27 maio 2010

Cartão Vermelho

Houve um tempo, não muito distante, em que ter e empunhar bandeiras era atitude tão necessária quanto corriqueira. Ideias moviam o mundo, configuravam a face da Terra, impunham caracteres políticos às andanças coletivas, circulavam os destemperos econômicos impedindo-os do excesso desumanizador. Tragadas pela sociedade do espetáculo, do cinismo e da egolatria, as bandeiras foram enroladas, guardadas e, aos poucos, vêm sendo queimadas diante do semblante confuso e desesperado da Humanidade, carente de "ismos" e reinvenções. Na foto acima, uma imagem redentora: o velho símbolo anarquista, vítima de tantas deformações e incompreensões a cargo de seus opositores e oponentes, às mãos do que já foi futuro: as crianças do mundo!
Tenho defendido que se pense com determinação a respeito do custo altíssimo que a humanidade é obrigada a assumir por esta vida. Reduções salariais, minimização de investimentos necessários, maximização de expropriações desnecessárias, precarização crescente das condições de autorrealização e de realização objetiva de um mundo melhor... Tudo isso tem deposto contra valores, princípios, desejos que venho nutrindo faz anos, exteriorizando sentimentos e insurgências d'alma na forma de palavras, ditas, escritas, exclamadas!
A felicidade - e aí a postulação já nem é minha - declina em razão inversamente proporcional à mercantilização do mundo (mundo da vida também, mestre J. Habermas). Mais cores e formas, menos conteúdo e propósito; mais velocidade, menos complexidade; muito mais coisas, muito menos gente - as multidões apavoram o humano, que antes a elas se dirigia para encontrar o outro e hoje nelas se mistura para evitar todos, inclusive a si mesmo. Metáfora viva de um indesejado e repugnante labirinto espelhado...
Líquidas, para lembrar Bauman, tornaram-se quase todas as relações sociais. Os antigos espaços de convivência - da famíla à praça pública - cederam terreno para a construção de lojas, corredores, centros de diversão e entretenimento onde todos riem, cantam, dançam, gastam dinheiro... e ninguém se vê ou se percebe. Sombras e silêncio em meio a luzes, paredes enormes e insuportáveis burburinhos e gritarias.
Pagamos pela perda das intersubjetividades. Nossas fantasias são banalizadas, alternam-se entre o banal, o instantâneo, o comercial e o gozo fácil - perigoso e já pouco amedrontador. Nossos projetos se diluem na fria água da desesperança, do uníssono credo no salve-se-quem-puder, alegoria substantivada da pós-modernidade. Propósitos, despropositam-se; certezas, incertas como nunca, astronáuticas. Utopias, inofesivas, cócegas da impossibilidade, do imobilismo, da apatia promíscua e ubíqua.
Observando o mundo, dada a força com a qual o presente se instaura como tempo único, sobressai a convicção de que, para a maioria de nós, houve dois grupos distintos a ocupar o planeta em toda a sua longa História: os dinossauros e, logo em seguida, nós mesmos, hoje e para sempre.
Ignorando o tempo histórico, supondo que passado e futuro, caso existam, são perceptivos imaginários da literatura fantástica e ficcional, escapamos à compreensão de nossa lamentável derrocada ambiental: o planeta vem aquecendo o solo e os ânimos, aumentando o volume das águas e da nossa indiferença, degelando pólos e nosso desejo de romper, mudar, transcender o real.
Alimentamo-nos mal, cuidamos pouco e de modo nada exemplar um do outro. Vivemos, na verdade, apesar do outro. Por generalizada incapacidade de ofertar bons exemplos, incitamos, quase sempre sem nos darmos conta, atitudes violentas e desproporcionais a tudo, contra tudo. Revitalizamos o conservadorismo moral e o liberalismo econômico, recrudescendo preconceitos, prejuízos e desperdícios múltiplos, contantes, ilimitados. Rasgamos os mapas para a festa e incineramos o humano, em tempos iguais, fronteiriços, já nem um pouco árduos. A máquina, uma ameaça na velha Modernidade, uma figura ilustrativa e retórica para desavisos políticos, é a protagonista da sociedade líquida que aniquila o humano.
Trabalhamos para sobreviver, como formigas, em bloco, em grupo, escala, enquadrados pela disciplina da produção e do controle social. Como o capital que ronda, espectro pós-moderno, somos especulados a toda a hora: nossas escolas - das creches às universidades - viraram laboratórios, nos quais se testam programas, métodos, currículos, perfis, ênfases, tudo para agradar ao deus-mercado, ícone pop da atualidade, e destruir sonhos, escombros de um tempo insistente, doente, parasitário. Os sonhos, internados no hospício projetado pelas notas verdes da circulação mundial de créditos e credos, pararam para sempre de gritar: "Unam-se, movam-se". Perderam braços e pernas, consciência e visão. Vivem enconstados nas memórias tardias da resistência.
Na súmula do jogo, do acaso que disse não à capacidade humana de tomar para si os destinos de sua presença no mundo, registra-se em destaque e com letras italizadas: o prognóstico do amanhã, erguido sobre a poeira cinzenta das mortas utopias de ontem, proclama corações vazios e incertezas renovadas diariamente.
Sustento-me no movediço campo de um jogo que se disputa há muito tempo, do qual eu participo desde sempre, cujas regras, contudo, nunca aceitei. Vivo expulso.