17 junho 2010

Um toque de classe

"Ajuste Final"(2006), óleo sobre tela de Adamz Alonzo

Há um indiscutível descompasso entre ética e moralidade. No mundo contemporâneo, moralismos - substâncias privatistas de pensar, agir, viver - invadem o mundo público, espaço da incontestável presença da multiplicidade, para ditar regras e exigir posturas universais. A ética, que não pode ser verticalizada, pois nasce do pacto político dos encontros culturais, horizontalidade do social, perde então vitalidade e até razão de ser.

Exemplos de ilibada conduta moralista e não-ética pululam pelo mundo: políticos que falam em alto e arrogante tom no nome de Deus e desviam recursos públicos destinados a creches, escolas e hospitais; líderes religiosos que condenam tudo e todos e, na calada da noite, perdem-se nos mais desatinados institutos da má-fé e da corrosão do caráter; celebridades midiáticas que posam de cidadãs exemplares e solidárias em campanhas de combate à fome, à exclusão, à derrocada ambiental, à violência doméstica... e não se envergonham de, paradoxalmente, defender as atrocidades policialescas, a pena de morte, a moral retrógrada, a criminalização dos movimentos sociais, o consumo imbecilizante e irresponsável, as ideias e os valores dos verdadeiros lutadores da liberdade...
Ética pressupõe, portanto, um intervalo curto entre o que se quer para si e o que se permite para todos. Em havendo longos percursos entre aptidões e valores morais e o campo de atuação e presença necessária da ética, ampliam-se distorções e desigualdades entre indivíduos, grupos e classes sociais. Numa palavra: a supremacia de poucas morais sobre a ética de todos, intersecção das parcelas morais conviventes, produz opressão e exclusão.

Charles-Louis de Secondat, o Barão de Montesquieu, já alertava, nos setecentos, que o pensamento ético se consolida por escala, numa detida e consciente partida do menor - em importância, extensão e profundidade - em direção ao maior, vitrine dos valores gerais do humano. O que é bom para um não pode ser ruim para alguns; o que é excelente para alguns não pode, de modo algum, ferir vida e obra de muitos; o que fortalece muitos e desgraça todos é crime inafiançável! Vale ressaltar que o patrono dessa progressão, o autor de O Espírito das Leis, era um nobre monarquista e aristocrata espírito do século XVIII...

Aproximar ética de moral significa condenar as duas ao exílio da vida comum. É necessário que se delimitem, cultural e socialmente, os espaços de desenvolvimento e prática de ambas, de modo simultâneo, sim (evidente!), mas também paralelo. Valores e concepções morais caem bem onde aqueles que lá estão partilham uma mesma visão de mundo, limitada por equivalentes metafísicos e transcendentes. A compostura ética, de modo distinto, é desejada nos espaços em que toda sorte de diferenças, valores, visões e esperanças depositam passos, olhares, graças e insinuações.

No cruzamento de vidas singulares, expressões miniaturizadas de determinantes e determinações morais, só pode haver vez para a exigência ética do convívio, o ponto de ebulição de uma moral que se universalize, se apoie nas demais e se sacrifique em nome daquilo que é mais pertinente, mais consequente, mais abrangente e, portanto, mais avançado. Trata-se, pois, no indivíduo, de um toque de classe. É isso.