21 janeiro 2010

Insaciável

"The photographer", de Luis Sarmento

A conta dos rounds, enfim, se perdeu. Já não há mais motivos para numerar o amor: agora a aventura é infinita, progressiva, louca à exaustão. Repetem-se as façanhas velhas e novas. A descoberta do outro se espraia vis-à-vis, corpos integrados, beijos que dão à luz bocas sedentas de si, para si. O universo desses amantes, vida mútua, é pura consciência em si, a emancipação total da paixão. Já não tateio esboços do mundo: tenho ele próprio, inteiro e consagrado, ao sabor de minha mão, dos movimentos e dos segredos da eternidade.

Volto a ser menino quando despejado sobre suas curvas, procurando o melhor - entre o que já é o melhor que há em sua totalidade indiscútível! - ponto de ebulição. Trêmulo, coração chama a força do corpo: quer amar mais e mais. Contrariando as fronteiras dos limites humanos, excedo-me, alimento com energias antes inexistentes minha porção latina, mítica... Rompo nossas cercas, cruzo seu campo, inundo de volúpia e loucura suas balizas. Ela se debruça sobre mim: "Você é perfeito!" Sinto-me hercúleo, semideus. Na verdade, homem, simplesmente homem. Enfim.

Tudo é sintonia transcendente, como um álbum perfeito de rock oitentista: duas baladas de escorrer lágrimas, duas pancadas hard irrepreensíveis, um blues arrebenta-quarteirão, teclados etéreos, vozes cativantes (algo entre a planura e a rouquidão), um candidato a hino e muita, muita virtuose... Obra dos sonhos, amor real, linda e excessivamente real!

A saciedade não chega até nós. Os instantes de plenitude rapidamente se esgotam, convocando outros, e outros, e outros... É como se para além do céu houvesse um limite elaborado somente para nós. E nesse espaço fora de todo alcance estivesse escrito: inventem formas próprias de amar. E sabemos fazer isso também. Coisas malucas acontecem, tão estimulantes quanto provocadoras, meio sacanas, docemente alegres. Nosso cume sempre se desfaz em sorrisos e compromisso de renovação amorosa, cumplicidade eterna, absolutamente tresloucada.

Sem culpa nem inocência, recheados de desejos de virtude, juntamo-nos sob sóis e luas, programando nossas vidas num código único: comunhão.