22 fevereiro 2010

Crônicas do mundo ao avesso III

Há pessoas que se vendem e há pessoas que compram as que se vendem. Há também pessoas que acreditam num mundo melhor - e lutam por isso!

Esses imprescindíveis - como proclamou Brecht - não estão à venda: sublimam toda lógica mercantil que esgota e fulmina. São gente, só isso.

Como gente, cantam e choram, vibram, baixam o olhar na tristeza dada pela incompreensão, pela diária luta desigual. Mas ficam, eternizam-se! Também na doce e às vezes dura condição de gente, recuam, dizem adeus, para voltar à luta e batalhar noutras frentes, menos burras e hostis!

Já se disse por aí, com sensibilidade e muita inteligência, que por vezes é necessário navegar. Hora de depositar meus sonhos noutros mares!

Crônicas do mundo ao avesso II

Havia duas coisas em questão, e uma necessariamente excluía a outra: ou se debatiam ideias, ou se expunham as tristes curvas do poder.

O poder, algo bem objetivo dado por condições bastante visíveis, não se afeiçoa às ideias: exercitar o mando destrói a teoria, aniquila o ato reflexivo e impede a contundência do ato crítico. O poder se revela por suas incongruências e formas de amedrontamento.

Na impossibilidade de argumentar à altura da grande teoria e da vivência efetiva dos termos em questão, o poder se insinua ao ridículo, provocando mal-estar, indução ao erro. A grande teoria, entretanto, não se cala: reafirma seu compromisso com a vida e com a História!

E na busca por um fim mais coerente, a grande teoria se afasta, para observar, fria, o calor das provocações. Talvez seja a hora de navegar!

20 fevereiro 2010

Crônicas do mundo ao avesso I

O burocrata perguntou ao seu operador no pregão: "Nossos negócios vão bem, rapaz?"

O rapaz, radiante, respondeu: "Maravilhosamente, senhor! Nunca entrou tanto recurso pra gente gastar, torrar"

Ao que o vendido dirigente empastelado lembrou: "Não se esqueça de colocar as pessoas que trabalham conosco nos discursos"

O rapaz, confuso, retrucou: "Como assim, senhor, eu não entendi..."

"É que as pessoas precisam aparecer em algum lugar. No lugar real, deixemos o dinheiro. Para o ouvido dos crédulos e imbecis, o ser humano!"

14 fevereiro 2010

Meu conceito

"Edifício Treme-Treme", fotografia de Marco A. Rossi (novembro de 2009), ícone paulistano de um conceito de cidade esvaziado pela modernidade tardia e periférica, absorvida pelo culto ao luxo e pela marcha da exclusão social e humana, indecifrável, inexplicável, lamentável...

Explica-se por si
existe, fascina, seduz
trabalha trejeitos notáveis
lábios, olhos, passos caminhantes
caminho para todos os meus passos

Adjetivar é coisa vã
diante da síntese do melhor dos sonhos
daquilo que peregrina
entre coração e mente
fitando, deslocando, enfeitiçando

Pés, delírio
cintura, frêmitos quadris
boca, leve maré de paz
olhos, odisseia
vilarejo d'alma
mulher-metrópole: vastidão

Conceito puro
sem comparação
nem complemento
amor-movimento
esplendor
luz, vigor, inteireza

Intransitivo, meu amor
eterna, minha fortaleza
totalidade
emblema do meu alucinar
paixão autoevidente
farol
bússola
bem-querer

Há conceitos
que reclamam um senão
um porém
alguns todavias, entretantos

Há um conceito
todo meu
que incendeia, clareia
explana romance
um conceito
que é conto
é crônica
é intensa poesia

Amor de minha vida
ama de meu pensar
letra viva de minha história particular

Conceito, que me conceitua
dá sentido, fonte, vida louca vida, breve, imensa

13 fevereiro 2010

Espectro genebrino

Jean-Jacques Rousseau (Genebra, 28 de Junho de 1712Ermenonville, 2 de Julho de 1778)

Jean-Jacques Rousseau acreditava na bondade humana e julgava a sociedade um palco fecundo para aprisionamentos e hostilidades. O suíco, autor do belo "Emílio", um tratado educacional de estupenda envergadura, era insuspeito de comunismo, verve libertária. Morreu quarenta anos antes do nascimento de Karl Marx e onze antes da Revolução Francesa, evento histórico que deu à luz conceitos como os de socialismo, esquerda, progressismo etc. Não podendo ser revolucionário, Rousseau foi, no mínimo, um pensador inquieto, um homem que depositou dúvidas e muitos questionamentos sobre a propalada razão iluminista.

Como acreditar na razão humana livre num mundo contaminado pelas desigualdades sociais perpetradas pela propriedade privada? De que modo cantar a alegria da paz e da prosperidade no seio de uma realidade que corrói virtudes e inaugura diariamente novos e horripilantes vícios?

Não obstante sua impossível filiação ao ideário libertário de anarquistas e socialistas do século XIX (impossibilidade simplesmete temporal!), o autor de "Do Contrato Social" revelou-se precursor do combate político aos desatinos do privatismo, do individualismo e das concepções liberalizantes que estabeleciam razão e emoção em meio a um solipsismo cego e desumanizador, num período de crescentes angústias e conflitos.

Contra a barbárie generalizada presente nas acusações da teoria hobbesiana de sociabilidade; firmemente convencido do vazio político do liberalismo de primeira data (como fazer política numa relação de espíritos espelhados, a sós consigo mesmos?); e convictamente posicionado fora da órbita dos entreguismos e transfugagens de toda a sorte - em cujo cerne via seu desafeto Voltaire -, Rousseau alcança facilmente o posto de pensador contemporâneo: clássico por atender a demandas políticas e culturais de nosso tempo, definitivo por contagiar corpos e almas com sentimentos e práticas de rebeldia e insurgência. Um autor de seu tempo, para além de todos os tempos.

09 fevereiro 2010

Ler: substância

"Um livro no coração", fotografia de Luis Ferreira

Livros
tramas, dramas
gente de toda sorte
a sorte de toda as gentes

Li, vi, venci
descobri e reinventei mundos
naveguei mares
cartografei almas e flores
cotejei encantos
aplaudi multidões
dor, alegria, puro espanto

Eduquei - poli - o espírito
decência rousseauniana
desvelei culturas, colori mapas
transcendi
invadi corações, olhares
pus corpos em movimento
seduzi lábios, insinuações

As palavras escritas falam
voam, mergulham, dançam
leem, preveem, reveem
infinitas passagens
inúmeros milagres
espetáculos e desatinos

A palavra e o livro
são exclusividades fraternas
experiências mágicas
eternas - projeções
insubstituíveis - destinos cruzados

Os melhores livros
contêm as mais fortes palavras
As mais letradas palavras
preenchem os livros decisivos

Ler é uma definição!

08 fevereiro 2010

Visões

"Coqueiros do Leblon", fotografia de Marco A. Rossi (31.01.2010)

Viver o rio inteiro, no rio, por todo o mar
andar à toa, praia afora, areias que confortam
sonhar com as pérolas, deitar conchinha sob a lua-mar
caminhar léguas sob a proteção divina

Subir pedras, todos os morros
a quente alma do samba
gente bamba, de canga, que canta
tão frenética que é rock
tão complexa que é bossa
tão espontânea que é jazz
tão feeling que é blues

Cinema, pura trama
canção, puro enredo
luzes, som, ação com muita reflexão
gentes, brilhos, caminhos - flores e espinhos

Sonhar o rio inteiro, no rio, por toda a vida

Neopoeta

"Sem definição concreta". fotografia de Catarina

Meu sonho é escrever aquele poema, cheio de lirismo, belos jogos de palavras, indescritível e explícita paixão. Quero com ele adjetivar o mundo todo. A ansiedade por produzir o verso perfeito, a estrofe modelo, a rima encantadora, enfim, aquela poesia definitiva, unânime, é devaneio de todo artista da palavra. O poema para sempre universal é a consagração de todo artífice das ideias.

O mundo, também já chamado realidade sensível, inevitabilidade factual, exterioridade objetiva, é, em todos os sentidos, avesso à prática poética. Não obstante a exuberância da vida natural, a tal objetividade inconteste do mundo expõe com crueldade desamor e indiferença. Se a razão de ser da verve poética requer inspiração - a derradeira condição do indizível, excitante, sublime -, como impulsionar sentimentos poéticos em face de tanta cobrança por pragmatismo, utilitarismo?

A poesia, em si etérea, dita às sensações, pode convencer na inacabada realidade sem imaginação? Há poesia onde já não existem abstrações, divagações, reflexões sobre tudo e sobre nada?

Meu sonho novo é contribuir para erigir um mundo em que a poesia seja urgentemente requisitada. Anseio por livros pululando entre crianças, jovens, idosos, humanos. Simples assim: humanos.

A exterioridade tão pouco subjetivante não pode prescindir, para inebriar-se da letra-poema, de alma, contextos de diálogo, enternecimento, aproximação das intersubjetividades, tão plurais e, ao mesmo tempo, amedrontadas pela estreita e hostil violência das mídias, médias, gigantes tempestades de imagens, sons, superfluidades e efemeridades do mundo, das factualidades inevitáveis...

Eu desejo que o mundo se curve ao poema, e desejo ainda mais que a poesia convença o mundo a se humanizar. Pura dialética da palavra.