08 fevereiro 2010

Neopoeta

"Sem definição concreta". fotografia de Catarina

Meu sonho é escrever aquele poema, cheio de lirismo, belos jogos de palavras, indescritível e explícita paixão. Quero com ele adjetivar o mundo todo. A ansiedade por produzir o verso perfeito, a estrofe modelo, a rima encantadora, enfim, aquela poesia definitiva, unânime, é devaneio de todo artista da palavra. O poema para sempre universal é a consagração de todo artífice das ideias.

O mundo, também já chamado realidade sensível, inevitabilidade factual, exterioridade objetiva, é, em todos os sentidos, avesso à prática poética. Não obstante a exuberância da vida natural, a tal objetividade inconteste do mundo expõe com crueldade desamor e indiferença. Se a razão de ser da verve poética requer inspiração - a derradeira condição do indizível, excitante, sublime -, como impulsionar sentimentos poéticos em face de tanta cobrança por pragmatismo, utilitarismo?

A poesia, em si etérea, dita às sensações, pode convencer na inacabada realidade sem imaginação? Há poesia onde já não existem abstrações, divagações, reflexões sobre tudo e sobre nada?

Meu sonho novo é contribuir para erigir um mundo em que a poesia seja urgentemente requisitada. Anseio por livros pululando entre crianças, jovens, idosos, humanos. Simples assim: humanos.

A exterioridade tão pouco subjetivante não pode prescindir, para inebriar-se da letra-poema, de alma, contextos de diálogo, enternecimento, aproximação das intersubjetividades, tão plurais e, ao mesmo tempo, amedrontadas pela estreita e hostil violência das mídias, médias, gigantes tempestades de imagens, sons, superfluidades e efemeridades do mundo, das factualidades inevitáveis...

Eu desejo que o mundo se curve ao poema, e desejo ainda mais que a poesia convença o mundo a se humanizar. Pura dialética da palavra.