24 junho 2010

Aforismos II - rebeldias

"Books", fotografia de Alexander Kharmalov

Hannah Arendt me ensinou, definitivamente, que compreender significa, antes de mais nada, posicionar-se contra tudo e todos. Se me posiciono logo de início em favor de uma ideia ou de uma prática, debilito minha crítica e me impeço de analisar antes de aceitar ou até de celebrar. Insurgir-se é matéria-prima do conhecimento.

Ouvi, por uma entrevista televisiva, depois li, em sua bela apreciação de uma sociologia das ausências, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos defender que o papel das universidades hoje - e também do trabalho que deve ser desenvolvido por partidos, associações, movimentos, mídias alternativas e independentes... - é forjar e temperar espíritos rebeldes. A rebeldia, água da vida, é sinônimo de inquietude, que, por sua vez, é ingrediente obrigatório da busca por saber e felicidade.

Edgar Morin, subjetividade autodidata, intelectual do mundo, insiste que a complexidade deve ser tomada como princípio organizador do pensamento, da prática, do convívio humano. Evitar simplificações, enterrar fórmulas e esquivar-se de todas as maneiras de predizer e prenunciar compilam, com estilo e sofisticação, a atividade cerebral hipercomplexa, substância da racionalidade, elixir das emoções, oásis da transformação. Aceitar a complexidade do espírito humano é não ajuizar com estreiteza falas, ações e reflexões; é eleger a vida como consequência da rebeldia, do inconformismo, da revolução - agora, sim, diária e reflexiva.

17 junho 2010

Um toque de classe

"Ajuste Final"(2006), óleo sobre tela de Adamz Alonzo

Há um indiscutível descompasso entre ética e moralidade. No mundo contemporâneo, moralismos - substâncias privatistas de pensar, agir, viver - invadem o mundo público, espaço da incontestável presença da multiplicidade, para ditar regras e exigir posturas universais. A ética, que não pode ser verticalizada, pois nasce do pacto político dos encontros culturais, horizontalidade do social, perde então vitalidade e até razão de ser.

Exemplos de ilibada conduta moralista e não-ética pululam pelo mundo: políticos que falam em alto e arrogante tom no nome de Deus e desviam recursos públicos destinados a creches, escolas e hospitais; líderes religiosos que condenam tudo e todos e, na calada da noite, perdem-se nos mais desatinados institutos da má-fé e da corrosão do caráter; celebridades midiáticas que posam de cidadãs exemplares e solidárias em campanhas de combate à fome, à exclusão, à derrocada ambiental, à violência doméstica... e não se envergonham de, paradoxalmente, defender as atrocidades policialescas, a pena de morte, a moral retrógrada, a criminalização dos movimentos sociais, o consumo imbecilizante e irresponsável, as ideias e os valores dos verdadeiros lutadores da liberdade...
Ética pressupõe, portanto, um intervalo curto entre o que se quer para si e o que se permite para todos. Em havendo longos percursos entre aptidões e valores morais e o campo de atuação e presença necessária da ética, ampliam-se distorções e desigualdades entre indivíduos, grupos e classes sociais. Numa palavra: a supremacia de poucas morais sobre a ética de todos, intersecção das parcelas morais conviventes, produz opressão e exclusão.

Charles-Louis de Secondat, o Barão de Montesquieu, já alertava, nos setecentos, que o pensamento ético se consolida por escala, numa detida e consciente partida do menor - em importância, extensão e profundidade - em direção ao maior, vitrine dos valores gerais do humano. O que é bom para um não pode ser ruim para alguns; o que é excelente para alguns não pode, de modo algum, ferir vida e obra de muitos; o que fortalece muitos e desgraça todos é crime inafiançável! Vale ressaltar que o patrono dessa progressão, o autor de O Espírito das Leis, era um nobre monarquista e aristocrata espírito do século XVIII...

Aproximar ética de moral significa condenar as duas ao exílio da vida comum. É necessário que se delimitem, cultural e socialmente, os espaços de desenvolvimento e prática de ambas, de modo simultâneo, sim (evidente!), mas também paralelo. Valores e concepções morais caem bem onde aqueles que lá estão partilham uma mesma visão de mundo, limitada por equivalentes metafísicos e transcendentes. A compostura ética, de modo distinto, é desejada nos espaços em que toda sorte de diferenças, valores, visões e esperanças depositam passos, olhares, graças e insinuações.

No cruzamento de vidas singulares, expressões miniaturizadas de determinantes e determinações morais, só pode haver vez para a exigência ética do convívio, o ponto de ebulição de uma moral que se universalize, se apoie nas demais e se sacrifique em nome daquilo que é mais pertinente, mais consequente, mais abrangente e, portanto, mais avançado. Trata-se, pois, no indivíduo, de um toque de classe. É isso.

16 junho 2010

Aforismos - A arte de viver

"Geometrias", fotografia de Rod Costa

A arte da vida é surreal e, ao mesmo tempo- paradoxo total! -, pós-moderna: expressa muito do inexpressável e rabisca possibilidades ousadas, fazendo contornos sutis em grossas vigas e calcando a tinta em tênues e fragilíssimas linhas.

O risco, traço inevitável da arte de viver, experimenta a dupla loucura da dialética certeza/incerteza. Incertos, arriscamos a toda a hora, na honesta busca de acertar. Certos de estarmos certos, driblamos as incertezas fingindo que elas não nos incomodam ou, no limite, nem existem.

Investir em palavras é prolongar nossa presença no mundo para muito além de nossa temporalidade/espacialidade. Viver sob o signo da palavra num mundo tão comprimido e veloz é pressupor capturar o tempo e estender ao infinito nossas geografias pessoais, nossas arquiteturas particulares do belo, do correto, do aprazível. Insitir na palavra, contudo, é provocar espaços e deles exigir novas entradas para novas ideias, novos sujeitos. Novos tempos, pois.

10 junho 2010

Não te rendas

Detalhe noturno e de muitas luzes da Enseada de Botafogo, à entrada da Baía de Guanabara, Zona Sul da Cidade do Rio de Janeiro. A fotografia é de Stefano S. Martini

Nas modernas e líquidas sociedades humanas, para mais uma vez falar com o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, a firmeza de propósitos, a coerência de princípios e a retidão de caráter costumam formar um arsenal de velhas e inadequadas armas num tempo de batalhas velozes e cruéis. Nossos tempos são de derrotas e vitórias que se assemelham; afinal de contas, não há muitos ideários em jogo, visões de mundo, projetos de país, de mundo. Tudo voa e desaparece sem que quase ninguém perceba. No meio desse caminho tão atroz, fustigado por perdas e danos infinitos - no paradoxo da indiferença marcante de nossas posturas diante da vida! -, alguns insistimos em sonhar, combater bons combates, enfrentar a barbárie e gritar aos ventos que ainda há (precisa haver) esperança. É uma questão de buscar o que ainda há de humano em nossa experiência comum. Li esses dias o belo poema abaixo reproduzido do uruguaio Mário Benedetti, "Não te rendas", cuidadosa e talentosamente traduzido por Flávio Aguiar. Diante de palavras tão simples, senti-me novamente no furacão da já antiga modernidade, crente nas palavras de ordem "liberdade, igualdade e fraternidade". Ao mesmo tempo, num momento em que minha vida passa por transformações pessoais e profissionais profundas, julguei abrangentes as palavras do bravo e saudoso poeta uruguaio. Suas palavras ampararam minhas lágrimas e temperaram meu receio com coragem e vontade de seguir em frente. O amor, como de praxe, fará sua vez de porto-seguro, canto sagrado para o descanso e máquina energética para a necessária volta ao mundo. Estarei pronto. Como sempre.

por Mário Benedetti (1920-2009)

Não te rendas, ainda há tempo
Para voltar e começar de novo,
Aceitar as sombras,
Enterrar os medos,
Soltar o lastro,
Retomar o voo.

Não te rendas, pois a vida é
Continuar a viagem,
Perseguir os sonhos,
Destravar o tempo,
Percorrer os escombros
E desvelar o céu.

Não te rendas, por favor, não desistas,
Ainda que o frio queime,
O medo morda
E o sol se esconda,
Ainda que se cale o vento.
Ainda há lume na tua alma,
E vida nos teus sonhos.

Não te rendas
Porque a vida é tua e também o desejo
Porque o quiseste e porque te quero,
Porque existe o vinho e o amor, é claro.
Porque não há ferida que o tempo não cure.

Abrir as portas,
Livrá-las das trancas
Abandonar as muralhas que te protegeram,
Viver a vida e aceitar o desafio, Recuperar o riso,
Arriscar uma canção,
Baixar a guarda e estender as mãos,
Distender as asas
E tentar de novo
Celebrar a vida e retomar os céus

Não te rendas, por favor, não desistas,
Ainda que o frio queime,
O medo morda
E o sol se esconda,
Ainda que se cale o vento.
Ainda há lume na tua alma,
E vida nos teus sonhos.
Porque cada dia é um novo começo
Porque essa é a hora e o melhor momento
Porque não estás só, por que eu te quero.