23 janeiro 2010

Contrarrevoluções: reflexões sobre o PNDH-3

"Direitos Humanos", fotografia de Vanessa

Palavras deveriam produzir impacto por aquilo que de fato revelam; ao contrário, animam quase sempre somente preconceitos, privatismos e interesses extravagantemente de classe, sem classe, puro absurdo.

Para muito além do elitismo inegável de nossa vida cultural hegemonizada por um burguesia semifeudal (para falar com "Raízes do Brasil", de Sérgio Buarque de Holanda), a questão dos direitos humanos no Brasil raramente atravessa os muros do idealismo conservador e de direita, apoiado no latifúndio, no industrialismo destrutivo e tardio, na ainda-nem-fordista ideia de desenvolvimento econômico e social. Grande mídia, igrejas, partidos políticos, proprietários rurais, empresários citadinos, celebridades de hora marcada, todos endossam as meias verdades, as falsidades inteiras. Distorcem fatos, mitificam realidades, fetichizam a exclusão, a desigualdade e os embriões da pobreza e da violência sociais. Instigam, por outro lado - e ao mesmo tempo! -, o ódio aos subalternizados, banalizam temas e discussões profundos (como os próprios direitos humanos, sempre execrados e tratados como armadura da vilania), marginalizam coletividades, expurgam do espaço público as minorias e seu justo e legítimo direito à universalização. Numa palavra, lançam toda a vida humana à superfície, destacando frugalidades, levezas recheadas de terceiras e ideológicas intenções de dominação.

Inegável mesmo é constatar o uníssono das vozes e o apoio cego de multidões aos interesses privados dessa hegemonia de classe. É como perceber, em perfeita sintonia, a indisposição do mundo e a impotência do humano. Bom seria se as palavras ainda pudessem produzir o efeito desejado da crítica, cujo resultado não tardasse em denunciar diariamente a perfídia daqueles que se colocam acima do bem e do mal e se protegem atrás das barricadas eletrônicas do mundo da imaginação corrompida.