24 janeiro 2010

O ponto

"Ponto por ponto", fotografia de Tiago Palma

Na vida
para lá ou desde lá
não existem atalhos
picadas reluzentes
voos certos, inquestionávis

Aliás
só há questões
de ordem e desordem
de paz e guerra
de impertinência, pura incontinência

Voos existem apenas para pouso
nada seguro
sem pistas, apenas circunstâncias

Passos
largos, leves ou claudicantes
numa direção
ponto único: interrogação

23 janeiro 2010

Breve passagem por Pasárgada

"Corpos", fotografia de Renata Ludwig

A sensação que me invadia era a de que seus trejeitos me chamavam, anunciavam a predisposição para um frenesi autêntico de mãos e bocas. Ela estava ali fazia quase um ano, aparentemente distante, intocável. Transparecia, ao menos a minha ingênua forma de negar o possível, certo ar angelical, pudico, coisa à moda mais que antiga. Nada. Naquele instante, rodas sobre o asfalto, suas curvas driblavam purezas e exalavam luxúria, intuito alvoroçado de explosão, erotismo pós-moderno.

Como se tivesse sido capturado por uma nau pornô, dei-lhe com as mãos entre as pernas, forçando o jeans a abrir caminho para o calor que eu desejava sentir. Àquela altura sua boca já havia encharcado meu rosto, pescoço todo. Estava afogado, inebriado para o dali a pouco, eternamente. A tentativa de fazer silêncio era ofuscada pela impressão de que estávamos acordando o mundo. Meus dedos já haviam vencido as barreiras do cós, da calcinha, sorviam-se da quente aventura de seu segredo mais cobiçado. Baixinho, bem baixinho, lembro ter dito, bocas coladas, "gostosa", "delícia"... Ouvi, em sacanas suspiros, uma linda e dissimulada variação da lenda de Eros - o anjo louco do prazer agora era meu orixá do amor. Meu corpo e minha alma eram puro caos.

Quando, enfim, a fiz gozar (os olhos dela, conquanto fechados, não puderam camuflar o êxtase, os lábios pulavam na vã tentativa de disfarçar a língua que os circundava, insana, saciada na escuridão), senti-me herói. Soube que seria para sempre chamado para novas e ousadas jornadas de paixão. A terra perfeita do poeta seria nossa até depois do fim do mundo!

O anjo havia voado, e o menino medroso que havia em mim cresceu, agigantou-se. O recôndito tão almejado havia sido conquistado, com espaço-múndi para nossos corpos, delírios, projetos de viver juntos, saudar a vida e o futuro.

Na noite seguinte, soltos, escondíamo-nos atrás de portas, paredes e distrações. Nossas bocas e mãos se revelaram criativamente apaixonadas na clandestinidade.

Viva-voz

"Confronto entre o Sol e o Mar", fotografia de Marco Bagarrão

Ela insistia que nosso caso não poderia terminar daquele jeito. Queria mais chances, novas oportunidades. Batia realmente numa única tecla: me amava e acreditava que nossa história tinha algo a render. Via felicidade em uma união desunida, enxergava futuro no deserto hostil do presente, em andanças trágicas, tantas vezes agressivas. Num momento de desatino incontrolável, afirmou que até carinho havia entre nós.

Nas chacoalhadas do cotidiano - em meio às ofensas ideológicas praticadas entre esnobismos e voos de silêncio ensurdecedores -, ela julgava capturar ternura, via de fato bem-querer. Orgulhava-se de ter por mim um tesão infinito...

Eu andava à beira-mar naquele cair da tarde de céu aberto, avermelhado, divino. Carregava embaixo do braço um livro de insólito amor cortês. Lia em voz alta (olhar no horizonte) a redenção da minha história. Clamava pelo amor que ficara em minha terra, à minha espera...

Contrarrevoluções: reflexões sobre o PNDH-3

"Direitos Humanos", fotografia de Vanessa

Palavras deveriam produzir impacto por aquilo que de fato revelam; ao contrário, animam quase sempre somente preconceitos, privatismos e interesses extravagantemente de classe, sem classe, puro absurdo.

Para muito além do elitismo inegável de nossa vida cultural hegemonizada por um burguesia semifeudal (para falar com "Raízes do Brasil", de Sérgio Buarque de Holanda), a questão dos direitos humanos no Brasil raramente atravessa os muros do idealismo conservador e de direita, apoiado no latifúndio, no industrialismo destrutivo e tardio, na ainda-nem-fordista ideia de desenvolvimento econômico e social. Grande mídia, igrejas, partidos políticos, proprietários rurais, empresários citadinos, celebridades de hora marcada, todos endossam as meias verdades, as falsidades inteiras. Distorcem fatos, mitificam realidades, fetichizam a exclusão, a desigualdade e os embriões da pobreza e da violência sociais. Instigam, por outro lado - e ao mesmo tempo! -, o ódio aos subalternizados, banalizam temas e discussões profundos (como os próprios direitos humanos, sempre execrados e tratados como armadura da vilania), marginalizam coletividades, expurgam do espaço público as minorias e seu justo e legítimo direito à universalização. Numa palavra, lançam toda a vida humana à superfície, destacando frugalidades, levezas recheadas de terceiras e ideológicas intenções de dominação.

Inegável mesmo é constatar o uníssono das vozes e o apoio cego de multidões aos interesses privados dessa hegemonia de classe. É como perceber, em perfeita sintonia, a indisposição do mundo e a impotência do humano. Bom seria se as palavras ainda pudessem produzir o efeito desejado da crítica, cujo resultado não tardasse em denunciar diariamente a perfídia daqueles que se colocam acima do bem e do mal e se protegem atrás das barricadas eletrônicas do mundo da imaginação corrompida.

21 janeiro 2010

Altermundismo

"A revolução espreita", fotografia de João Gonçalves

Não sei ter pressa
nem consigo não fazer.
Quero o mundo todo
sob minhas asas
protegido por meus olhos
seguro em minhas mãos.

Minha inimiga é mesmo a falta de pressa
preciso de tempo para respirar
observar
descrever
desnudar
dialetizar o mundo, seus tumultos.

O desejo de parar
para ver o movimento das coisas
corrói meu ímpeto por revoluções.
Nada se faz hoje em dia sem correria
esgotamento, irritação
improvisos a perder de vista.

Insisto: invisto
Reitero: tempero o tempo
Na fuga da pressa
fica o mundo
pleno, anticíclico, insano.

Reticência

"Rua 5", fotografia de Larissa Dantas Franco

Havia dois rastros no topo de todas as circunstâncias. Existiria alguém para dizer quem foi? Uma confissão àquela altura de tudo seria muito oportuna, desejável. O silêncio persistia e as meninas perambulavam de lado a lado, sorriam, apertavam o passo. Um clima de deboche tomava conta da rua, rompia a quadra. Eu procurava diversão e algum comprometimento: um amanhã de certezas após um hoje provavelmente intranquilo cairia bem, muito bem.

Insaciável

"The photographer", de Luis Sarmento

A conta dos rounds, enfim, se perdeu. Já não há mais motivos para numerar o amor: agora a aventura é infinita, progressiva, louca à exaustão. Repetem-se as façanhas velhas e novas. A descoberta do outro se espraia vis-à-vis, corpos integrados, beijos que dão à luz bocas sedentas de si, para si. O universo desses amantes, vida mútua, é pura consciência em si, a emancipação total da paixão. Já não tateio esboços do mundo: tenho ele próprio, inteiro e consagrado, ao sabor de minha mão, dos movimentos e dos segredos da eternidade.

Volto a ser menino quando despejado sobre suas curvas, procurando o melhor - entre o que já é o melhor que há em sua totalidade indiscútível! - ponto de ebulição. Trêmulo, coração chama a força do corpo: quer amar mais e mais. Contrariando as fronteiras dos limites humanos, excedo-me, alimento com energias antes inexistentes minha porção latina, mítica... Rompo nossas cercas, cruzo seu campo, inundo de volúpia e loucura suas balizas. Ela se debruça sobre mim: "Você é perfeito!" Sinto-me hercúleo, semideus. Na verdade, homem, simplesmente homem. Enfim.

Tudo é sintonia transcendente, como um álbum perfeito de rock oitentista: duas baladas de escorrer lágrimas, duas pancadas hard irrepreensíveis, um blues arrebenta-quarteirão, teclados etéreos, vozes cativantes (algo entre a planura e a rouquidão), um candidato a hino e muita, muita virtuose... Obra dos sonhos, amor real, linda e excessivamente real!

A saciedade não chega até nós. Os instantes de plenitude rapidamente se esgotam, convocando outros, e outros, e outros... É como se para além do céu houvesse um limite elaborado somente para nós. E nesse espaço fora de todo alcance estivesse escrito: inventem formas próprias de amar. E sabemos fazer isso também. Coisas malucas acontecem, tão estimulantes quanto provocadoras, meio sacanas, docemente alegres. Nosso cume sempre se desfaz em sorrisos e compromisso de renovação amorosa, cumplicidade eterna, absolutamente tresloucada.

Sem culpa nem inocência, recheados de desejos de virtude, juntamo-nos sob sóis e luas, programando nossas vidas num código único: comunhão.

18 janeiro 2010

Enadeanas

Pedro, jovem pobre da periferia de uma grande cidade, concluiu o ensino médio à custa de muito sacrifício e graças a um curso supletivo noturno.

Entusiasmado, e vendo seus colegas de empresa ingressando em faculdades, resolveu tentar a sorte e cursar o ensino superior. Não encontrou nenhuma dificuldade para ser aceito numa das tantas instituições que existiam em sua cidade. Sequer soube de desempenho, classificação, essas coisas. Recebeu uma carta com dezenas de informativos publicitários e um gordo boleto indicando valores de matrícula e primeira mensalidade. É claro que teve novamente de optar pelo turno da noite.

Mês a mês, entretanto, cresciam as dificuldades para acompanhar o curso. As leituras, os trabalhos, todas as exigências do ensino acadêmico - ainda que apaiolado - colocavam Pedro em xeque. A pergunta que se fazia todos os dias era: "Vou conseguir?"

Alguns anos depois, favorecido por muitas circunstâncias mercantilistas, Pedro terminou a faculdade, colou grau e encheu o coração de alegria e esperança. Anos mais tarde, no entanto, continuava no mesmo emprego, fazendo as mesmas coisas e recebendo o mesmo salário.

Pedro ainda se pergunta: "Vou conseguir?"

15 janeiro 2010

Lua solar, sol lunar

Da Pedra da Gávea, Rio de Janeiro, partem em voo livre casais que vivem amores poderosos, agraciados pela paisagem divina que amantes carregam no olhar nos momentos mais acalorados de suas vidas. Voar da Pedra para a vida é assinar compromisso de amor intenso, novo a cada instante, ainda que por toda a eternidade...

Por mais de doze horas tive a nítida sensação de reviver todos os meus quase trinta e seis anos de idade. Pude, sob olhares, mãos, beijos quentes e ternos, passar a limpo os instantes mais decisivos de minha trajetória de vida. Calmo e sereno, caí nos braços de uma paixão colossal, que chegou devagar, revelou-se de modo inusitado e se intensificou a distância, graças às pequenas maravilhas tecnológicas da sociedade pós-moderna. Confesso que fui levado ao olho do furacão, de onde pude ver o mundo em sua forma mais genial: caótica, imperfeita, humana. A beleza e o esplendor, no entanto, também estavam lá, carregados por ventanias, raios, rajadas de paixão, sangue, total embriaguez da alma. Pulsou em mim, minuto a minuto, a pujante entrega amorosa rodrigueana, cafajeste e terna, puta e dama, comedida e absolutamente despudorada.

Os ímpetos se repetiam: uma, duas, três, quatro, cinco... Sim, cinco artesanais etapas de amor, lascívia ardente, paixão que não se cabia, permitia, exigia mais, explosiva e mais forte a cada nova investida de seu belo, incrível, mágico desenvolvimento.

Por uma cheia lua e um cintilante sol de verão, tempo regado por gotas de uma garoa aliviante, entre beijos, pernas, mãos e curvas de todas as matizes, entendi a força da felicidade.

Fonsequiana

"pb", fotografia de Antonio Louro

As palavras ameaçavam desaparecer-lhe da boca. Não havia mais nada em sua máquina-corpo que parecesse funcionar. A situação evidenciada por todos os limites já havia rompido o espaço do suportável, o tempo do dizível. O sexo era intenso, muito suor umedecia lençóis e corria pelo colchão, pela estrutura da cama. Sussurros provocantes de paixão mista, dor, satisfação, delírio. Numa palavra: a verdadeira foda. Embaixo de luzes baixas, mínimas, o corpo dos dois amantes eram dois, mas se refazia, dado o entrelaçar mirabolante de pernas, braços, bocas, pau e buceta, num só. A foda havia purificado as almas e reunido tudo num abraço de alívio, esplendor, matreirice de adultos que retornavam, enfim, à adolescência dos prazeres infinitos. Ah, que foda, que foda...

Quinto Round

O famoso calçadão de Ipanema/RJ, onde todos os casais de amantes de minha imaginação literária caminham em busca do amanhã eterno, certo, justo

Água, fogo
ingredientes de uma paixão-limite
ação, palavra
palavra, ação
provocação, síntese dos contrários
amor vivo, anunciada explosão

Todos os amores do mundo
de uma só vez
uma noite, uma manhã
início de tarde
relva
catarse sob corações flechados
almas e corpos cravejados de sangue, suor, beijos

Sonho forte, importe
grande porte, delírio
de uma vida a viver
bandeira revolucionária

Ardentes chamas
desejadas fontes, pontes, passarelas
infinita loucura - doce loucura de amar