13 fevereiro 2010

Espectro genebrino

Jean-Jacques Rousseau (Genebra, 28 de Junho de 1712Ermenonville, 2 de Julho de 1778)

Jean-Jacques Rousseau acreditava na bondade humana e julgava a sociedade um palco fecundo para aprisionamentos e hostilidades. O suíco, autor do belo "Emílio", um tratado educacional de estupenda envergadura, era insuspeito de comunismo, verve libertária. Morreu quarenta anos antes do nascimento de Karl Marx e onze antes da Revolução Francesa, evento histórico que deu à luz conceitos como os de socialismo, esquerda, progressismo etc. Não podendo ser revolucionário, Rousseau foi, no mínimo, um pensador inquieto, um homem que depositou dúvidas e muitos questionamentos sobre a propalada razão iluminista.

Como acreditar na razão humana livre num mundo contaminado pelas desigualdades sociais perpetradas pela propriedade privada? De que modo cantar a alegria da paz e da prosperidade no seio de uma realidade que corrói virtudes e inaugura diariamente novos e horripilantes vícios?

Não obstante sua impossível filiação ao ideário libertário de anarquistas e socialistas do século XIX (impossibilidade simplesmete temporal!), o autor de "Do Contrato Social" revelou-se precursor do combate político aos desatinos do privatismo, do individualismo e das concepções liberalizantes que estabeleciam razão e emoção em meio a um solipsismo cego e desumanizador, num período de crescentes angústias e conflitos.

Contra a barbárie generalizada presente nas acusações da teoria hobbesiana de sociabilidade; firmemente convencido do vazio político do liberalismo de primeira data (como fazer política numa relação de espíritos espelhados, a sós consigo mesmos?); e convictamente posicionado fora da órbita dos entreguismos e transfugagens de toda a sorte - em cujo cerne via seu desafeto Voltaire -, Rousseau alcança facilmente o posto de pensador contemporâneo: clássico por atender a demandas políticas e culturais de nosso tempo, definitivo por contagiar corpos e almas com sentimentos e práticas de rebeldia e insurgência. Um autor de seu tempo, para além de todos os tempos.