores universitários e trabalhadores do planeta, os quais lutavam contra a censura, o autoritarismo e as ditaduras civis-militares em seus países, ele optou pela luta armada, pelos focos guevaristas de guerrilha no campo, nas florestas brasileiras. Acuada pelo conservadorismo moral de toda a sua tradicional ascendência familiar, ela acabou por aceitar a cultura do bacharelismo e ingressou na Faculdade de Direito: seus pais por ela sonhavam com um lugar na suprema corte, no delírio pequeno-burguês de patronesse da ordem, da moral e dos bons costumes. Caçavam para ela bons pretendentes entre as famílias da elite da cidade.

Ele, quando soube que partiria para missão revolucionária em menos de três dias, levou-a, às escondidas, para um final de semana defronte do mar. Sob o belo e inigualável sol de Copacabana, descobriram e discutiram a vida, fizeram planos, anteciparam em desejo e bem-aventurança a felicidade que compartilhariam nos anos seguintes, por toda a vida. Amaram-se fervorosamente, com alma, corpo, sonhos de virtude. Congelaram o tempo e reduziram o mundo àquele quarto de hotel com vista para o oceano atlântico. Ao cair da tarde, quando as estrelas já anunciavam a amante e cálida noite carioca, trançaram braços que empunhavam cálices de vinho e pactuaram uma existência perene, tranquila, comum: "A nós!".

Ela, de volta à vida diária, afundou-se nos estudos e, ciente da aventura maluca na qual estava mergulhado seu amor, desenvolveu uma forte espiritualidade. Estudar e orar passaram a protagonizar seus dias.

Alguns meses mais tarde, quando ela se preparava para as provas finais do primeiro ano da faculdade, derrubou-lhe a notícia de que os "terroristas" da Serra Forte haviam caído um a um após cruentas investidas do exército nacional na região. A operação "Morte à Subversão" realmente havia dizimado os focos guerrilheiros, pondo fim às esperanças e aos desajustes dos jovens revolucionários.

Dele nunca mais nada se soube. Seu corpo jamais fora resgatado pelos pais e familiares. As circunstâncias de sua morte permanecem segredo de Estado em proibidas gavetas dos arquivos da vergonha, dos quais constam os maus-tratos e a tortura contra aqueles que lutaram pela liberdade de todo um povo numa época de uma ainda possível nação.

Ela, magistrada, atua hoje em julgamentos de criminosos comuns, ladrões pobres da periferia, punguistas, desempregados crônicos, negros, aqueles a que Gramsci chamou subalternizados - impedidos por uma sociedade excludente e violenta de poder saborear as frutas, os doces e o vinho da vida. Casada com um desembargador décadas mais velho e mãe de um casal, já adolescente, mora num extenso e luxuoso tríplex em bairro nobre da capital.

Dele, ela guarda a lembrança de, na juventude, ter se apaixonado por um ingênuo sonhador.

08 julho 2010

Latinizando I - tocando a bola

Foto da Seleção Brasileira que disputou a Copa de 1982, na Espanha. Poucas vezes na história do esporte bretão em terras brasileiras um time tão talentoso foi reunido e encantou tanto a nação. O versinho "Voa, canarinho, voa!" emblematizou aquela geração de gênios dispostos a tocar a bola, fazer muitos e belos gols e emocionar as multidões

Lembro Belchior, no ano em que eu tinha vinte e cinco, cantar que, em seu quarto de século de sonhos, sangue e luta sul-americana, um tango lhe caía bem melhor que um blues. Amo o blues, principalmente aquele dos grandes mestres da guitarra, trilha sonora da urbana noite de Chicago. Revendo meus caminhos literários e a confiança que depositei na estética de minhas imagens e conceitos em movimento, confesso que o drama tão característico do tango, unilateralmente envolvente e sedutor, tem me convencido a oferecer-lhe efusiva e profunda paixão. Aliás, paixão é a palavra símbolo da latinidade que tanto me encanta nas curvas, formas e paisagens do mundo.

A cultura latina - nas letras, nas telas, no esporte, no amor... - é envolvente, conduzida com sobriedade e muita volúpia. Ela é, a um só tempo, pulso e reflexão, entrega desmedida e racionalidade comedida. Fúria e paixão.

Os ritmos latinos - caribenhos, sul-americanos, agrestinos ou caboclos brasileiros - expressam muitas cores e miscigenações: o negro, o vermelho, o amarelo, o branco, tropicalizados, compõem uma fina mistura de alegria, lamúria, descompromisso e olhos firmes no horizonte. Poucas vidas humanas são tão marcadas pela inteligente dialética passado-presente-futuro como as latinas. Na América Ibérica, coração valente da humanidade, está o exemplo maior de uma história que conecta biografias e trajetórias coletivas, barricadas de liberdade, desejo, anseios pelo porvir. Recuperando o belo conceito de C. Wright Mills, na latinidade reside a evidência maior da verdadeira imaginação sociológica.

Ser latino é cotejar noções e visões de felicidade e lançá-las ao crivo incisivo do tempo histórico, exigindo respostas que tragam calorosos anúncios do devir, do merecido e ensolarado depois-do-amanhã. Entre nós, latinos lobos dançarinos, o tempo histórico, mais que um fardo, é um desafio provocador, necessário.

Dia desses, numa entrevista concedida a Revista Caros Amigos, mês de junho, li o craque Sócrates, imortalizado no escrete da seleção canarinho de 82', reiterar que, para nós, brasileiros, porção substantiva da latinidade-mundo, o fuebol tem de ser espetáculo, pura arte; tem de encher olhos e sensações, fazer pular, gritar, cantar, vibrar por detalhes, dribles, lances de gênio, gols épicos. Num mundo tão pragmatizado e tornado mercantil, Sócrates me lembrou o grande Dario Pereira, zagueiro são-paulino e uruguaio na década de 80'. Certa feita, quando técnico de futebol, Dario foi interpelado sobre como jogaria seu time. Ele, latinamente, respondeu: "Tocando a bola pra frente e procurando fazer o gol". Fascinante! Dario Pereira e Sócrates, o dono do toque de calcanhar mais elegante do futebol em todos os tempos, resgatam, pois, o ameaçado de extinção futebol-arte.

A seleção brasileira de 1982, por exemplo, que disputou, sob comando do tricolor Telê Santana, o fio maravilha das Laranjeiras nos anos 50', a Copa da Espanha, não venceu, caiu diante de uma Itália de futebol quadrado e setorizado, mais parecida com um pavilhão militar do que com um time de futebol. O choro pela derrota, contudo, passou e já foi esquecido. O que está para todo o sempre gravado na retina e na memória futebolística da latinidade são o espetáculo e a magia deixados por Éder, Leandro, Júnior, Zico, Chulapa. Sócrates, Falcão, Cerezo, Oscar e companhia ilimitada!

Ninguém escreve poesia para vender livros e enriquecer-se materialmente. Não há quem esculpa, pinte, proseie no intuito de celebrizar-se midiaticamente. É quase certo que, se isso ocorre, trate-se de tudo, menos arte - nem poesia, nem escultura, nem literatura, nem cinema...

Pitágoras, o filósofo de Samos, já nos ensinara, cinco séculos antes da era cristã, que nos espetáculos da vida (e ele se referia especialmente aos jogos esportivos de seu tempo) existem tão somente três tipos de sujeito: os que disputam, e por isso estão ocupados em vencer e não perder; os que vendem e compram, e portanto querem saber de lucrar ou não gastar demais; e os observadores, aqueles que não querem lucrar nem conquistar nada, uma vez que desejam saber a respeito do que está à volta, teorizar, tematizar as coisas, as pessoas, a vida. Esses, disse o filósofo, são os verdadeiros cidadãos. Querem conhecer, experienciar, partilhar ideias e opiniões. São o embrião moral do intelectual de que tão carente somos hoje em dia...

Conhecer, nesse sentido, é algo bastante latino: requer dançar, seduzir, viver. Nada mais. Por nada mais. E assim se vence, de um modo muito próprio, ao som de grandes tangos, fortalecedoras tragédias. É isso.

06 julho 2010

Benjaminianas I - A dança da loba

"Dança ao Sol", fotografia de Isabel Gomes da Silva

para Marina Ann Hantzis

Destempero. Sim. Essa é a palavra que me vem à cabeça quando penso em meus demônios. Na verdade, quando os afronto, interrogo, ameaço. A esvaziada obsessão que eles alojam em minha consciência é desproporcional à força das ideias, ao poder da imaginação que me visita toda manhã para lembrar o que tenho, o que sinto, o que posso, o que sou. Na síntese de mim mesmo, percebo que as palavras que frutificam frases que erguem textos que consolidam valores, visões de mundo, destemperam-se diante da absurda busca pelo gozo solo, hedonista ensimesmado, sem partilha, sem contrapartida... O gozo do solipsista desprazer anula as fantasias em nome das quais jura existir, figurar. Fantasias valem a pena tão-somente quando protagonizam a emergência da realidade. Longe disso, mais do que delírio, é destempero puro, a ilusão de um sabor de míseros segundos, inevitavelmente sucedido por porquês e negações: do porvir, procrastinado; do agir, maculado; do fugir, flagrado e obstado.

Desperdício de tempo. Destemperar é isso também. A imaginação que transborda no instante anterior a todas as práticas constrange-se diante de imagens falsas, apressadas, que põem em acelerado movimento um crítico espírito frágil, refém do mundo das coisas e coisificações que ele mesmo tanto crê combater... Arrefecido, escondo-me, entristecido, na extrema dificuldade de dosar o mundo da vida. Os mapas para a minha festa surgem então borrados: onde encontrar o antídoto contra o esvaziamento dos meus sentidos e o prejuízo progressivo de minhas ideias? A iminência do niilismo prático me assusta!

Acrobacias, alegorias, cenários em cetim, preenchidos por uma avalanche ardil de sussurros e calores insinuantes, postulam a permanência. O único vestígio de permanência, contudo, é a perda da chance de fazer, ser, erguer-se diferente. Intrépido paradoxo: a obsessão contínua pelo prazer infinito estrangula a alternativa viva de uma permanência que transcenda o tempo e o espaço de um existir que implora ser superado, alterado, substanciado, aprumado.

Calafrios, nítida sensação de abandono, fantasmas e espectros rondam meu mundo, todos os mundos em volta do meu, daquilo que deveria ser meu. Já! É tão poderoso assim um inimigo que intimida apenas pulsões, tênues frestas da percepção? O corpo, termômetro e também alvo do ato obsessivo, congela ânimos e ideias após o ponto explosivo de seu desejo. Sonoridade e leveza, quase um poema, em fonema bretão: desire! De bela fronte, delicada e irresistível, desejo/desire comprime meu projeto de versar, prosear, colorir de letras meu universo.

O mar que - desire! - tanto almejo atravessar é provavelmente o remédio e a cura; negação, sublimação, afirmação; chance, batalha, vitória. Nas águas certas da inspiração vocacionada para o belo, o destino será pular ondas e fotografar imagens de boas vindas à dança da loba, conceito anfitrião de uma vida lutadora, alegre, intensa e esplendorosamente rica: fim da estrada para os meus demônios. Exílio.

24 junho 2010

Aforismos II - rebeldias

"Books", fotografia de Alexander Kharmalov

Hannah Arendt me ensinou, definitivamente, que compreender significa, antes de mais nada, posicionar-se contra tudo e todos. Se me posiciono logo de início em favor de uma ideia ou de uma prática, debilito minha crítica e me impeço de analisar antes de aceitar ou até de celebrar. Insurgir-se é matéria-prima do conhecimento.

Ouvi, por uma entrevista televisiva, depois li, em sua bela apreciação de uma sociologia das ausências, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos defender que o papel das universidades hoje - e também do trabalho que deve ser desenvolvido por partidos, associações, movimentos, mídias alternativas e independentes... - é forjar e temperar espíritos rebeldes. A rebeldia, água da vida, é sinônimo de inquietude, que, por sua vez, é ingrediente obrigatório da busca por saber e felicidade.

Edgar Morin, subjetividade autodidata, intelectual do mundo, insiste que a complexidade deve ser tomada como princípio organizador do pensamento, da prática, do convívio humano. Evitar simplificações, enterrar fórmulas e esquivar-se de todas as maneiras de predizer e prenunciar compilam, com estilo e sofisticação, a atividade cerebral hipercomplexa, substância da racionalidade, elixir das emoções, oásis da transformação. Aceitar a complexidade do espírito humano é não ajuizar com estreiteza falas, ações e reflexões; é eleger a vida como consequência da rebeldia, do inconformismo, da revolução - agora, sim, diária e reflexiva.

17 junho 2010

Um toque de classe

"Ajuste Final"(2006), óleo sobre tela de Adamz Alonzo

Há um indiscutível descompasso entre ética e moralidade. No mundo contemporâneo, moralismos - substâncias privatistas de pensar, agir, viver - invadem o mundo público, espaço da incontestável presença da multiplicidade, para ditar regras e exigir posturas universais. A ética, que não pode ser verticalizada, pois nasce do pacto político dos encontros culturais, horizontalidade do social, perde então vitalidade e até razão de ser.

Exemplos de ilibada conduta moralista e não-ética pululam pelo mundo: políticos que falam em alto e arrogante tom no nome de Deus e desviam recursos públicos destinados a creches, escolas e hospitais; líderes religiosos que condenam tudo e todos e, na calada da noite, perdem-se nos mais desatinados institutos da má-fé e da corrosão do caráter; celebridades midiáticas que posam de cidadãs exemplares e solidárias em campanhas de combate à fome, à exclusão, à derrocada ambiental, à violência doméstica... e não se envergonham de, paradoxalmente, defender as atrocidades policialescas, a pena de morte, a moral retrógrada, a criminalização dos movimentos sociais, o consumo imbecilizante e irresponsável, as ideias e os valores dos verdadeiros lutadores da liberdade...
Ética pressupõe, portanto, um intervalo curto entre o que se quer para si e o que se permite para todos. Em havendo longos percursos entre aptidões e valores morais e o campo de atuação e presença necessária da ética, ampliam-se distorções e desigualdades entre indivíduos, grupos e classes sociais. Numa palavra: a supremacia de poucas morais sobre a ética de todos, intersecção das parcelas morais conviventes, produz opressão e exclusão.

Charles-Louis de Secondat, o Barão de Montesquieu, já alertava, nos setecentos, que o pensamento ético se consolida por escala, numa detida e consciente partida do menor - em importância, extensão e profundidade - em direção ao maior, vitrine dos valores gerais do humano. O que é bom para um não pode ser ruim para alguns; o que é excelente para alguns não pode, de modo algum, ferir vida e obra de muitos; o que fortalece muitos e desgraça todos é crime inafiançável! Vale ressaltar que o patrono dessa progressão, o autor de O Espírito das Leis, era um nobre monarquista e aristocrata espírito do século XVIII...

Aproximar ética de moral significa condenar as duas ao exílio da vida comum. É necessário que se delimitem, cultural e socialmente, os espaços de desenvolvimento e prática de ambas, de modo simultâneo, sim (evidente!), mas também paralelo. Valores e concepções morais caem bem onde aqueles que lá estão partilham uma mesma visão de mundo, limitada por equivalentes metafísicos e transcendentes. A compostura ética, de modo distinto, é desejada nos espaços em que toda sorte de diferenças, valores, visões e esperanças depositam passos, olhares, graças e insinuações.

No cruzamento de vidas singulares, expressões miniaturizadas de determinantes e determinações morais, só pode haver vez para a exigência ética do convívio, o ponto de ebulição de uma moral que se universalize, se apoie nas demais e se sacrifique em nome daquilo que é mais pertinente, mais consequente, mais abrangente e, portanto, mais avançado. Trata-se, pois, no indivíduo, de um toque de classe. É isso.

16 junho 2010

Aforismos - A arte de viver

"Geometrias", fotografia de Rod Costa

A arte da vida é surreal e, ao mesmo tempo- paradoxo total! -, pós-moderna: expressa muito do inexpressável e rabisca possibilidades ousadas, fazendo contornos sutis em grossas vigas e calcando a tinta em tênues e fragilíssimas linhas.

O risco, traço inevitável da arte de viver, experimenta a dupla loucura da dialética certeza/incerteza. Incertos, arriscamos a toda a hora, na honesta busca de acertar. Certos de estarmos certos, driblamos as incertezas fingindo que elas não nos incomodam ou, no limite, nem existem.

Investir em palavras é prolongar nossa presença no mundo para muito além de nossa temporalidade/espacialidade. Viver sob o signo da palavra num mundo tão comprimido e veloz é pressupor capturar o tempo e estender ao infinito nossas geografias pessoais, nossas arquiteturas particulares do belo, do correto, do aprazível. Insitir na palavra, contudo, é provocar espaços e deles exigir novas entradas para novas ideias, novos sujeitos. Novos tempos, pois.

10 junho 2010

Não te rendas

Detalhe noturno e de muitas luzes da Enseada de Botafogo, à entrada da Baía de Guanabara, Zona Sul da Cidade do Rio de Janeiro. A fotografia é de Stefano S. Martini

Nas modernas e líquidas sociedades humanas, para mais uma vez falar com o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, a firmeza de propósitos, a coerência de princípios e a retidão de caráter costumam formar um arsenal de velhas e inadequadas armas num tempo de batalhas velozes e cruéis. Nossos tempos são de derrotas e vitórias que se assemelham; afinal de contas, não há muitos ideários em jogo, visões de mundo, projetos de país, de mundo. Tudo voa e desaparece sem que quase ninguém perceba. No meio desse caminho tão atroz, fustigado por perdas e danos infinitos - no paradoxo da indiferença marcante de nossas posturas diante da vida! -, alguns insistimos em sonhar, combater bons combates, enfrentar a barbárie e gritar aos ventos que ainda há (precisa haver) esperança. É uma questão de buscar o que ainda há de humano em nossa experiência comum. Li esses dias o belo poema abaixo reproduzido do uruguaio Mário Benedetti, "Não te rendas", cuidadosa e talentosamente traduzido por Flávio Aguiar. Diante de palavras tão simples, senti-me novamente no furacão da já antiga modernidade, crente nas palavras de ordem "liberdade, igualdade e fraternidade". Ao mesmo tempo, num momento em que minha vida passa por transformações pessoais e profissionais profundas, julguei abrangentes as palavras do bravo e saudoso poeta uruguaio. Suas palavras ampararam minhas lágrimas e temperaram meu receio com coragem e vontade de seguir em frente. O amor, como de praxe, fará sua vez de porto-seguro, canto sagrado para o descanso e máquina energética para a necessária volta ao mundo. Estarei pronto. Como sempre.

por Mário Benedetti (1920-2009)

Não te rendas, ainda há tempo
Para voltar e começar de novo,
Aceitar as sombras,
Enterrar os medos,
Soltar o lastro,
Retomar o voo.

Não te rendas, pois a vida é
Continuar a viagem,
Perseguir os sonhos,
Destravar o tempo,
Percorrer os escombros
E desvelar o céu.

Não te rendas, por favor, não desistas,
Ainda que o frio queime,
O medo morda
E o sol se esconda,
Ainda que se cale o vento.
Ainda há lume na tua alma,
E vida nos teus sonhos.

Não te rendas
Porque a vida é tua e também o desejo
Porque o quiseste e porque te quero,
Porque existe o vinho e o amor, é claro.
Porque não há ferida que o tempo não cure.

Abrir as portas,
Livrá-las das trancas
Abandonar as muralhas que te protegeram,
Viver a vida e aceitar o desafio, Recuperar o riso,
Arriscar uma canção,
Baixar a guarda e estender as mãos,
Distender as asas
E tentar de novo
Celebrar a vida e retomar os céus

Não te rendas, por favor, não desistas,
Ainda que o frio queime,
O medo morda
E o sol se esconda,
Ainda que se cale o vento.
Ainda há lume na tua alma,
E vida nos teus sonhos.
Porque cada dia é um novo começo
Porque essa é a hora e o melhor momento
Porque não estás só, por que eu te quero.

27 maio 2010

Cartão Vermelho

Houve um tempo, não muito distante, em que ter e empunhar bandeiras era atitude tão necessária quanto corriqueira. Ideias moviam o mundo, configuravam a face da Terra, impunham caracteres políticos às andanças coletivas, circulavam os destemperos econômicos impedindo-os do excesso desumanizador. Tragadas pela sociedade do espetáculo, do cinismo e da egolatria, as bandeiras foram enroladas, guardadas e, aos poucos, vêm sendo queimadas diante do semblante confuso e desesperado da Humanidade, carente de "ismos" e reinvenções. Na foto acima, uma imagem redentora: o velho símbolo anarquista, vítima de tantas deformações e incompreensões a cargo de seus opositores e oponentes, às mãos do que já foi futuro: as crianças do mundo!
Tenho defendido que se pense com determinação a respeito do custo altíssimo que a humanidade é obrigada a assumir por esta vida. Reduções salariais, minimização de investimentos necessários, maximização de expropriações desnecessárias, precarização crescente das condições de autorrealização e de realização objetiva de um mundo melhor... Tudo isso tem deposto contra valores, princípios, desejos que venho nutrindo faz anos, exteriorizando sentimentos e insurgências d'alma na forma de palavras, ditas, escritas, exclamadas!
A felicidade - e aí a postulação já nem é minha - declina em razão inversamente proporcional à mercantilização do mundo (mundo da vida também, mestre J. Habermas). Mais cores e formas, menos conteúdo e propósito; mais velocidade, menos complexidade; muito mais coisas, muito menos gente - as multidões apavoram o humano, que antes a elas se dirigia para encontrar o outro e hoje nelas se mistura para evitar todos, inclusive a si mesmo. Metáfora viva de um indesejado e repugnante labirinto espelhado...
Líquidas, para lembrar Bauman, tornaram-se quase todas as relações sociais. Os antigos espaços de convivência - da famíla à praça pública - cederam terreno para a construção de lojas, corredores, centros de diversão e entretenimento onde todos riem, cantam, dançam, gastam dinheiro... e ninguém se vê ou se percebe. Sombras e silêncio em meio a luzes, paredes enormes e insuportáveis burburinhos e gritarias.
Pagamos pela perda das intersubjetividades. Nossas fantasias são banalizadas, alternam-se entre o banal, o instantâneo, o comercial e o gozo fácil - perigoso e já pouco amedrontador. Nossos projetos se diluem na fria água da desesperança, do uníssono credo no salve-se-quem-puder, alegoria substantivada da pós-modernidade. Propósitos, despropositam-se; certezas, incertas como nunca, astronáuticas. Utopias, inofesivas, cócegas da impossibilidade, do imobilismo, da apatia promíscua e ubíqua.
Observando o mundo, dada a força com a qual o presente se instaura como tempo único, sobressai a convicção de que, para a maioria de nós, houve dois grupos distintos a ocupar o planeta em toda a sua longa História: os dinossauros e, logo em seguida, nós mesmos, hoje e para sempre.
Ignorando o tempo histórico, supondo que passado e futuro, caso existam, são perceptivos imaginários da literatura fantástica e ficcional, escapamos à compreensão de nossa lamentável derrocada ambiental: o planeta vem aquecendo o solo e os ânimos, aumentando o volume das águas e da nossa indiferença, degelando pólos e nosso desejo de romper, mudar, transcender o real.
Alimentamo-nos mal, cuidamos pouco e de modo nada exemplar um do outro. Vivemos, na verdade, apesar do outro. Por generalizada incapacidade de ofertar bons exemplos, incitamos, quase sempre sem nos darmos conta, atitudes violentas e desproporcionais a tudo, contra tudo. Revitalizamos o conservadorismo moral e o liberalismo econômico, recrudescendo preconceitos, prejuízos e desperdícios múltiplos, contantes, ilimitados. Rasgamos os mapas para a festa e incineramos o humano, em tempos iguais, fronteiriços, já nem um pouco árduos. A máquina, uma ameaça na velha Modernidade, uma figura ilustrativa e retórica para desavisos políticos, é a protagonista da sociedade líquida que aniquila o humano.
Trabalhamos para sobreviver, como formigas, em bloco, em grupo, escala, enquadrados pela disciplina da produção e do controle social. Como o capital que ronda, espectro pós-moderno, somos especulados a toda a hora: nossas escolas - das creches às universidades - viraram laboratórios, nos quais se testam programas, métodos, currículos, perfis, ênfases, tudo para agradar ao deus-mercado, ícone pop da atualidade, e destruir sonhos, escombros de um tempo insistente, doente, parasitário. Os sonhos, internados no hospício projetado pelas notas verdes da circulação mundial de créditos e credos, pararam para sempre de gritar: "Unam-se, movam-se". Perderam braços e pernas, consciência e visão. Vivem enconstados nas memórias tardias da resistência.
Na súmula do jogo, do acaso que disse não à capacidade humana de tomar para si os destinos de sua presença no mundo, registra-se em destaque e com letras italizadas: o prognóstico do amanhã, erguido sobre a poeira cinzenta das mortas utopias de ontem, proclama corações vazios e incertezas renovadas diariamente.
Sustento-me no movediço campo de um jogo que se disputa há muito tempo, do qual eu participo desde sempre, cujas regras, contudo, nunca aceitei. Vivo expulso.