23 janeiro 2010

Breve passagem por Pasárgada

"Corpos", fotografia de Renata Ludwig

A sensação que me invadia era a de que seus trejeitos me chamavam, anunciavam a predisposição para um frenesi autêntico de mãos e bocas. Ela estava ali fazia quase um ano, aparentemente distante, intocável. Transparecia, ao menos a minha ingênua forma de negar o possível, certo ar angelical, pudico, coisa à moda mais que antiga. Nada. Naquele instante, rodas sobre o asfalto, suas curvas driblavam purezas e exalavam luxúria, intuito alvoroçado de explosão, erotismo pós-moderno.

Como se tivesse sido capturado por uma nau pornô, dei-lhe com as mãos entre as pernas, forçando o jeans a abrir caminho para o calor que eu desejava sentir. Àquela altura sua boca já havia encharcado meu rosto, pescoço todo. Estava afogado, inebriado para o dali a pouco, eternamente. A tentativa de fazer silêncio era ofuscada pela impressão de que estávamos acordando o mundo. Meus dedos já haviam vencido as barreiras do cós, da calcinha, sorviam-se da quente aventura de seu segredo mais cobiçado. Baixinho, bem baixinho, lembro ter dito, bocas coladas, "gostosa", "delícia"... Ouvi, em sacanas suspiros, uma linda e dissimulada variação da lenda de Eros - o anjo louco do prazer agora era meu orixá do amor. Meu corpo e minha alma eram puro caos.

Quando, enfim, a fiz gozar (os olhos dela, conquanto fechados, não puderam camuflar o êxtase, os lábios pulavam na vã tentativa de disfarçar a língua que os circundava, insana, saciada na escuridão), senti-me herói. Soube que seria para sempre chamado para novas e ousadas jornadas de paixão. A terra perfeita do poeta seria nossa até depois do fim do mundo!

O anjo havia voado, e o menino medroso que havia em mim cresceu, agigantou-se. O recôndito tão almejado havia sido conquistado, com espaço-múndi para nossos corpos, delírios, projetos de viver juntos, saudar a vida e o futuro.

Na noite seguinte, soltos, escondíamo-nos atrás de portas, paredes e distrações. Nossas bocas e mãos se revelaram criativamente apaixonadas na clandestinidade.