27 maio 2010

Alma

"Um ANJO na terra", fotografia de Ines
Ouvi, do saudoso mestre Wander Taffo, que "meninas de escola são fáceis mas não têm sabor, beijam, abraçam, depois retocam o batom; gosto de vê-las sumindo no retrovisor, porque não sinto prazer nem dor". E a esse vaticínio, uma sensação explosiva, Taffo acrescentava: "Estou sozinho com meu mal, minha vida na ponta de um punhal". A primeira parte, questionável (como não endoidecer por essas meninas?!), completa-se, de fato, amando ou odiando o retoque dos lábios pueris, na assustadora sedução que nos catapulta ao inferno contemporâneo da solidão.
O sorriso maroto e quase indecifrável dela, alma, menina, menina, toda menina, me fascinava. E me deixava atarantado também. Havia tanto charme naquele olhar angelical que eu não podia deixar de me indagar sobre os perigos das garotas de Taffo. Refutá-las seria o mal à ponta de um punhal? Ou, revés, o mal seria a traição de meu desejo, a fuga àquele corpo que, escondido sob camiseta e jeans cotidianos, lançava fogo contra a calmaria de meus dias? Alma - coisa etérea, transcendente - provocava minhas manhãs, tornava longas minhas tardes e fazia do desejo de antecipar o sono a síntese de todas as minhas ansiedades, nada lúgubres passeios pelos sonhos. Alma, a parte que não se toca no ser... Haveria prazer no tocar, invadir, amar perdidamente seus mistérios? Meu lirismo perdeu o chão, peregrinou entre céus de uma imaginação que agora quer ser real, materializar-se.
Nosso contato era o acaso, quase um ocaso, cáucaso do olhar, causticidade de um pôr-do-sol vermelho, pintura. Na raridade do ver, entrever, derreter, sentia-me pertencente mais a ela do que ao mundo que consumia minhas horas, desperdiçava o que pudesse haver de humano em mim. De olhos perfurantes e penetrantes, delícia!, alma investia mesmo era na eloquente e - paradoxo! - invisível forma de me atrair, capturar, absorver meus delírios. A paixão oblíqua do homem que nunca pude ser estava em xeque: lábios infantes, corpo de ninfeta, tudo muito bem cercado pelos trilhos da vida que apenas iniciavam sua trajetória amorosa, anunciavam no horizonte a maturidade, a tal plenitude. Só uma palavra martelava insistentemente todos os meus pensamentos: menina. Deliciosa, envolvente, sedutora, fascinante, mulher, é claro... Mas menina, menina, toda menina.
Diluí em água e blues a voracidade de meus instintos. Enveredei por chuva, noite, estradas infinitas. Cada olhar, uma música; madrugada sem fim compondo trilhas de histórias impossíveis, desejos proibidos, absolutamente inapropriados. Quando fui "apropriável"? Qual a última vez que não nadei na contracorrente, não escovei, benjaminianamente, a contrapelo as histórias que me atropelam, interpelam, apelam?...
Alma, mas também corpo, trejeito, condensação de tantas fantasias... Arrepios, sinto-os em cada poro, cada milímetro impossível de mim, dentro e fora. Almas?
Lembro Taffo mais uma vez: "Ninguém é uma ilha, perdida sem conexão; existem continentes que vêm em nossa direção". Alma e eu, ao menos, para o mínimo, corpos em explosão, revelação, revolução.