16 abril 2010

Esboço

"Lápis roído", de André Navega

Menino ainda, não viu outro jeito de fazer a coisa certa. Tinha poucos segundos para decidir entre viver arruinado por ilusões altamente sedutoras ou assumir a felicidade na humildade e na produção literária de suas ideias. À época, duas décadas atrás, não estava contaminado ainda pelas belas cores do mundo pós-moderno: não havia ruína que pudesse deslocar seus caminhos de letras, palavras e sentenças. Era um escritor nato, por toda a vida. Jamais passara um único dia sem escrever, fosse o que fosse, cartas, bilhetes, pequenos poemas, desabafos existenciais à la diários adolescentes... Quando ouviu Frei Betto dizer que um escritor se descobre como tal quando não encontra resposta para a pergunta "Saberei viver sem poder escrever?", viu-se diante do mar, da imensidão marítima de seus desejos de escriba incorrigível. Felicitou-se por não saber fazer nada além de escrever, escrever, escrever...

Abriu a janela, debruçou-se sobre os sonhos que escondera no peito, protegendo-os da áspera força do real, e não titubeou: esboçou com os dedos, numa lauda imaginária que projetou nas nuvens, um definitivo epitáfio: escrever para ser e viver para escrever. O menino cresceu e se transformou num sujeito bacana, num grande rapaz de coração desenhado a letras, dramas, tramas, colossais histórias.