19 abril 2010

A felicidade é FLICTS!

A atriz Irène Jacob, em fotograma de "A fraternidade é vermelha" (1994), de Krzysztof Kieslowski

Apontavam-lhe caminhos na certeza de que estavam protegendo suas vísceras, sua pouca força diante de um mundo, no mínimo, incerto. O caos como regra sempre compôs de modo desordenado o vazio daqueles que veem horror em rosas, tumulto em beijos, conspiração na fraternidade.

Ciente de que o mundo todo mantém triste hábito de ofertar certezas e absolutices, seguia franco, fortalecendo a leveza de seus passos. Lia revistas simples e destrinchava tratados impenetráveis; via filmes típicos de chuvosas sessões vespertinas e resenhava com acuidade crítica, no repertório gigantesco de sua memória visual, o melhor da tradição européia do cinema. Os amigos lhe diziam, entre tantas outras fábulas, que um dia ele faria da trilogia das cores de Kieslowski um decálogo, completando e aperfeiçoando a obra do velho mestre. E, bem-aventurado que era com divas e ninfas, daria também ao mundo exemplares femininos acima do inatingível de uma deusa Irène Jacob, de uma rainha Juliette Binoche, de uma beldade Julie Delpy...

Como Benjamin, que atravessou o infinito na tentativa de salvar seus sonhos e ideais, tinha um coração que mal cabia no peito. Aliás, dividido por uma sociedade que ora estimula a competição, ora incita, acuada, a cooperação, debruçava-se como ninguém na crítica a um mundo cindido, eticamente muito mal resolvido. Com humor e suavidade, doçura e avidez admiráveis, sobretudo pelas bem dosadas cargas dialéticas, atropelava o cinismo de nosso tempo e fazia desabarem as ideologias mesquinhas na estúpida crença de um progresso invariavelmente positivo. Era. à luz e à sombra, um coração realmente benjaminiano.

As mulheres, entre o fascínio e o desejo mágico, viam-no puro enigma: a excitação, inevitável, abraçava-o inicialmente por conta do olhar, centrado e tranquilo. À medida que as oportunidades de aproximação se revelavam possíveis e, depois, reais, despertava-lhes lascívia incontrolável: ele era homem para amar e, abundantemente, enlouquecer-se nos labirintos da paixão, tráfego furioso de explosões entre corpos em estrondosa ebulição.

Dizia-se, à boca pequena - mas também em difundida escala -, que o mar lhe conferia vitalidade e a particularidade tão encantadora do olhar. Preferia longas e detidas contemplações ao horizonte do mundo a palavras sem fim proferidas sem objetivo nem pertinácia. Era efetivamente um sujeito de linguagens incomuns ao nosso tempo. É mais do que provável que essa distinção num espaço global cada vez mais uno dava aos seus universos tão estrelados as melhores cores e os mais intensos brilhos do mundo.

Parafraseando o bom e velho Ziraldo, pai do Maluquinho e criador da inesquecível Mata do Fundão e seus personagens, sua alma era mesmo FLICTS. Todo o mundo a via, sentia, queria, dela dizia, para ela se dirigia... Ele era a diversidade na unidade, a revolução de um tempo sem fronteiras nem medidas. Um sujeito feliz que só podia ser visto lá da Lua.