11 março 2010

Coisas pares

"In her party dressing to kill III" , fotografia de Negateven

Uma pequena corrida era necessária para que alcançasse o lugar desejado. Não era ainda uma bela praia, o mar permanecia parte do melhor de suas utopias. Tudo, de certa maneira, ganhava novos ares e apresentava chances ou dadas por perdidas, ou entendidas como impossíveis. A caminhada revelava dia a dia entretantos fascinantes.

A forma como olhava a vida, o peso que o próprio mundo depositava sobre seus ombros e sua consciência; o melhor do passado que assombrava o pior do presente e tornava imensas as longas noites de inverno; os sons que vinham de longe, fantasmagóricos, e as imagens, turvas, que não lhe saíam da memória-retina; tudo que até então - até o cruzar do lago naquela corrida tão oportuna - era duro e desanimador converteu-se em princípio de força, carga explosiva de vitalidade.

Um novo e real amor a proclamar vida diferente, ousada e poderosa, recheada de paixão e encontros sempre inusitados (a delícia do imponderado amoroso!) transformou-o em caminhante: o mar seria agora seu limite.

Enfim, um ano par, um mês par, um dia para no meio de uma semana bela e também par. Corpo e alma, fontes pares da vida, direcionavam-no para o muitíssimo bem acompanhado sonho de suas virtudes, encantamentos. Nascia, na volta do lago, na brecha aberta para o mar de todos os amores, um guerrilheiro urbano de sua própria liberdade. Correr é preciso!