10 junho 2010

Não te rendas

Detalhe noturno e de muitas luzes da Enseada de Botafogo, à entrada da Baía de Guanabara, Zona Sul da Cidade do Rio de Janeiro. A fotografia é de Stefano S. Martini

Nas modernas e líquidas sociedades humanas, para mais uma vez falar com o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, a firmeza de propósitos, a coerência de princípios e a retidão de caráter costumam formar um arsenal de velhas e inadequadas armas num tempo de batalhas velozes e cruéis. Nossos tempos são de derrotas e vitórias que se assemelham; afinal de contas, não há muitos ideários em jogo, visões de mundo, projetos de país, de mundo. Tudo voa e desaparece sem que quase ninguém perceba. No meio desse caminho tão atroz, fustigado por perdas e danos infinitos - no paradoxo da indiferença marcante de nossas posturas diante da vida! -, alguns insistimos em sonhar, combater bons combates, enfrentar a barbárie e gritar aos ventos que ainda há (precisa haver) esperança. É uma questão de buscar o que ainda há de humano em nossa experiência comum. Li esses dias o belo poema abaixo reproduzido do uruguaio Mário Benedetti, "Não te rendas", cuidadosa e talentosamente traduzido por Flávio Aguiar. Diante de palavras tão simples, senti-me novamente no furacão da já antiga modernidade, crente nas palavras de ordem "liberdade, igualdade e fraternidade". Ao mesmo tempo, num momento em que minha vida passa por transformações pessoais e profissionais profundas, julguei abrangentes as palavras do bravo e saudoso poeta uruguaio. Suas palavras ampararam minhas lágrimas e temperaram meu receio com coragem e vontade de seguir em frente. O amor, como de praxe, fará sua vez de porto-seguro, canto sagrado para o descanso e máquina energética para a necessária volta ao mundo. Estarei pronto. Como sempre.

por Mário Benedetti (1920-2009)

Não te rendas, ainda há tempo
Para voltar e começar de novo,
Aceitar as sombras,
Enterrar os medos,
Soltar o lastro,
Retomar o voo.

Não te rendas, pois a vida é
Continuar a viagem,
Perseguir os sonhos,
Destravar o tempo,
Percorrer os escombros
E desvelar o céu.

Não te rendas, por favor, não desistas,
Ainda que o frio queime,
O medo morda
E o sol se esconda,
Ainda que se cale o vento.
Ainda há lume na tua alma,
E vida nos teus sonhos.

Não te rendas
Porque a vida é tua e também o desejo
Porque o quiseste e porque te quero,
Porque existe o vinho e o amor, é claro.
Porque não há ferida que o tempo não cure.

Abrir as portas,
Livrá-las das trancas
Abandonar as muralhas que te protegeram,
Viver a vida e aceitar o desafio, Recuperar o riso,
Arriscar uma canção,
Baixar a guarda e estender as mãos,
Distender as asas
E tentar de novo
Celebrar a vida e retomar os céus

Não te rendas, por favor, não desistas,
Ainda que o frio queime,
O medo morda
E o sol se esconda,
Ainda que se cale o vento.
Ainda há lume na tua alma,
E vida nos teus sonhos.
Porque cada dia é um novo começo
Porque essa é a hora e o melhor momento
Porque não estás só, por que eu te quero.