20 maio 2010

Mãos tricolores

A atriz Juliana Knust, que pinta telas e mais telas de vidas e mais vidas com a magia tricolor de todas as suas insuspeitas formas de enternecer e seduzir
Havia pelo menos quatro pontos ligados pelas ideias da menina. Retângulo, quadrado, um campo de futebol, uma paisagem à la Klee, o que fosse. Seus pequenos e delicados dedos revezavam as cores no painel: vermelho, verde, alaranjado, um roxo bastante extravagante, marrom, preto, azul-marinho, muitas cores fortes e fúnebres, ao estilo do mundo a sua volta. Aparentemente, para qualquer olhar desavisado, seus movimentos borravam a tela, manchavam desordenadamente um belo material pensado e projetado para grandes artes, deslocado ali, no umbral do fim, na negação mais veemente da promessa de liberdade que campeia imaginários inocentes. A intuitiva presença de cores iluminadas e charmosas - o verde mata-viva e o vermelho-grená, por exemplo - apontavam um universo utópico nos barrancos da sociabilidade mesquinha e intragável pelos sonhos do além-capital.
Ao reunir pontos e preencher de cores mágicas um quadrilátero muito do irregular, a menina fazia pulsar suas fantasias, contra o mundo que a acua, empurra, empobrece, embrutece... Do cinza-chumbo das noites regadas à bala e prosa seca, sem grãos nem letras inteiras, do marrom sempre enferrujado das paisagens e moradas, do preto covarde de sua infância roubada... florescia a força de uma terna e eterna paixão, vibrante sem limites: os miúdos porém destemidos dedos da frágil menina-esperança contrastavam com a hostilidade do planeta-real: entronizavam em sua imaginação, a viva saga de seu amanhã, a glória tricolor!